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Frederico Gil

«Estou a tentar um jogo mais agressivo e a arriscar mais»

30 | 11 | 2011   11.07H

Aos 26 anos, não se lembra de um tempo em que não tenha jogado ténis, e os torneios internacionais marcam o calendário da sua vida, em viagens constantes entre continentes. Este ano tornou-se no tenista português com a melhor classificação de sempre no ranking ATP (62.º), e apesar de ter sido ultrapassado em Setembro pelo seu amigo Rui Machado, promete que em 2012 vai regressar com um jogo ainda mais determinado.

Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

Tem algum ritual antes de entrar no campo? Gosto de ouvir música. Ponho os headphones, e o que oiço depende do meu estado de espírito. Gosto de 'Dance', música rápida para me activar. Faço o aquecimento, preparo as minhas bebidas, ponho os 'grips' nas raquetes, pinto o logótipo das marcas nas cordas...

Raramente está em Portugal. É muito cansativo? É cansativo, mas quem corre por gosto não se cansa... tanto (risos). E o início do ano é uma fase em que se viaja muito, os torneios são na Ásia e na Austrália, e depois mudam logo para a América do Sul. Cor-re-se de um lado para o outro, sem parar.

Esteve no Top 10 dos juniores. Como é depois a passagem a seniores? Não é fácil, porque nos juniores somos muito protegidos, quando vamos a um torneio há sempre alguém para nos levar e ir buscar, e daí passamos directamente para uma fase em que estamos por nossa conta, e somos mais a competir. Mas é útil, porque quando cheguei ao Grand Slam, por exemplo, não foi uma coisa nova, já lá tinha estado, o que é fundamental para não bloquear no momento.

Há pais que se tornam nos treinadores dos filhos... Como é que foram os seus?Felizmente tenho uns grandes pais e estou-lhes muito grato. Sem a sua ajuda não teria sido possível, porque houve ali uma fase de grande investimento, especialmente nos juniores, em que precisava de muito dinheiro por ano, para investir nos treinadores e na carreira, e não tinha nem sequer um euro. Ajudaram-me, nessa altura a minha mãe até arranjou um segundo emprego. Hoje, felizmente, consegui ultrapassar essa fase.

Mas envolviam-se nos treinos, na competição? O meu pai foi jogador de futebol e é uma pessoa bastante competitiva e muito racional, ajuda-me muito nessa parte. A minha mãe é mais emocional, e sempre me disse: «Filho, faz o que for melhor para ti».

Quantas horas treina por dia ? Sempre treinei de quatro a seis horas por dia, talvez um bocadinho menos hoje em dia, mas é porque treino melhor, menos quantidade mas mais qualidade.

Como é o treinador ideal? Depende das fases da carreira... Quando era mais novo, sempre tive treinadores jovens, que mesmo que não tivessem tanta experiência me fizeram andar para a frente. Depois tive uma etapa, que acabou há pouco tempo, com o João Cunha e Silva, que para mim foi quase como um segundo pai. Foi ele que me ensinou muito e que me inseriu no circuito.

Mudou de treinador agora? É português?Não, é espanhol.

É o treinador que escolhe o atleta, ou o contrário? Há treinadores que têm as suas bases, academias, há outros que trabalham individualmente com os seus atletas e que, por vezes, se fica a saber que estão disponíveis. E aí os jogadores contactam-nos e fazem-lhes propostas. O meu treinador actual era treinador do Garcia Lopes, não chegaram a acordo, e aceitou a minha proposta. Foi difícil mudar, mas precisava de abrir um pouco a minha mentalidade, a maneira de ver as coisas.

Como diria que está o ténis em Portugal?Dentro da nossa realidade estamos a passar um fase muito boa. Não quer dizer que Portugal tenha grande história a nível de ténis, mas da história que temos esta é a melhor fase. Afinal, temos cinco ou seis jogadores profissionais, 12 ou 13 no ranking internacional, dois deles no top 100, tudo coisas que nunca aconteceram. O Rui Machado fez agora o melhor ranking de sempre, e eu (risos) tenho feito os melhores resultados a nível internacional, só que ainda somos poucos.

Vejo campos de ténis por todo o lado, mas geralmente vazios...Temos boas estruturas, e uma coisa extraordinária que é o clima - podemos jogar cá fora quase todos os dias do ano. A mentalidade é que é um pouco fechada, e existem muitas rivalidade que não servem a ninguém, muito pelo contrário. As pessoas só tinham a ganhar em ligarem-se mais umas às outras.

No ténis quem é a sua estrela favorita...Eu, claro! (risos)

(risos) Ia perguntar daquelas contra quem jogou... Joguei com o Nadal, o Federer, o Murray, e o Monfils. Ganhei com o Monfils, o jogo com o Nadal em Barcelona foi bastante bom, e joguei com o Federer no Open do Estoril, fiz um bom jogo, mas era muito inexperiente. Na altura, jogar em casa com o Federer, o estádio completamente cheio, foi difícil de gerir. Fora do campo, acho que o Djokovic é o mais engraçado!

Uma pergunta estranha, mas que sempre quis fazer: porque é que em campo os jogadores gritam e gemem tanto? É uma forma de soltar a energia e assim combater o nervosismo!

Mas aprende-se a gritar? Os treinadores falam nisso? Por acaso agora os meus treinadores dizem-me uma coisa que não sabia, que ao respirar não devo gritar tanto, porque gasto mais energia. Há momentos do jogo em que sinto necessidade de o fazer, porque não estou suficientemente controlado cá dentro, para conseguir expirar normalmente e, então, ao expirar com força... sinto que recupero o controlo, acho que é por isso.

Diz que está a tentar ser mais agressivo e arriscar mais. Os portugueses são educados para acharem que a agressividade é uma coisa má, e depois descobrem que lhes faz falta? É isso mesmo. Quando era pequeno era um jogador que arriscava muito, mas depois comecei a fazer um jogo mais conservador, a procurar evitar os erros. Agora percebi que tenho de arriscar, e que mais vale perder em consequência de um erro meu, do que estar sempre dependente do erro do adversário. Tenho de procurar fazer as coisas acontecer, senão elas não acontecem mesmo!

E fica com a sensação de que o seu ténis está a ganhar com isso?Tenho a certeza que é com os erros que se aprende, mas este ano foi muito irregular. Estou convencido de que para o ano vou fazer uma época mais sólida e vão correr melhor.

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Viver fora mas com projectos em Portugal

Onde estava há 10 anos? A jogar torneios dos Sub-16, já a jogar fora do país.

E quando tinha 10 anos? Tive um osteocondroma no joelho. Fui operado, lembro-me de ir de muletas para a escola. Estudava no Colégio Vasco da Gama, de que gostei, e depois passei para a escola pública em Colares, e concluí que tinha muito boas bases.

Daqui a 10 anos quer estar...? Quero ter uma vida tranquila, talvez nos EUA, com as pessoas de quem gosto ao meu lado, e com certeza ligado ao ténis, não sei como mas vou.
E hei-de ter os meus projectos.

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Já parti muitas raquetes de campo

Já parti muitas raquetes com uma fúria (risos).No campo e também nos treinos. Era mais quando era mais novo. Felizmente é o patrocinador que me as dá! (risos) São situações que acontecem, com a adrenalina e a fúria do momento, mas depois arrependemo-nos e aprendemos a controlar-nos. É uma forma de descarregar, que pelo menos não é no outro (risos)...
Mas já fui pior perdedor. O meu estado emocional dependia muito do resultado, hoje em dia não. Sei o caminho que tenho que percorrer. É claro que se ganhar, tenho mais confiança e progrido mais rápidamente.

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O Mental Coaching tem-me ajudado muito

Trabalhei vários anos com uma psicóloga que fazia um trabalho de fundo, nem era tanto de ténis, era um apoio para me ir conhecendo melhor a mim mesmo, e acho que me ajudou muito, sobretudo em duas ou três fases mais complicadas. Este ano trabalhei com duas pessoas especializadas em ténis, o David e a Cristina que fazem Mental Coaching, treino mental dentro da situação de campo. No fundo, é trabalhar a forma de reagir a seguir a um ponto, a postura corporal, respirações, controlar os pensamento, aquilo que dizemos e fazemos. Foi super interessante. O trabalho foi feito na pré-temporada, mas só depois de dois ou três meses é que comecei a sentir o efeito daquilo que trabalhei, leva tempo. Julgo que tenho evoluído nesse sentido. O golfe também me tem ajudado, exige a mesma concentração, e o swing ajuda a descontrair o ombro. Além disso, as paisagens acalmam muito.

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2007 | O 1.º Estoril Open

Em Fevereiro estava ao serviço da selecção na Taça Davis, e em Maio jogava singulares no seu primeiro Estoril Open, contra o francês Richard Gasquet.

2008 | O melhor do ranking

Aos 23 anos, tinha chegado a Wimbledon. Na imagem, contra Dick Norman, da Bélgica. Era o português com o melhor ranking na classificação do ATP.

2010 | Jogar em casa

Em 2010, jogou singulares no Estoril Open contra o espanhol Albert Montañes. Jogar em casa e com o estádio cheio é sempre mais difícil.

2011| O melhor de sempre

Foi o ano em que ficou em 62.º, a melhor posição de sempre de um tenista português. Aqui, na Clínica para crianças durante um torneio no Chile.

Abril de 2011 | Vitória contra Murray

Frederico Gil, em Monte Carlo onde fez o seu melhor resultado do ano,
a jogar com o britânico Andy Murray, no ATP Masters Series Tennis.

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Foto: Rowan Seddon-Harvey
«Estou a tentar um jogo mais agressivo e a arriscar mais» | © Rowan Seddon-Harvey
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