Paul De Grauwe

"Medo infundado" da inflação afecta políticas do BCE

11 | 10 | 2011   10.46H

O economista Paul De Grauwe critica o “medo infundado” de um aumento da inflação, caso o Banco Central Europeu (BCE) se assuma como credor de última instância no mercado de dívida soberana, num documento de trabalho agora divulgado.

Destak/Lusa | destak@destak.pt

“Quando o BCE recentemente decidiu comprar obrigações de Espanha e Itália, anunciou que iria esterilizar o efeito destas compras na base monetária [grosso modo, notas e moedas em circulação], retirando liquidez do mercado”, exemplifica De Grauwe.

No texto, publicado pelo CESifo, um instituto alemão de investigação económica, o professor da Universidade Católica de Lovaina considera que “esta foi uma decisão infeliz”, uma vez que “não havia necessidade absolutamente nenhuma de o fazer.”

Em agosto, a instituição liderada por Jean-Claude Trichet comprou dívida soberana de Espanha e Itália para conter a escalada de juros da dívida pública destes dois países.

Paul de Grauwe defende, no texto intitulado 'The European Central Bank: Lender of Last Resort in the Government Bond Markets?', que o BCE deve assumir-se como credor de última instância nos mercados de dívida soberana, mas constata que são avançadas várias razões para que não o faça.

Para contrariar uma destas razões, a inflação, De Grauwe recorre a Milton Friedman, que considerou que “a Grande Depressão [de 1929] foi tão intensa porque a Reserva Federal falhou no seu papel de credor de última instância e não aumentou suficientemente a base monetária dos Estados Unidos”.

Isto porque, explica, numa crise financeira, os agentes procuram deter dinheiro (e não títulos) por razões de segurança. Se o banco central decidir não fornecer moeda, transforma uma crise financeira numa recessão económica e provavelmente numa depressão.

Por outro lado, “se o banco central exercer a sua função de credor de última instância e fornecer mais base monetária, trava o processo deflacionário”, o que “não permite concluir que o banco central cria inflação”.

O professor, que é também conselheiro da Comissão Europeia e já foi candidato à vice-presidência do BCE, contesta também outros argumentos críticos da função de credor de última instância do BCE.

Sobre as alegadas consequências orçamentais (se os governos não cumprirem com as obrigações de dívida, o BCE terá perdas que terão de ser pagas pelos contribuintes), De Grauwe defende que “o banco central deve proceder a operações (arriscadas) de mercado aberto” e que “o facto de existirem perdas potenciais não deve detê-lo”, uma vez que “as perdas podem ser necessárias, e até desejáveis, para garantir estabilidade financeira”.

O “risco moral”, que entende que, ao ser credor de último recurso, o BCE “incentiva os governos a emitir demasiada dívida”, é outro dos argumentos que De Grauwe contesta. Apesar de ser um “risco sério”, admite, ele também existe no sistema bancário e “seria um erro terrível se o banco central abandonasse o seu papel de credor de última instância no sistema bancário, porque existe um risco moral”.

Em substância, De Grauwe entende que o BCE tem sido “indevidamente influenciado” pela teoria de que a inflação deve ser a única preocupação de um banco central e defende que também a estabilidade financeira deve estar no seu radar.

“Com efeito, a maioria dos bancos centrais foi criada para resolver o problema endémico da instabilidade dos sistemas financeiros”, afirma, considerando que “com o seu ilimitado poder de fogo, os bancos centrais são as únicas instituições capazes de estabilizar o sistema financeiro”.

Para De Grauwe, “é tempo de o BCE reconhecer esta velha verdade, em vez de fugir às suas responsabilidades”.

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