dEUS na Aula Magna
A longa história dos concertos de dEUS em Portugal escreve-se de altos e baixos. Ainda em 2011, no Sudoeste, Tom Barman referia-se às actuações no festival como desastrosas – e deu depois um concerto excelente. A relação de Barman com o País é conhecida - lembra-se dos concertos, tem casa em Sesimbra, tem na Aula Magna um local guardado com carinho desde 1997, da invasão de palco. Ontem, na mesma A. Magna, Barman perguntava sobre o fosso: «sempre estivemos tão distantes?». Sem representar de todo o concerto, a questão acabou por ser ligeiramente irónica. Se a história dos dEUS em Portugal se escreve de altos e baixos, sábado foi talvez um inédito – foi um média estatura.
Não é que o público estivesse arrefecido com a noite, nem sequer minimamente alheio ao último disco - Keep you Close foi o mote dos espectáculos de Lisboa e do Porto, seria óbvio que fosse quase todo ‘corrido’ (faltou Twice), e foi merecidamente (o disco é viciante), bem recebido pelo público, sobretudo em temas como Ghost.
Keep You Close faz-nos lembrar que dEUS estão quase na sua sétima vida (tantas quanto os membros – sete- já deixados para trás, apenas Barman e Klaas Janzoons do alinhamento original), mas que apesar de fases e discos menos bem recebidas, esta é uma nova vida em força. Keep You Close faz-nos ainda lembrar que foi este o grupo que, nos confins da Antuérpia, primeiro começou a misturar violinos, samplers, jazz, blues até disco-sound (Fell of the Floor Man, ontem tocado, compila todos) e que é uma banda com um sentido experimental e estético apuradíssimos, sendo a orquestração do novo álbum- inclusive ao vivo, o som da Aula Magna estava perfeito- brilhante.
Keep you Close faz-nos por último lembrar da ligação que o grupo sempre tentou e conseguiu ter com os fãs - e por isso à entrada dos concertos esgotados do fim de semana, lia-se a hashtag do twitter com que a banda recomendava que fossem identificadas imagens ou memórias dos espectáculos pelos fãs, com o objectivo expresso de os «keep close».
Voltando à noite de ontem, ela foca-se em primeiro lugar num Tom Barman que, aos 40 anos, feitos a 1 de Janeiro, continua incrível como sempre, entregue como poucos. Barman toca, dança, passa o concerto a ajustar o já impecável som, é um perfeccionista óbvio, que improvisa em frases poéticas ou irónicas, que puxa constantemente pelo público.
Logo ao segundo tema, o eléctrico The Architect, (concerto começou com Final Blast, do último disco), o músico e realizador pediu/gritou para a audiência para se levantar, sendo recorrentes mais tarde pedidos do género «mexam esses rabos». O público, na grande maioria trintão, estava atento, era conhecedor, aplaudia, dançava e cantava, mas aquele bocadinho extra, daquela empatia que marca os concertos inesquecíveis, parecia não estar lá totalmente - ou comparado com outras vezes, talvez.
O alinhamento alternou faixas de Keep you Close com os já muitos clássicos de seis álbuns do grupo (e muitos mais faltaram), mostrando-se um cuidado nesse sentido, seguindo-se Constant Now, Oh Your God , Easy e Instant Street, aí sim, a festa total perante uma das melhores músicas (com uma das melhores letras, se bem que sejam pródigos nas letras) dos dEUS, e com o seu apoteótico final apurado de ano para ano – a banda está aliás toda em excelente forma.
If You Don't Get What You Want marcou a passagem por Pocket Revolution, seguindo-se Dark Sets In e Nothing Really Ends, com um dos que podia ter sido momentos da noite- Barman pediu aos casais («de homens-homens; homens-mulheres, ou mulheres-mulheres») para dançarem um slow em cima do palco, mas ninguém acedeu. Talvez por o tema parecer ser um dos mais incompreendidos pelos portugueses (outra letra magnífica), ou pela perda na tradução do pedido; uma certa timidez ou constrangimentos lusos podem ter explicado, mas aí sim houve uma ameaça de ‘gelo’, com Barman a queixar-se no fim, «não vieram!». Muitos casais dançaram os seus slows no meio do público, esperamos que tenha visto.
Como que para recuperar, os portugueses vibraram então com Ghost, Keep You Close, e os clássicos Sister Dew, Turnpike e Little Arithmetics. Bad Timing fechou o concerto. O encore chegou com End of Romance, Sun Ra e o grande final com um Fell on the Floor Man, recheado da característica dança de Barman e das tais deambulações mais ou menos poéticas, e um Suds & Soda com uma irónica apresentação do grupo (chamou por ex. ao guitarrista de «tão cool que o Pólo Norte o ia processar»).
Depois de quase duas horas, os dEUS na sua nova vida despediram-se da Aula Magna com apelos de «aproveitarmos a noite de sábado». Se o concerto de Lisboa foi então mais média estatura, ele não deixou de ser uma bela apresentação à altura de um disco mais introspectivo, Keep you Close, um banho de boa música mais do que suficiente para aquecer a noite.





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