Catarina Portas

«Fico selvagem quando associam as minhas lojas a saudosismo»

14 | 09 | 2011   11.10H

Fez chapéus, foi jornalista, partiu em reportagem para a Índia, deu alma a programas de televisão e rádio, até que uma pesquisa para um livro a levou a descobrir um negócio: acordar de um sono profundo os nossos melhores produtos. Nasciam as lojas da Vida Portuguesa, a que se seguiu a ressurreição dos nossos antigos quiosques. Dez anos de combate por um país que, receia, corre o risco de perder a identidade.

Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

Em pequena viveu fora de Portugal e quando voltou frequentou o Liceu Francês. Sente que isso a influenciou muito?

É, sem dúvida, uma das razões por que tenho um negócio chamado A Vida Portuguesa [risos], que vende os produtos tradicionais portugueses que marcaram uma época, por mais paradoxal que isso possa parecer...

Olhou com olhos de ver?

No fundo comecei a olhar para as coisas portuguesas tarde na vida, e com os olhos que me deram uma distância muito saudável para aquilo que depois vim a fazer.

Não tem medo de que associem as suas lojas e quiosques a uma romagem de saudade...

Se há coisa que me põe doida, selvagem mesmo, é quando as pessoas acham que os quiosques ou as lojas são negócios saudosistas. Não têm nada a ver com saudade, têm a ver com identidade, coisas muito diferentes, além de que só vale a pena deitar fora o passado se tivermos uma coisa melhor para pôr no seu lugar. Porque é que se há-de desdenhar uma coisa só porque é velha ou passada? Não idolatro a novidade. Para mim modernidade tem a ver com um olhar, uma atitude.

De onde veio a ideia das lojas?

Tudo começou por uma pesquisa para um livro sobre a vida quotidiana em Portugal no século XX, na altura bastante desconhecida. Na revista Marie Claire, no início dos anos 90, fiz um shopping de produtos baseado na Causa das Coisas, do Miguel Esteves Cardoso, e mais tarde resolvi ir procurá-los de novo para uma fotografia de uma dispensa da época. Foi ai que percebi que, no espaço de dois anos, mais de 50% desses produtos tinham desaparecido, produtos que existiam há décadas. Aí quis perceber se tinham qualidade, ou não, a sua história, data de fabricação, etc... Comecei a achar o tema fascinante, estava sempre metida em drogarias e mercearias nas mais recônditas das terras, e comecei a organizá-los em casa por áreas temáticas. No fundo arranjei um negócio para pagar uma investigação, um automecenato!

E quando é que percebeu que podiam ser um negócio?

Primeiro fizemos umas caixas com produtos para presentes de Natal das empresas, e tiveram um grande sucesso. Depois um bazar de Natal, no Bairro Alto, que também cor-reu lindamente. Aí decidimos avançar para uma loja permanente.

Que, no início, se chamava Casa Portuguesa...

Foi um nome escolhido como provocação!

Mais tarde mudou-o. Porquê?

Nessa altura tinha uma sociedade com uma amiga, mas depois percebemos que tínhamos ideias diferentes, de para onde e como ir, e enchi-me de coragem e decidi recomeçar tudo sozinha. Aí nasceu A Vida Portuguesa.

O nome mudou só por causa dessa ruptura?

Achei que era obviamente mais correcto fazer outra marca, mas também queria mudar, porque se insinuavam algumas conotações que começaram a incomodar-me. Exactamente aquele espírito saudosistas, que levava alguns clientes a festejarem demasiado o nome, a sua época e o seu contexto. Preferi um nome mais neutro, mais limpo.

E hoje os produtos são todos escolhidos por si?

Fiz uma selecção daqueles que achava que teriam mais procura. Paralelamente, comecei uma relação com as fábricas, que permitiu fazer produtos exclusivos para a loja, que vendemos não só nas nossas lojas, como revendemos para outras, o que permitiu reanimar algumas fábricas, algumas linhas de produção, redesenhar produtos, ou apenas a embalagem, tornando-os mais comerciais.

Primeiro foi a loja do Chiado, em Lisboa, e depois a do Porto?

A loja do Porto faz agora, em Novembro, dois anos e é uma pareceria com a Ach Brito, sócio minoritário. É curioso que as pessoas do norte e as do sul compram coisas diferentes, porque têm memórias diferentes: muitos destes produtos eram de distribuição regional, faziam parte da vida de uns, mas não da de outros.

Provavelmente no Norte também as lojas mais tradicionais não tinham desaparecido...

Sim, isso percebe-se bem. Lisboa tem cada vez menos lojas antigas, houve uma grande vaga de desaparecimentos nos anos 80 e 90, e no Porto isso ainda não aconteceu. Convinha era que alguém percebesse rapidamente a importância económica que podem ter para uma cidade, onde o número de turistas cresce todos os dias. Mas infelizmente, não tenho a certeza de que as autoridades no Porto tenham essa percepção. Ainda há dois anos, foram os próprios responsáveis pela reabilitação urbana da cidade que deram cabo de uma das lojas mais bonitas da cidade, que ficava paredes-meias com o Palácio das Cardosas, onde agora foi inaugurada um hotel. Teria feito um bar de hotel ou um restaurante absolutamente extraordinário.

Falam os seus genes urbanistas? Tanto a sua mãe como o seu pai são arquitectos...

É um facto que me tornei mais sensível em relação às cidades e à sua evolução por causa deles, mas não me deram conselhos em relação à remodelação das lojas.

Fez questão em manter a estrutura dos espaços?

Queria provar que é possível ter uma loja de sucesso num centro histórico, sem transformar tudo num caixote branco, com luzes embutidas no tecto. Existem mais coisas na vida para além disso! Se os centros comerciais históricos querem rivalizar com os shopping centers (onde não se apanha chuva e há estacionamento), então, têm de investir naquilo que lhes é único, toda uma personalidade e uma atitude que está nos espaços. No último mês desapareceram na Baixa de Lisboa cinco lojas antigas, algumas substituídas pelas grandes cadeias. Chamo a isso matar a galinha de ovos de ouro, e arriscamo--nos a não ter país dentro de alguns anos..

São os consumidores que preferem as grandes cadeias?

O problema não é das grandes cadeias, que acho importantes, mas o equilíbrio e a preservação da memória histórica. E o que impede que umas e outras convivam são os preços pedidos pelas rendas (como acontece agora no Ter-reiro do Paço). Esses preços só as grandes cadeias os podem pagar. Além de que tenho muitas dúvidas sobre esta globalização extrema, obsessiva! De tudo estar igual em qualquer canto do mundo.

Mas apesar de tudo não estamos todos mais conscientes do que é nosso?

Nalgumas coisas sim, noutras nunca foi tão grave. Temos pouca consciência do que se está a fazer na grande distribuição daquilo que se produz e fabrica em Portugal. Nunca foi tão grave. Pelo rumo que as coisas estão a tomar, arriscamo-nos a ter apenas duas grandes distribuidoras, com um poder de vida ou de morte sobre as empresas. Não consigo entender como é que a Autoridade da Concorrência continua tão silenciosa.

Estamos ainda muito deslumbrados com o consumo?

Deslumbramo-nos, sobretudo, com as marcas e esquecemos as nossas próprias marcas. Somos uns adolescentes. Mas convinha que começássemos a crescer um bocadinho.

Não é um fenómeno local, a avaliar pelos recentes tumultos em Londres...

[risos] Pois é! Acho que tudo também tem a ver com um excesso de marketing.

Foi considerada pela revista Monocle um dos 20 nomes a nível mundial que merecia um palco maior. O que fazia se o tivesse?

Percebi nestes últimos sete anos que os consumidores podem consumir politicamente, ou seja, informar-se mais, para poderem perceber a quem é que vão dar o seu dinheiro, que consequências tem dá-lo a estes e não aqueles, e como é que isso mexe com o mundo. Neste momento receio muito pela produção nacional, e sinto que é aí que é preciso intervir agora. Vamos ver o que saí daqui.

Agradecemos ao Martini Terraza a cedência do espaço para a entrevista e fotografia.

------------------------------------------------------------------------------------------------

«O tempo em que usei tailleurs»

Aos 20 anos era jornalista da 'Marie Claire', tinha um namorado muito a sério, e parecia muito adulta para a idade. Sente que 'cresceu' muito cedo e muito depressa?

Por acaso sinto. Sinto que como comecei a trabalhar muito nova, queria muito parecer mais velha para ver se alguém me levava a sério. Acho que foi a única época da minha vida em que vestia tailleurs... [risos]. Tinha de provar que conseguia.

O 'Independente' foi o primeiro jornal onde escreveu...

Comecei no Independente quando tinha 18 anos. Nessa fase, não sabia que profissão é que iria escolher sendo que me estava a encaminhar para duas: modista de chapéus e jornalismo. No Independente ia escrevendo textos de que gostava imenso. Quando percebi que o jornalismo poderia ser um caminho interessante para mim, a primeira coisa que tratei de fazer foi sair o mais depressa possível do jornal.

Mas porquê?

Era um sítio demasiado confortável. Tinha lá família (o Paulo [Portas] era director), namorado, amigos. Se queria perceber se valia alguma coisa, tinha de me afastar dali. Concorri à Correio da Manhã Rádio, e fui aceite. E foi na rádio, quando me deram um horário e ordenado, que optei. Os chapéus não davam para viver. Foi a dureza da vida que escolheu por mim.

Já não viva com os seus pais, o que era invulgar...

Tinha ido viver com o meu irmão Miguel, aos 16 anos, para uma casa onde vivíamos os dois.

É agora mais nova do que a maioria das mulheres da sua idade, no sentido em que recusou um estilo de vida instalado, filhos, escolas, essas coisas...

Não foi bem recusar... não calhou. Mas sim, sempre prezei mais a independência do que a segurança. Muitas vezes pensei se não teria abdicado demais, em nome dessa independência. Mas também não sei funcionar sem ela.

--------------------------------------------------------------------------------

«Tornaram-me mais sensível às cidades e aos espaços»

Catarina de Sousa Lobo Martins Portas é filha dos arquitectos e urbanistas Nuno Portas e Margarida Sousa Lobo. Nasceu em Lisboa, em 1969, cidade onde vive até hoje.

«Estava dividida entre os chapéus e o jornalismo»

Aos 18 anos fazia chapéus e pensava fazer deles uma profissão. Mas a experiência no jornal Independente e a proposta de um emprego na Rádio Correio da Manhã fizeram-na mudar de ideias.

Apresentadora do 'Frou-Frou'

Apresentou o magazine feminino Frou-Frou, em 1995, com Alexandra Lencastre, Margarida Martins, Margarida Pinto Correia, Maria Lúcia Lepecki. Quatro mulheres que discutiam o que era tabu, sem papas na língua.

«Não idolatro a novidade, só por ser novidade»

Quando se consegue a perfeição, não faz sentido deitar fora e substituir por outra coisa só porque é nova: «Um sabonete, excelente vai ser sempre bom, mesmo que já haja sabonete em pó ou líquido.»

«Devolver os quiosques à cidade»

«Quando lançámos os quiosques, um projecto meu e do João Regalo, era claro que não fazia sentido fazer deles um negócio elitista...», diz Catarina. Os fãs incondicionais do leite perfumado e dos refrescos que o digam...

«Sempre me dei muito bem com os meus irmãos»

Meia-irmã de Miguel e Paulo Portas, todos filhos do arquitecto Nuno Portas, garante que sempre foi muito próxima dos dois. Discutem política mas partilham, acima de tudo, o sentido de humor.

Saiba mais sobre:
Foto: Rowan Seddon-Harvey
«Fico selvagem quando associam as minhas lojas a saudosismo» | © Rowan Seddon-Harvey

10 comentários

  • Ó DONA ROSALINDA, por que não é clara! Diga abertamente, que ela tem corpo para dar umas boas fodas cá com a rapaziada, que o buraco não é só para mijar! Não é verdade?!
    coirão | 16.09.2011 | 19.32Hver comentário denunciado
  • É muito independente e sofisticada, e isso não é defeito, mas poderia abdicar um bocadinho disso e aprender a partilhar e conviver com um homem que khe desse descendentes, romance e amor, não? Podia continuar a usufruir do seu estilo de vida e do seu espaço, e ter o seu carácter, mas também abrir a sua vida a outras vertentes importantes e compensadoras. Há que saber ter tempo e disponibilidade mental para tudo o que vem por bem.
    Dona Rosalinda | 16.09.2011 | 13.08Hdenunciar comentário
    Tem a certeza que pretende denunciar este comentário? sim não
  • olha olha quem diria??? O destak a promover uma entrevista com a irma do ministro. Oh Isabelinha perguntou-lhe se ela sabia alguma coisa dos 30 MILHOES que foderam dos submarinos???? Muito bem.... A irma de um ministro que rico exemplo... CUNHAS, TACHOS.... favorecimentos.... Quem vai ser amanha o entrevistado? A irma do Socrates? Alguem relacionado ao Dias Loureiro??? É POR ISSO QUE ESTE JORNAL É UM NOJO, E AS PESSOAS QUE FAZEM PARTE DELE NOJO SÃO. DEEM EXEMPLOS DE PESSOAS QUE LUTEM NO DIA A DIA. NÃO A FAMELGA DOS POLITICOS. ESSES ATÉ PODEM FICAR TODO O DIA A CAGAR EM CASA QUE O DINHEIRO QUE É ROUBADO DESCARADAMENTE AOS PORTUGUESES VAI LA PARAR.... É COMO A TRETA DOS JOVENS EMPRESARIOS. EU CANDIDATEI-ME COM UM BOM PROJECTO E NÉPIAS..... MAS UMA AMIGA CUJO PAI ERA AMIGO DUM POLITICO, ADIVINHEM O QUE ACONTECEU AO PROJECTO DELA??? POISS.... E NÃO QUE ELA PROPRIA ADMITIU QUE IA METER A CUNHAZINHA AO PAI???? ORA AI ESTA PORTUGAL NO SEU MELHOR. É POR ISTO QUE ESTA MERDA NÃO VAI A LADO NENHUM. LIMPEM O CU A ESTE JORNAL MERDOSO.
    LEITOR | 14.09.2011 | 21.47Hver comentário denunciado
  • Que o destak promove as figuras do PS não restam dúvidas.
    JORNAL MAÇÓNICO? | 14.09.2011 | 20.51Hver comentário denunciado
  • Eu entre quatro paredes e Catarina Portas...às tantas digo "és saudosista...saudosista...saudosista..." Catarina salta em cima de mim selvaticamente... :) ... por acaso sempre frequentei drogarias sempre comprei pasta couto e outros produtos clássicos porque são eficazes, a mim a publicidade é uma cena que não me assiste logo não compro novidades por serem novidades...
    Charles | 14.09.2011 | 20.02Hver comentário denunciado
  • Sem dúvida que é um INSULTO À "SENHORA" E porquÊ? Eu respondo para não deixar os idiotas a pensar: ORA se é uma forma de saudosismo, como lhe é aqui apontado, o que é afinal essa PROMOÇÃO NACIONAL EFECTUADA PELAS CÂMARAS FASCISTAS DESTE PAÍS, ESSAS FESTAS MEDIEVAIS? Pergunto, o que é isto? Não é a cativar o povo e a encaminha-lo para a LEPRA E PARA A TUBERCULOSE? Porque falta tanto dinheiro para tantas obras e importantes, mas dinheiro para estas PARÓDIAS, com sardinhadas e GARRAFÕES DE VINHO, isso aparece sempre? NÃO É SAUDOSISMO? ---CLARO QUE ESTA ENTREVISTA TEM OUTRA FINALIDADE, QUANTO A MIM, pois não passa de uma publicidadezinha gratuita à MENINA! -------------------------------Ó JM, como sabe você que lea não tem homem ou homens? OLHE MEU CARO, eu não acredito que esta rapariga seja LÉSBICA,porque para satisfazer os seus desejos sexuais, não precisa de ter compromisso, com algo que só lhe poderia estragar a vida. É LIVRE e faz muito bem.
    Grande mulher | 14.09.2011 | 19.37Hver comentário denunciado
  • Um mulher tão gira, sofisticada, competente e bem educada, e não tem bébes nem homem. Casos destes são um desperdíco, ainda para mais quando a taxa de natalidade é tão baixa e uma boa parte dos nascimentos é no seio de famílias medíocres, desestruturadas e inadaptadas, como toxicodependentes, cadastrados, minorias étnicas problemáticas de guetto, beneficiários crónicos do RSI e indigentes imigrantes de países do segundo e terceiro mundo.
    JM | 14.09.2011 | 17.32H
  • Grande Catarina... até eu ficava selvagem!!!
    Fechadura | 14.09.2011 | 17.05H
  • É giro passar na loja da Catarina e berrar " Ai que saudade",....qual Evaristo do "Pátio das Cantigas" atira com tudo o que lhe está à mão ao malandro do cliente que teve a ousadia de a provocar. Ó Evaristo tens cá disto.????? Ai que saudade....
    paulo raul | 14.09.2011 | 14.39H
  • Como não podia ser outra coisa (Uma Portas) boa benedição.
    intransigente | 14.09.2011 | 12.24H
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE