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Nuno Baltazar

«Vestir bem é fazer com que a roupa revele a nossa personalidade»

16 | 11 | 2011   11.47H

Dias depois de ter sido distinguido como Melhor Criador nos Fashion Awards 2011, o designer de moda de 35 anos conta ao Destak como foi o seu percurso. Filho de um veterinário e de uma engenheira química, recorda como gostava de vestir as irmãs para as peças de teatro que produziam em casa, e lamenta que, ainda hoje, a maioria das mulheres portuguesas se divirta tão pouco a pensar e a recriar a roupa que usa.

Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

A memória mais antiga de uma peça de roupa? A memória mais marcante é a de uma saia laranja até aos pés, da minha mãe, muito anos 70. Ainda tenho um bocado da saia, porque devo tê-la desfeito para fazer qualquer coisa. Não me consigo desfazer do bocado que ainda tenho.

Desfez a saia para vestir as bonecas? As bonecas eram as minhas três irmãs, uma mais velha e duas mais novas, e o que me atraía era "vesti-las" com tecidos para entrarem nos teatros que fazíamos. Adorava criar os personagens, o cenário, as roupas. Às bonecas a sério tratava-as como se fos-sem um Action Man.

Como foi a ida para o curso do Citex no Porto? A minha vinda para o Porto foi muito anterior ao curso, e resultou da opção profissional dos meus pais (o meu pai é veterinário, e a minha mãe professora universitária de Química). Mais tarde percebi que a melhor escola de moda era no Porto e fiquei.

Resistiram à sua escolha? O meu pai, sim, no início. Dizia-me muitas vezes: "tudo menos Arquitectura!". Mas quando lhe disse que queria seguir Design de Moda, perguntou: "e porque não Arquitectura?" (risos). Mas acho que era mais por não ser um curso superior (agora já é). Quando entendeu que não havia muito a fazer, disse-me: "Tens é que ser bom naquilo que fazes!". E tenho tentado que não se desiluda.

Sente-se um Homem do Norte? Só quando me irrito (risos).

Aí o vocabulário é mais rico... Muito mais! Sentirmo-nos de um sítio pressupõe que nos sintamos em casa e eu, apesar de ter aqui os meus familiares mais próximos, sinto que é Lisboa a minha cidade.

Sabe coser um botão? Sei, sei. A parte prática era uma componente muito forte da minha formação. O primeiro mês é um mês inteiro sentado à máquina de costura, a picar folhas de papel, para dominar a máquina, até construirmos uma peça total do princípio ao fim. Confesso que não era o que fazia melhor, e conseguia sempre dar a volta às professoras para que fizes-sem as coisas por mim (risos). Mas sim, aprendi, e acho que é fundamental.

Como é que se vestem as mulheres portuguesas? Mal, infelizmente. Arriscam muito pouco, o que é uma pena porque são bonitas e vaidosas. Só aderem a uma coisa diferente quando a vêem em muitas pessoas, ou seja, quando já não é diferente. Mas ser diferente não significa ser espalhafatosa, ou uma árvore de Natal, mas ter a noção do corpo, reflectindo através do que vestem a sua personalidade.

E os homens... Curiosamente, os homens evoluíram mais rapidamente.

Despem eles a farda e vestem-na elas, é isso? Completamente. Acho que as mulheres ainda têm um bocadinho a ideia que não podem ser muito femininas para serem levadas a sério. Raramente se vê uma mulher usar uma roupa mais sofisticada ou feminina no seu dia-a-dia.

As passereles também me parecem muito cinzentas... Isso acontece porque raramente uma pessoa que não está ligada à moda vê uma colecção completa. Eu, por exem-plo, na última colecção tinha peças de um amarelo lindo, de tijolo, e outras cores, mas que não apareceram na imprensa, porque aí a escolha é das revistas...

Costuma dizer que as pessoas se divertem pouco com a roupa. Digo-o muitas vezes, e divertir-se não quer dizer gastar dinheiro. Há um ano, fiz um vestido de noiva para uma actriz, a Ana Rocha. Desde aí já a encontrei várias vezes em festas com o vestido de noiva, usado de outras maneiras. Ela conseguiu subverter tudo, e usa-o e fica linda. Acho que foi a pessoa que mais "curtiu" um vestido de noiva feito por mim!

Mas isso é talento. Tem a ver com segurança, e os portugueses, de uma forma geral, são inseguros.

Tem-se a ideia de que uma peça de um designer é tão cara, que seria impossível... Para muita gente infelizmente será, mas se calhar não é assim tanto. Há quem vista a minha roupa para uma noite de gala, mas também quem use as camisas todos os dias. Tenho duas etiquetas: Nuno Baltazar, aquela que apresento normalmente nos desfiles, e que pode ter peças que não são apresentadas mas que são comercializadas na minha loja, a preços relativamente acessíveis, e Nuno Baltazar Atelier, que é um serviço personalizado que, obviamente, tem um custo diferente.

Cria a sua colecção para uma mulher concreta? ... Ou para uma mulher ficcionada, a quem dou um nome, uma profissão, uma cidade... Preciso sempre de criar a história, só depois começo a vestir a personagem. A mulher ideal, por exemplo, nunca usa um vestido meu com adereços meus, antes recria a partir das minhas peças. Aliás, ninguém deve usar só uma marca dos pés à cabeça!

A certa altura essas personagens tornam-se exigentes?(risos) A dada altura já não sei se sou eu ou a personagem que fala... De alguma maneira incorporo-a em mim.

As última colecção foi pensada para uma mulher mais nova... Na colecção de Verão tentei ser menos formal, austero, até porque hoje ter 40 anos é ter os 30 de antigamente. Aliás tenho clientes de 80 anos com um aspecto super jovem e divertido, e que já não querem vestir azul e cinzento.

Há manhãs em que olha para o armário e diz "Não tenho nada para vestir"? Sim!! Em situações como este Fashion Awards é terrível, porque passo os dias a tratar dos outros e acabo por me deixar para a última hora. Com 1,85 metros nem sempre é fácil chegar a uma loja e encontrar o meu tamanho, resultado fico com uma neura insuportável! Divertir-me-ia imenso que tratassem de mim (risos).

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Melhor Criador pelos Fashion Awards

«Sinto que o prémio vai mais longe do que premiar apenas o meu trabalho do ano passado, premeia o trabalho da última década. Deixou-me muito feliz, pela distinção em si, e pelas mensagens que depois recebi de tantos amigos e de pessoas que tiveram vontade de se manifestar, e dizer que estavam felizes por mim, e que era merecido... Mas os prémios funcionam para mim como uma colecção que tem grande sucesso: vivo naqueles dois, três dias no máximo e a seguir a vida continua com os pés no chão. De 6 em 6 meses temos que estar a superar--nos e a fazer melhor.»

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Em 13 anos só tive uma modelo anorética

«Há uma ligação excessiva entre a anorexia e a moda. Uma miúda que sofra de anorexia muito dificilmente passa num casting para um desfile. Trabalho há 13 anos e só uma vez tive uma menina com esse problema, e a primeira reacção é retirá-la imediatamente do desfile. Acho é que há um problema muito mais grave, o de pais que não acompanham os filhos e alimentam sonhos que são impensáveis. Por exemplo, uma rapariga que tenha 1,60 de altura nunca vai ser manequim, é impensável. É claro que neste mundo, como em todos, há charlatões, que podem enganar as miúdas ou a família, mas em nenhuma agência digna desse nome, alguém com essa altura seria aceite, a não ser que fosse extraordinariamente bonita, mas seria para fazer publicidade, não para passerelle. Mas seria um caso excepcional.»

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«Daqui a 10 anos espero estar no auge»

Há 10 anos... Tinha 25 anos, estava no primeiro atelier, já fazia a Moda Lisboa, e vivia para o trabalho. Era um miúdo, inconsciente para o bem e para o mal, mas tomei decisões corajosas de que não me arrependo e que me trouxeram até aqui.

E com 10 anos? Os meus pais são separados e não tive uma infância muito feliz.

Daqui a 10 anos... Vou estar no auge, espero. Terei 45 anos na altura, e quero muito ter evoluído profissionalmente e ser uma pessoa tão feliz e realizada como hoje!

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2002 | A primeira loja

Nuno Baltazar e Paulo Cravo criaram, em 1997, a etiqueta Cravo/Baltazar. Em 2004, Baltazar começa a trabalhar sozinho e abre, no Porto, a primeira loja.

2005 | Na 25.ª Moda Lisboa

Nunca assiste a um dos seus desfiles da plateia, preferindo os bastidores. Mede o sucesso do desfile pela expressão que vê na cara das modelos.

2007 | ... e também dança

Mostrou o seu talento no 'Dança Comigo', o famoso programa da RTP, para o qual criou a imagem da apresentadora, Catarina Furtado.

2009 | Nuno Baltazar Atelier

Com Catarina Furtado, uma das mulheres para quem cria peças exclusivas, com a etiqueta Nuno Baltazar Atelier. Na loja vende a colecção.

2011 | Fashion Awards

Numa cerimónia no Tivoli, em Lisboa, foi distinguido com o prémio Melhor Criador, pelo Fashion Awards 2011. É o prémio de uma década de trabalho.

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Foto: DR
«Vestir bem é fazer com que a roupa revele a nossa personalidade» | © DR
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