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Cultura

Continuarão os festivais a sobreviver?

17 | 01 | 2012   11.27H

Sector movimenta milhões, e mesmo com crise as pessoas continuam a comprar. Em 2012 teme-se uma contracção, mas promotoras prometem não baixar os braços

Patrícia Naves | pnaves@destak.pt

É um negócio que movimenta milhões e que, sem ser imune à crise, parece ter armas para a enfrentar. No ano de 2011, já a austeridade era uma palavra comum no vocabulário dos portugueses e muitos apertavam o cinto ou graduavam necessidades, os grandes eventos de música em Portugal assistiram a bons momentos, num aparente contrassenso expresso em concertos e festivais esgotados, corridas a bilhetes, recordes quebrados.

Se recuarmos um ano, para o qual há dados do Instituto Nacional de Estatística, houve mesmo um aumento de 0,2% no número de pessoas a assistir a espectáculos ao vivo. 10,2 milhões de portugueses foram a espectáculos, e embora o número inclua eventos como de teatro, ópera, ou dança, não deixa de ser praticamente o mesmo número da nossa população, e não deixou de gerar receitas no valor de 85,2 milhões de euros.
Face a 2009, houve aumentos de 35,8% nas receitas. Registaram-se 30.088 sessões de espectáculos ao vivo, e sim, foram os concertos de música ligeira (que incluem festivais de Verão) com o maior número de espectadores, 3,8 milhões, e mais receita de bilheteira, 50,3 milhões de euros.

Como se explicam estes números?

Sobre 2010, o Índice de Preços no Consumidor evidenciou uma diminuição de 2,6% no preço dos bilhetes, mas não pode ser só isso. «Uma questão é a crise, ou o menor poder de compra dos portugueses, mas as pessoas não deixam de viver. Porque se deixarmos de consumir, a crise é muito maior. Isto é uma equação, claro que um dia pode quebrar, mas no dia em que quebrar, o País quebra. Nós não podemos estar a pensar ai meu deus, no pior. Obviamente que temos de ter cautela, de ser mais ponderados, mas não podemos baixar os braços, temos de ser criativos» defende Álvaro Covões, da Everything is New.

50 festivais

A verdade é que nos últimos anos, e à medida que os portugueses perdem poder de compra, o País assiste a uma verdadeira proliferação de eventos e festivais de Verão (não só, já há de Inverno e Primavera), numa clara e conhecida demonstração da apetência lusa para eventos de música ao vivo, expressa aliás numa oferta com crescimento impressionante – se em 2002 o País tinha quatro grandes festivais (Vilar de Mouros, Super Bock Super Rock, Sudoeste, Paredes de Coura e numa escala menor, os emergentes Marés Vivas e Músicas do Mundo), em 2011 quebrou-se a barreira dos 50 - e sim, estamos a contar com os mais pequenos, mas também nestes há sucessos (ex: Crato).

Para 2012, nota-se já uma quebra, para já estão agendados 16 festivais, e embora muitos sejam sazonais e confirmados mais perto do Verão, a crise até pode ter chegado aos ‘grandes’, com o Delta Tejo e Super Bock Surf Fest em risco de serem cancelados. Mas, cada vez que acabam eventos, surgem outros (um recente Milhões de Festa cada vez com mais sucesso, a estreia em 2012 do Mexefest Porto e do Primavera Sound). E a verdade é que já em 2011 os portugueses esgotaram o Sumol Summer Fest; os Coldplay no Alive; o SBSR no Meco; e o Mexfest em Dezembro, para nomear alguns.

Este ano? Para já, o pacote Rock in Rio Natal, esgotado. «Quando a economia aperta, o consumidor passa a ter que fazer escolhas, não vai a tudo mas vai. A nossa responsabilidade é oferecer o melhor produto e custo benefício para que estejamos sempre no lado “sim”», explica Roberta Medina, da organização.

Qual é o perfil então de quem compra bilhetes para festivais?

«No caso do Alive, são sobretudo dos 18-30 anos, mas é difícil contar, as idades estão cada vez menos no BI e mais na cabeça», frisa Covões. «As pessoas fazem esforços para ver o que querem». O promotor acredita no princípio de que uma economia saudável precisa de dinheiro a circular, e num evento como o Alive há muito, incluindo os patrocínios e afins. «O investimento habitual, está entre os 4 e os 4,5 milhões. Isto é o que pagamos, não é as permutas, campanhas etc, esse total nunca fizemos a conta».

E a queda dos portugueses por festivais parece ser tal que até já importamos. O Primavera Sound, um dos mais conceituados da Europa, poderia ter escolhido uma cidade inglesa para a estreia fora de Espanha, mas foi para o Porto. A aposta parece certa ou não tivessem esgotado os primeiros bilhetes em 48h – muitas vendas a estrangeiros, como aliás noutros festivais, mas não deixa de ser dinheiro a circular.

Iva absorvido nos bilhetes?

Os grandes desafios para 2012 por parte das promotoras são então a óbvia crise e o aumento no IVA para 13% nos bilhetes (chegou a falar-se em 23%, ainda assim foi uma subida de 7 pontos). Todas são unânimes, que combate-se tentando absorver parte do valor pela empresa quando possível, mas sobretudo apostando na qualidade. Apesar disto, prevê-se uma quebra no sector no próximo ano, dada a conjuntura desfavorável que se antecipa. Mas ainda não é altura de baixar os braços.
As armas estão puxadas e são então a qualidade e a apetência de um povo para a cultura e para espantar os seus males com música. «Nós acreditamos, temos é de acreditar e trabalhar», frisa Covões. «Acreditamos no mercado do entretenimento, da cultura e vamos continuar a investir», acrescenta Roberta Medina.

O Destak falou com Álvaro Covões, da Everything is New, e Roberta Medina, do Rock in rio, sobre o mercado da música.

ÁLVARO COVÕES, EIN

Como pode a subida do IVA afectar directamente o negócio? (A empresa absorve-o nos preços, ou vende bilhetes mais caros?); e como pretendem combater o binómio IVA/crise (apostar em mais qualidade?)

Bem, os espectáculos que vinham de trás não podemos fazer grande coisa porque já vinham com um orçamento. Agora, com este aumento de 7%, nos eventos que estamos a fazer tentamos ao máximo que o preço final esteja de acordo com aquilo que consideramos acessível pelo menos para parte dos portugueses. Temos de considerar o valor da sala, equipamentos, promoção, cachet do artista e tudo isto somado resulta na venda final. Mas isto de ter cuidado é uma política que os promotores já usam há muitos anos, Portugal apesar de tudo continua a ter dos bilhetes mais baratos da Europa, tanto que vem muita gente de fora. Quanto à qualidade, nós não podemos dissociar, é uma coisa que eu já digo há anos. Uma questão é a crise, ou o menor poder de compra dos portugueses, mas as pessoas não deixam de viver. Porque se deixarmos de viver, de consumir, a crise é muito maior. Isto é sempre uma equação, claro que um dia pode quebrar mas no dia em que quebrar, o pais quebra. Nós não podemos, na nossa vida profissional estar a pensar ai meu deus, no pior. Obviamente que temos de ter cautela, de ser mais ponderados, porque de facto em 2012 o cenário económico não é favorável, mas não podemos baixar os braços, temos de ser criativos, acreditar, ir para a frente. E tentar mostrar, porque concorremos com uma enormidade de produtos, a qualidade do nosso produto. As pessoas vão a um concerto, ficam bem dispostas divertem-se e se formos a ver o binómio preço-qualidade final se calhar compensa, por isso temos de continuar a apostar em mostrar-lhes que vale a pena ir a espectáculos ao vivo e os dados do INE provam isso.

O investimento nos grandes eventos como o Alive tem sido sempre e continua a ser recompensado?

Sim, o Optimus Alive vai para sexta edição, por isso neste momento apresenta resultados positivos, sim, senão não continuava...

Que tipo de investimento directo, por parte da empresa, rodeia actualmente um evento como o Alive? E investimento global?

O ano passado, que foi uma edição especial de 4 dias, o investimento foi de 6,3 milhões de euros. Este ano vamos voltar ao habitual, que está entre os 4 e os 4,5 milhões. Isto é o que nós pagamos, não é as permutas, campanhas etc, esse total nunca fizemos a conta.

Pelo comportamento dos consumidores do fun pack até ao Natal, há diferenças face a 2010?

É muito difícil fazer uma análise comparativa porque está relacionada com o nome dos artistas anunciados; e este ano tínhamos bilhetes individuais para o dia dos Radiohead para dar a hipótese de comprar com menos IVA, logo vendemos mais mas não se pode comparar...mas o festival já estabilizou e é uma realidade da vida: os grandes eventos, os mais especiais serão os últimos a perder público. Porque as pessoas fazem esforços para ver o que querem e dai os grandes concertos como uns Coldplay ou U2 e eu acredito, e fazemos, por isso que assim seja com o Alive, as pessoas façam um esforço e consigam ir... Logo quando se fala em crise o que nos preocupa são os eventos normais, menos exclusivos.

Qual o perfil de uma pessoa que paga bilhete num Alive?

Eu diria que é quase como Tintin, mas não tanto. A nossa componente mais forte é a dos 18-30 anos, mas é difícil contar, as idades estão cada vez menos no BI e mais na cabeça. Não é um festival para menores mas para jovens adultos, talvez universitários para cima, há muita gente nos quarentas. É para quem gosta de música.

Acha que o mercado está saturado de festivais?

Acho que não, acho que há uma selecção natural. Costumo comparar com o mercado de futebol. Se o Estádio da Luz antes enchia com 120 mil pessoas, porque não poderia haver espectáculos de música assim? Foi a pensar assim que comecei neste negócio, tentando criar públicos, hábitos, festivais e chegámos a este patamar em 2012. Obviamente há festivais e festivais mas também há públicos muito diferentes, as pessoas é que escolhem.

Como encara o futuro próximo e a longo prazo; há, apesar de tudo, motivos para acreditar que este mercado não vai contrair?

Nós acreditamos, temos é de acreditar e trabalhar para frente senão não há jornais, televisão, consumo, nada e ai pára tudo, entramos na idade das trevas. A sociedade portuguesa está a mudar para melhor, já estamos a procura da boa noticia. É difícil, há pessoas com muitas dificuldades mas temos de ir a luta, arregaçar as mangas.

ROBERTA MEDINA, RIR

Como pode a subida do IVA afectar o mercado? (A empresa absorve-o nos preços, ou vende bilhetes mais caros?); e como pretendem combater o binómio IVA/crise (mais qualidade?)

Decidimos absorver parte do aumento e passar outra para o custo do bilhete, assim dividimos o impacto entre nós e o público. A nossa aposta passa por aumentar o investimento, trazendo, por exemplo, a Rock Street para Portugal. Criar, renovar, surpreender continua a ser o nosso guia para cativar e atraír o nosso público.

Que tipo de investimento directo rodeia um evento como o Rock in Rio? E global?

Hoje já não podemos olhar para o Rock in Rio localmente. O evento está presente em 3 países, prestes a entrar no quarto e com a meta de chegar a um total de 6 países em 5 anos. Cada vez mais as sinergias entre mercados ganha força e cria oportunidades. Por exemplo, este ano será lançado o Rock in Rio - O Musical no Rio de Janeiro e em 2013 ele virá para Portugal e Espanha. Em 2013, o Rock in Rio será tema do samba-enredo no Carnaval do Rio, da escola Mocidade Independente de Padre Miguel, e é claro que o Rock in Rio-Lisboa terá um capítulo importante. Actualmente falamos de cerca de 90 milhões de euros de investimento bianual [Lisboa, Madrid e Brasil].

Pelo comportamento dos consumidores nos últimos anos e no fim de 2011 em bilhetes à venda, acreditam que as pessoas continuam a investir em espectáculos?

Acreditamos no mercado do entretenimento, da cultura, da música e vamos continuar a investir. Quando a economia aperta o consumidor passa a ter que fazer escolhas, não vai a tudo mas vai. A nossa responsabilidade é oferecer o melhor produto e para que estejamos no lado do “sim” da escolha.

AGENDA FESTIVAIS 2012

Vodafone Mexefest Porto Dias 2 e 3 de Março
Com St. Vincent, Foals, Supernada, Josh Rouse, Cass McCombs, entre outros.
Preço Passe 2 dias 40 Euros

SWR Barroselas Metalfest Dias 26 a 30 de Abril
Com Napalm Death, Ratos do Porão, entre outros.
Preço 35 a 85 Euros

Spring Rock Fest Setúbal Dias 28 de Abril
Com The Doups, Cascavel, Silverstein, entre outros
Preço 10 a 13 euros

Rock in Rio Lisboa 2012 Dias 25 e 26 de Maio, 1 a 3 de Junho
Com Bruce Springsteen, Lenny Kravitz, Marron 5, Expensive Soul, Ivete Sangalo, entre outros.
Preço Bilhete diário 61 Euros

Optimus Primavera Sound Porto 2012
Dias 7 a 10 de Junho Com Wilco, The Walkmen, The Drums, Björk, The XX, Spiritualized, Yo La Tengo, entre outros.
Preço Passe 3 dias 85 Euros

Sumol Summer Fest 2012 Dias 29 e 30 de Junho

Super Bock Super Rock Dias Julho?

Optimus Alive! 2012 Dias 13 a 15 de Julho
Com Radiohead, Snow Patrol, Stone Roses, Florence + The Machine, entre outros
Preço 53 a 105 Euros

Festival Marés Vivas 2012 Dias 19 a 21 de Julho

FMM Sines 2012 Dias 19 a 21, 26 a 28 de Julho

Milhões de Festa Barcelos Dias 27 a 29 de Julho

Boom Festival 2012 Dias 28 de Julho a 4 de Agosto
Com --
Preço Passe 120 Euros

Sudoeste TMN 2012 Dias 1 a 5 de Agosto
Com -- Preço
Passe 5 dias 95 Euros

Vagos Open Air 2012
Dias 3 e 4 de Agosto
Com --
Preço Passe 2 dias 50 Euros

Festival Paredes de Coura Dias 13 a 16 de Agosto

Festival Bons Sons Tomar Dias 16 a 19 de Agosto

Saiba mais sobre:
Foto: ruben viegas
Continuarão os festivais a sobreviver? | © ruben viegas

3 comentários

  • ANÓNIMO.Lembre-se de que nem só de pão vive o homem.Lembre-se da grande nessecidade de convívio que todos nós precisamos.
    RODAVLAS | 17.01.2012 | 17.23Hdenunciar comentário
    Tem a certeza que pretende denunciar este comentário? sim não
  • Isaías 55; 2- Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão ?
    anónimo | 17.01.2012 | 15.00Hver comentário denunciado
  • Onde é que está a crise ? Com estes preços exorbitantes os festivais continuam a arrastar multidões.
    anónimo | 17.01.2012 | 14.58Hver comentário denunciado
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