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Brasil

Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, já tem banco comunitário e moeda própria

15 | 09 | 2011   20.41H

A comunidade Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, ganhou hoje um sistema financeiro próprio, com direito a moeda local, que funcionará apenas dentro do bairro, com o objectivo de estimular a economia da zona.

Destak/Lusa | destak@destak.pt

“A alma da história é que a riqueza gerada aqui permaneça aqui. A Cidade de Deus tem um enorme potencial de produzir riqueza internamente, de estimular as atividades económicas que estão dentro do próprio bairro, e essa moeda local vai viabilizar (fazer com que) que essa riqueza por aqui permaneça”, afirmou o prefeito da cidade, Eduardo Paes, durante a cerimónia que marcou a inauguração da primeira agência do banco comunitário da favela, pacificada há dois anos e meio.

Após o ato oficial, os moradores puderam trocar as suas notas de reais por “CDDs” – nome pelo qual a moeda local foi batizada, numa referência à sigla do nome da favela, que se tornou internacionalmente conhecida após o filme de Fernando Meirelles, Cidade de Deus, que ganhou quatro nomeações para os Óscares em 2002.

Foram criadas cinco notas de valores distintos que variam entre 0,50 de reais (cerca de 0,20 cêntimos de euro) e 10,00 reais (4.20 euros) e o câmbio é equivalente ao Real. A diferença fica por conta dos descontos e promoções que os comerciantes da comunidade darão para estimular o uso do dinheiro comunitário.

“É tipo o euro, que funciona lá [em Portugal], mas aqui não tem que trocar?”, explicou à Lusa a comerciante Ângela Baptista de Souza, de 59 anos, que explora uma pequena loja de bebidas e sanduíches e já colocou o autocolante indicativos de que aceitará a CDD no seu estabelecimento.

“Os comerciantes ganham porque os moradores que hoje saem daqui para consumir fora, vão passar a consumir muito mais aqui. É um processo que você vai aos poucos mudando a realidade social da vida das pessoas”, observou o prefeito, adiantando que se prevê lançar o mesmo tipo de sistema no Complexo do Alemão.

“O próximo [banco comunitário] será no Complexo do Alemão, essa é a primeira experiência concreta, vamos aprender aqui e depois queremos fazer o mesmo em outras comunidades”, destacou Eduardo Paes.

O responsável realçou ainda o facto de a iniciativa ter partido da própria comunidade. A instituição será presidida e administrada por moradores da Cidade de Deus. “É importante dizer isso: é uma iniciativa da comunidade e a prefeitura e o governo federal são parceiros auxiliares nesse processo”, afirmou.

A presidente do banco comunitário explicou que a instituição oferecerá também juros mais baixos aos comerciantes locais, para estimular o crescimento de novos pequenos empresários.

“As pessoas perguntam o que vai gerar lucro ao banco, e eu respondo: o lucro é a nossa riqueza que não vai sair do nosso território. O ganho é que aqueles artesãos, que quando tinham encomendas não tinham recursos para poder realizar o trabalho, agora vão ter direito a pegar empréstimo dentro do nosso banco comunitário”, prometeu Ana Lúcia Serafim, moradora da Cidade de Deus e responsável pela nova instituição.

O banco comunitário possui reservas em reais, o que significa que para cada nota emitida precisa de ter o valor correspondente em moeda nacional. As notas foram impressas em papel-moeda e possuem dispositivos de segurança, também como os das notas nacionais.

Esta é a primeira experiência deste tipo no Rio de Janeiro, mas no Brasil já funcionam 52 outros bancos da mesma forma.

O primeiro foi criado no Conjunto Palmeira, um bairro de 32 mil habitantes na cidade de Fortaleza, no Ceará, região nordeste do Brasil.

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3 comentários

  • Parece uma belíssima experiência. Acho que devíamos pensar em seguir esse caminho também, não cada cidade, mas cada distrito, por exemplo. Um banco dos cidadãos em cada distrito do país, gerido pelos próprios cidadãos. Criar uma moeda usável somente nesse distrito. E manter o Euro como moeda primária válida em qualquer ponto do país, Europa ou mundo. Portanto, Euro para todos, e moeda secundária regional. Os bancos centrais regionais possuem nos seus cofres Euros, mas fazem circular pela população somente a moeda secundária. Isto faz com que cada região se desenvolva muito mais por si própria, e são os cidadãos que controlam o seu banco central, em vez de serem os abutres do costume.
    2 MOEDAS A CIRCULAR | 16.09.2011 | 12.29Hdenunciar comentário
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  • Uma boa experiência, que coloca o sistema financeiro ao serviço das comunidades. O Mundo é muito mais diversificado e rico em ideias do que se imagina nesta Europa cinzenta, triste, subjugada e sem futuro.
    J. Matias | 16.09.2011 | 09.57Hdenunciar comentário
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  • Favelices....
    Carolina Salgado | 16.09.2011 | 02.05Hver comentário denunciado
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