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Arquitectura

Picote é a 1ª barragem classificada em Portugal

05 | 11 | 2011   15.26H

A barragem de Picote, no Douro Internacional, tornou-se na primeira em Portugal a incluir a lista de património classificado, uma distinção que abrange também a “cidade ideal” que nasceu em torno da hidroelétrica há quase 60 anos.

Destak/Lusa | destak@destak.pt

A barragem e todo o aglomerado que é hoje a aldeia de Barrocal do Douro são agora símbolo da arquitetura moderna e “Conjunto de Interesse Público”, um grau imediatamente inferior ao de monumento nacional.

O processo de classificação prolongou-se durante anos e foi despachado pelo anterior secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle, a 17 de junho, quatro dias antes de o Governo socialista passar o testemunho ao executivo PSD/CDS-PP.

A portaria que concluiu o processo de classificação destaca a “vasta gama de valores patrimoniais que justificam” este reconhecimento, e considera o complexo construído no Nordeste Transmontano “uma obra de referência a todos os níveis”, realçando que representou há quase 60 anos “a autonomia e plena capacidade de concretização da engenharia portuguesa em projetos hidroelétricos com grande escala e complexidade”.

O empreendimento, o primeiro a ser construído no Douro Internacional, no processo de eletrificação do país, é muito mais do que a barragem, já que com ela nasceu, entre 1953 e 1958, uma “cidade ideal” num lugar inóspito do Nordeste Transmontano.

Num local onde a natureza permanecia selvagem, três jovens arquitetos recém-formados na Escola de Belas Artes do Porto, tiveram a liberdade para dar azo à criatividade e transformar um morro das escarpas do Douro Internacional num local habitável e “revolucionário”, numa região isolada onde faltava praticamente tudo.

Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos projetaram há quase sessenta anos o que os entendidos da arquitetura moderna classificam hoje como “uma cidade ideal”, fundada a partir do nada com todas as infraestruturas e serviços, inacessíveis à maioria da população daquela época.

O novo aglomerado tinha capacidade para suportar o quotidiano de cinco mil pessoas, e os habitantes desta “cidade ideal” foram dos primeiros, no

Nordeste Transmontano, a ter água canalizada e tratada, casas com aquecimento central, cinema, piscina, um centro comercial, estação dos correios, escola, capela e até um posto médico com especialidades ainda hoje na lista de carências da região, nomeadamente estomatologia ou raio X.

A nova aldeia foi batizada de Barrocal do Douro, mas a barragem ficou com o nome da localidade mais próxima, Picote, e teve os mesmos cuidados dos projetistas.

A central de produção de energia elétrica foi construída em caverna dentro da montanha, ao lado do paredão com cem metros de altura, que esconde as entranhas da barragem e as “catedrais”, como são apelidados os espaços interiores descritos por estudiosos como “arrepiantes e monumentais naves subterrâneas erguidas como verdadeiros monumentos à modernidade”.

Este “moderno escondido” foi descoberto há cerca de 15 anos com a publicação de um livro, com o mesmo título, da autoria de dois arquitetos da mesma escola dos autores do projeto, Fátima Fernandes e Michele Cannata, que defendem que as barragens do Douro Internacional “são obras de arte e uma parte da história da arquitetura moderna”.

Desde que foi revelado o “moderno escondido” que Picote passou a integrar o roteiro de investigadores e estudantes que, até então, procuravam no estrangeiro exemplos da arquitetura moderna.

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