Reportagem na Autoeuropa

Da bobine de metal até ser automóvel

11 | 10 | 2011   10.32H

Visitámos a fábrica da Volkswagen em Palmela, considerada um exemplo para o País e que está a bater recordes de produção com cinco anos.

João Tomé | jtome@destak.pt

De Palmela para o mundo. A Autoeuropa é uma pequena cidade autónoma, onde, em menos de dois dias, o que era uma pesada bobine (bloco) de metal transforma-se num automóvel completo e pronto para circular - e são quatro os que são produzidos na fábrica portuguesa da Volkswagen.

É quando testamos um monovolume como o Volkswagen Sharan, na pista da fábrica - que umas horas antes era um amontoado de peças - que percebemos a 'magia' que parece existir numa fábrica destas. Mas antes desta fase há muitas outras. Passámos algumas horas a conhecer aquela que é uma das maiores fábricas portuguesas, a que melhores exemplos parece dar ao País e uma das que mais contribui para a economia nacional.

Inaugurada a 26 de Abril de 1995, a Autoeuropa ocupa dois milhões de metros quadrados, 1,1 milhões são a área da fábrica e tem na sua dependência centenas de fornecedores (60% são nacionais e muitos estão sediados junto à fábrica).

Quatro etapas fundamentais

Para construir um automóvel existem quatro etapas fundamentais. A primeira chama-se Nave (ou área) das Prensas. É aqui que se começa a traba-lhar a matéria-prima - bobines de chapa - que tem vários tamanhos e espessuras. É impressionante ver bobines gigantes, algumas com 40 toneladas, transformarem-se em portas e capots através de máquinas gigantes - aqui fazem-se peças para outras fábricas, para modelos como o Polo (Espanha) e o Golf (Brasil).

Carroçaria cheia de robôs

As peças (que nesta altura já têm um código de barras que indica para que modelo são e mesmo qual o destino que vão ter) seguem depois para a linha de produção e entram na nave da Carroçaria. É uma zona mais apelativa ao olhar, por ter muitos robôs (são 420) a soldar de mil e uma formas as peças que andam a 'passear' por várias linhas.

É nesta área tecnológica que nasce a estrutura do automóvel e é aqui que as peças ganham alcunhas para os seus nomes alemães - os suportes dos encostos de cabeça do Eos chamam-se Santo António, em vez de Buegel Kopfstuetze, por exemplo. É impossível não reparar que os trabalhadores se deslocam nesta área vasta em triciclos, que permitem transportar peças.

Pintura é a área sensível

Com a estrutura do automóvel pronta, chegamos a uma das partes mais sensíveis e exclusivas da fábrica: a nave da Pintura. Já com um fato especial vestido, fazemos uma breve visita a este labirinto de quatro pisos, com dois pontos altos: um quando a estrutura mergulha num líquido especial; outro quando as máquinas pintam toda a chapa. Antes disso, há a lavagem antipoeiras e, depois, uma inspecção humana (com as mãos) para garantir que não há falhas na pintura.
Curiosamente, os americanos e japoneses gostam mais de branco (considerada cor da sorte), uma cor que para os chineses é de luto.

Montagem final para 1175

Trabalham na nave da Montagem Final 1175 pessoas, divididas em 203 estações. Existem vários kits (que vêm de um supermercado logístico que existe na fábrica) que vão completar o carro. Uma das partes mais curiosas chama-se Casamento. É a união entre a carroçaria, que já tem nesta fase o chamado cockpit, e o chassis. A estrutura ganha aqui partes tão importantes como os bancos, vidros, motor, capota, pára-choques, pneus, não necessariamente por esta ordem. Na parte final há um tapete curioso, onde é possível entrar nos carros ainda sem bancos (o que é uma experiência peculiar).

Findas as quatro áreas fulcrais, há duas extras antes dos Eos, Scirocco, Sharan e Alhambras partirem para o mundo. O passo seguinte é a pista de testes. Tem 2,5 km e testa todas as funcionalidades ao dispor do condutor e ainda a aceleração, travagem e suspensão, passando por vários tipos de piso. Se algo tiver problemas, o carro é recolhido.

Segue-se a verificação final (chamada CP8), onde se analisa os pormenores, da pintura às portas, e a viagem até uma família alemã (a maioria) ou portuguesa (a minoria).

---------------------------------------------------------------------------------------

Factos de uma fábrica modelo

3500 | É o número de pessoas que a fábrica empregou em 2011 de forma directa. A idade média dos colaboradores é de 38 anos e 90% deles são homens.

30,1% | O país que mais recebe a produção da fábrica portuguesa é a Alemanha, logo a seguir é o Reino Unido (11,8%) e a América do Norte (7,7%). A China subiu para 4.º este ano. Apenas 1,2% entra no mercado nacional.

420 | Número de robôs na área da Carroçaria, que fazem montagem e soldadura e onde trabalham 860 pessoas. Uma estrutura demora perto de seis horas a ficar completa.

7 | Minutos de descanso de cada intervalo dos trabalhadores, feito num local a que se dá o nome de Oásis. O almoço dura 30 minutos e acontece à vez para a produção não parar.

30% | De aumento de produção são esperados este ano. Até Agosto foram produzidas 89 351 viaturas (58 304 no mesmo período de 2010), sendo 32 122 VW Sharan, 10 894 Seat Alhambra, 16 694 VW Eos e 29 641 Scirocco.

625 | carros foram produzidos por dia na Autoeuropa em 2011, que é o máximo possível em dois turnos. Há a possibilidade de se avançar para um terceiro turno.

------------------------------------------------------------------------------------------

Produção de 2011 recorde

A economia portuguesa está em crise e a venda de automóveis em Portugal está a bater recordes negativos. Mas a Autoeuropa está a ter um óptimo ano. Em 2011, a fábrica deverá registar um aumento de produção de 30% e conseguir os melhores resultados dos últimos cinco anos, anunciou há duas semanas o director-geral, António de Melo Pires.

A produção de 625 carros por dia deve-se fundamentalmente a um aumento significativo das encomendas provenientes de países europeus, principalmente da Alemanha, mas também do continente asiático, com destaque para a China, que subiu de 6º para 4º mercado principal. Nos primeiros oito meses do ano, a fábrica subiu mais de 50% de produção, com um total de 89 351 viaturas. A empresa alertou ainda o Governo para a necessidade de uma linha ferroviária de bitola europeia para reduzir bastante os custos de transporte da empresa para os países do Norte da Europa. O sucesso da fábrica é atribuído à eficiência, formação contínua e motivação dos colaboradores.

------------------------------------------------------------------------------------------

Prémios para quem melhora a eficiência

O principal trunfo da Autoeuropa para concorrer com a mão-de-obra mais barata da China e a proximidade com as fábricas de motores do leste europeu é a aposta na eficácia e poupança de recursos. Fazer mais com menos. Por isso, a empresa dá prémios financeiros e em géneros aos funcionários que apresentam ideias para melhorar a eficácia e a poupança nas suas áreas ou mesmo em outras. Cada responsável de área tem de apresentar cinco ideias por semana, a maioria vem dos funcionários - alguns deles ficam uma semana no escritório a desenvolvê-las.

-------------------------------------------------------------------------------------------

Assiduidade da fábrica é exemplo para o país

A Autoeuropa tem sido dada como refe-rência para a indústria portuguesa. Passos Coelho deu a fábrica como exemplo da política laboral a seguir no País, nomeadamente na flexibilização do banco de horas. A Autoeuropa tem índices raros de assiduidade. A taxa é de 98,8% e os trabalhadores faltaram, em média, apenas 2,1 dias este ano, contra a média do País de 11,9 dias de falta por ano. O director de recursos humanos da fábrica diz mesmo que uma melhoria de 1% na assiduidade dos trabalhadores portugueses equivale a mais dez Autoeuropas a produzir.

Saiba mais sobre:
Foto: João Tomé
Da bobine de metal até ser automóvel | © João Tomé

2 comentários

  • Pois o 1° ministro soube referir a assiduidade dos trabalhadores da AUTOEUROPA mas esqueceu-se de dizer que ali há verdadeira negociaçáo entre trabalhadores e entidade patronal; e que os salários são competitivos; e que têm um regime de apoio a saúde pago pela empresa que faz inveja aos funcionários públicos e a sua famigerada ADSE
    Zé da burra o alentejano | 31.05.2014 | 09.20Hdenunciar comentário
    Tem a certeza que pretende denunciar este comentário? sim não
  • Concordo com tudo a que aqui foi escrito, mas, mas sobretudo com o ultimo parágrafo, que uma melhoria de 1% nos trabalhadores Portugueses equivaleria a 10 autoeuropa, agora veja-se se todos os malandros portugueses trabalhassem aonde podia estar Portugal, no topo em vez da cauda da Europa, viva a malandragem á Tuga.
    intransigente | 11.10.2011 | 11.50Hver comentário denunciado
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE