Podes fugir mas não te podes esconder
No Facebook, em jeito de piada, circula a imagem de um homem sentado sozinho num penhasco, no meio de nenhures, com ar desesperado e legenda a condizer. «A Casa dos Segredos acabou: e agora?». Enquanto isso, intelectuais queixam-se nos media que «a televisão portuguesa não podia ser pior». Afinal, em que ficamos?
O certo é que os reality shows, tão em voga e tão ao gosto da sede de audiências dos muitos canais de tv, cativam em cada gala de domingo entre 700 mil e um milhão e meio de portugueses.
A final de Secret Story 2, em plena noite da Passagem de Ano, foi vista por exactamente 1.322 mil espectadores, cifra de monta se tivermos em conta que muitos milhares de portugueses comeram as 12 passas e brindaram com champagne a 2012 sem acesso – ou sem interesse – a um televisor.
A culpa de tal sucesso é do drama e do sexo, das discussões e demais nervos à flor da pele, do retrato caricaturado de um país e de um mundo que, vai-se a ver, são mesmo assim: reais, com todos os seus defeitos e (cavando fundo) algumas virtudes. Caso para dizer que é a televisão a “descer de nível e a subir de interesse”. Mas só para alguns...
Na recta final de Casa dos Segredos 2, Luís Marques (actual homem-forte da TVI), como que foi dizendo que «prognósticos só no fim do jogo». Agora que a 2.ª edição do concurso se despediu com êxito do pequeno ecrã já não será muito arriscado dizer que existirá de facto uma 3.ª temporada do formato.
Em Março ou, como prefere a anfitriã Teresa Guilherme, lá mais para Setembro, Portugal deverá ficar a conhecer os novos candidatos aos tais “15 minutos de fama-vezes-infinito” na medida proporcional do quão dispostos estão os concorrentes a expor sobre as suas vidinhas comuns.
Então, cerca de 10% da população nacional acompanhará e comentará os “diz que disse” de um novo lote de anónimos fechados numa casa durante 4 meses. E nem mesmo quem não vê o programa conseguirá escapar à avalanche de páginas e páginas que a imprensa lhes dedicará.
Só Cleide, ex-concorrente, é que «quase de certeza» não assistirá ao programa. «Assim que saí deixei de ver o programa com tanta frequência», explicou à TV Guia. [nota desta redactora: dentro da casa, os concorrentes não têm acesso a televisão...]
Casting picante
Com um casting deveras “picante”, num universo de 80 mil candidaturas, Secret Story 2 esteve quase, quase a sagrar vencedora Cátia, jovem humilde e simpática, que deu que falar por duas razões: a sua ignorância em temas-pilares de Cultura Geral e a sua predisposição para o sexo, nomeadamente com dois colegas de “elenco”.
Os dois factores somados resultaram numa opinião pública esquizofrénica, com alguns, poucos, a castigar a «burrice» e «promiscuidade» da rapariga e, outros, bastantes, a aplaudir a sua postura genuína e descontraída.
Assim vai este país onde já lá vão mais de 10 anos ficámos a conhecer um tal de Big Brother que, mesmo com sexo camuflado e pontapés noticiados em telejornais, por comparação, francamente, mais parecia coisa de meninos de coro.
Quem agradece são as estações de televisão, neste caso a de Queluz de Baixo, com as audiências a engordarem de cada vez que há um novo escândalo. Olhando para a concorrência, o melhor (pior) que a SIC conseguiu foi a denúncia de um caso de doping no Peso Pesado 2, nova adaptação portuguesa do reality show da NBC, onde «ganha quem perde».
Nada que se compare com uma mão-cheia de corpos musculados tomando duches “calientes”, agressividade latente e suspeitas de manipulação de votos. A TVI poderá ter de pagar uma coima entre os 20 mil e os 150 mil euros à Entidade Reguladora da Comunicação Social devido a mais de 140 queixas, levantando suspeitas de irregularidades nas televotações e dada a exposição de conteúdos de cariz sexual em horários “familiares”.
Coimas querepresentam tostões no orçamento da TVI que, este ano, teve um lucro na ordem dos 20 milhões. «Comportam-se como idiotas e depois valem milhões», critica o actor Daniel Craig quanto aos concorrentes. Sim, porque agora é vê-los a aproveitar a maré fazendo discos, novelas e presenças em festas a troco de 700 euros por noite. E os ruims são eles?
OUTROS FORMATOS
‘Vivendo com o inimigo’ mas só divorciadosEm Peso Pesado uma das equipas era formada por um ex-casal. Mas no Brasil, graças a Vivendo com o Inimigo, tal ideia será levada ao extremo. Em fase de triagem, entre mais de 3 mil inscrições, este projecto da SBT tem como produtor Alexandre Frota. Durante 13 semanas, pares divorciados partilham casa. O vencedor ganha 120 mil euros e o 2.º classificado 80 mil.
Casamento de sonho com direito a plásticasDoze mulheres competem por um casamento de sonho, neste reality show que tem ainda uma componente de makeover. É que ao longo do concurso, por cada desafio vencido, as noivas têm direito a fazer as cirurgias plásticas de sua eleição. Nariz, aumento mamário, dentição, acne, redução abdominal, vale tudo neste formato estreado em Novembro de 2010, no E! Entertainment. Pelo meio há muita trica e conversa de corredor, muitas invejas e sorrisos amarelos, muitos esquemas e traições. E os noivos, coitados, só vêem as respectivas quando elas regressam a casa, transformadas.
‘Mama Drama’ mas sem fosso geracionalDurante 10 semanas, as câmaras do novo programa do canal VH1 seguem o quotidiano de cinco mães, todas já acima dos 40, e seis filhas. Entre umas e outras o fosso geracional parece ser nulo, já que as primeiras insistem em comportar-se como adolescentes, vestindo as suas roupas diminutas e frequentando os bares de sua eleição. No projecto em gravação, mãe e filhas vivem isoladas numa luxuosa mansão em Las Vegas. E já sabemos que boa coisa não acontece quando tanta mulher se junta...
MOMENTOS MARCANTES
A mãe de todos os incríveis concorrentesCriado em 1999 por John de Mol, entre nós o conceito Big Brother ganharia no ano seguinte uma espécie de “mãe” portuguesa. Teresa Guilherme – que em 2010 fez a pazes com os reality shows da TVI após longos anos de afastamento – vibra com os reality shows, escreve textos com humor inteligente, faz as perguntas aos concorrentes que os espectadores gostariam de ter oportunidade de fazer, ralha com a rapaziada, estimula os potenciais romances, vai acrescentando dados ao argumento. E, pelo caminho, tem o condão de anular toda e qualquer concorrência. Ela é o rosto e a alma do conceito.
O modelo anti-herói que cativa os espectadoresA primeira edição do Big Borther foi, reza a lenda, o programa mais visto de sempre na televisão portuguesa. A final do concurso, na noite de Passagem de Ano de 2000/01 superou os 70% de share. Zé Maria, o humilde rapaz do Alentejano, foi o grande vencedor. Um anti-herói que viria depois a sucumbir psicologicamente ao peso da fama. Mas nesses 120 dias (e logo depois) houve de tudo um pouco: sexo debaixo dos edredons, paixões platónicas, um pontapé noticiado nos telejornais, um concorrente condenado a 7 anos por roubo e sequestro, dois futuros casamentos.
Versão celebridadesDiana Chaves é hoje estrela de uma novela que ganhou um prémios Emmy Internacional, mas corria o ano de 2005 e era vê-la como pacata participante da 1.ª Companhia, na TVI. A ex-nadadora e namorada de Rodrigo Meneses – foi assim que se apresentou aos portugueses – “andou na tropa” com José Castelo Branco, Alexandre Frota, Valentina, Rubim, Telmo, Romana e Nuno Homem de Sá, entre outros. Júlia Pinheiro apresentava. Big Brother Famosos, Quinta das Celebridades, Circo das Celebridades e Perdidos na Tribo também trouxeram figuras públicas para o conceito de reality show.
O canal que aprendeu com os próprios errosHá quem diga que «a SIC não sabe fazer reality shows». Na verdade, as experiências com títulos como O Bar da TV e Acorrentados, ambos de 2001, assim o provam. O primeiro foi a desgraça de Jorge Gabriel e Ediberto Lima. O segundo só teve a vantagem de lançar do anonimato Isabel Figueira. Dez anos volvidos, a estação de Carnaxide perdeu o medo e tentou combater de novo a concorrência com o seu próprio “veneno”. Peso Pesado já vai na sua segunda edição e apresentadora. Porém, apesar de Bárbara Guimarães ser mais gira e menos dramática que Júlia Pinheiro, ainda falta tanto para a mestria do original.
A mesma forma mas um pouco mais de conteúdoUma coisa é um grupo de pessoas num ambiente controlado quase sem nada para fazer. Outra coisa é ver gente talentosa e com vontade de aprender a dar o melhor de si em determinada arte. Seja a cantar ou a dançar, a cozinhar ou a fazer roupa é um regalo apreciar a técnica e o jeito natural para a coisa. No entranto, também vamos criando empatia com os concorrentes que, às tantas, se tornam os nossos preferidos, só porque sim. MasterChef, Project Runaway, American Idol, Got Talent, X Factor e So You Think You Can Dance são alguns dos exemplos já com direito a versão portuguesa.
O poder da Internet para influenciar vencedoresHoje, graças à Internet, tudo se sabe e tudo se vê, no momento, a uma velocidade impiedosa e para uma audiência planetária. Para além dos sites oficiais dos programas, com acesso a conteúdos exclusivos, existem sempre inúmeras páginas nas redes sociais, sejam oficiais ou de geração espontânea, apoiando ou difamando este e aquele concorrente. Tais espaços virtuais podem servir de barómetro às preferências do público ou manchar reputações. As conversas de café são agora muitas vezes transpostas para o Facebook e o Twitter onde, cada um diz de sua justiça sem censuras.






6 comentários