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Reportagem Cinema

O génio de Spielberg na primeira pessoa

23 | 02 | 2012   13.20H

Estivemos em Londres para falar com Steven Spielberg sobre o seu novo filme ‘Cavalo de Guerra’, uma «história de amor» entre um rapaz e o seu cavalo, em plena 1.ª Grande Guerra, onde morreram milhões de pessoas e cavalos. Ouvimos o mestre do cinema sonhador Steven Spielberg sobre tudo: carreira, vida, cinema e... cavalos.

João Tomé | jtome@destak.pt

É um dos homens que, através dos seus filmes, mais pessoas influenciou e “tocou” desde que o cinema é a 7ª Arte. Determinado, sonhador, criativo e de uma humildade e dedicação surpreendente, foi assim que vimos e ouvimos o único Steven Spielberg, no início de Janeiro, em Londres, numa conferência de imprensa a falar sobre o seu novo “rebento”: Cavalo de Guerra.

Habituado a nos fazer sonhar, o realizador e produtor norte-americano por trás de pérolas do cinema como ET, Tubarão, Indiana Jones, A Lista de Schindler, também tem a sua quota parte em filmes de guerra.

Mas esta é uma «história de amor» que se passa numa guerra, a 1ª Grande Guerra, por isso «é universal e para todas as idades, dos 8 aos 80».

Spielberg fala com paixão dos seus filmes, das suas histórias. Foi a produtora de sempre, Kathleen Kennedy (com quem também falámos) que ficou cativada com a peça de teatro sobre o jovem que vai para a guerra para recuperar o seu cavalo, Joey. Depois de contar a Spielberg, ele sobe logo que a queria realizar, mesmo antes de ver a peça e ler o livro de Michael Porpugo, com quem também falámos.

Isto porque a filha, Destry, 15 anos, «é cavaleira de competição» e mal soube da história disse: «Tens de fazer o Cavalo de Guerra! Tens de o fazer para mim!». Após ver a peça, Spielberg admite que «fez-me chorar e gostei mesmo muito».

O cavalo que une pessoas
«O Joey tem uma forma de unir as pessoas, especialmente pessoas dos dois lados da guerra», explicou Spielberg, que na pesquisa ficou surpreendido com um facto que desconhecia: «morreram quase tantos cavalos quanto pessoas [15 milhões]».

«Foi o fim do cavalo como instrumento de guerra, o início da era da máquina – o tanque, o avião –, tudo convergiu na Primeira Grande Guerra, que todos diziam que ia ser a ‘guerra para acabar com todas as guerras’», explicou entusiasmado este «amante de história», que se diz mais «europeu do ponto de vista histórico» e admite mesmo: «era a única disciplina em que era bom aluno».

O realizador de 65 anos, lembrou a sua proximidade com a guerra. «O meu pai, que faz 95 este mês, combateu na II Grande Guerra. Cresci a ouvir histórias de guerra e os meus primeiros filmes de 8mm eram na maioria filmes de guerra!» Até porque «não há melhor maneira de testar uma pessoa, do que atirá-la no meio de uma guerra».

Não filmar é morrer
Spielberg, para quem «querer realizar algo é uma sensação inegável», «bem diferente de produzir». E admite realizar para além dos 100 anos, como Manoel de Oliveira? «Não quero parar. Sempre disse que só páro quando o meu amigo Clint Eastwood quiser desistir. Como isso não vai acontecer...».

Tempo ainda para explicar que nem todos os realizadores de Hollywood se regem por números e dinheiro, até porque é um «processo colaborativo» e «nós só queremos ir e contar as nossas histórias. É uma tortura que adoramos e pela qual os nossos antepassados passaram, na era dourada de Hollywood. O objectivo é o mesmo».

Spielberg é Spielberg e isso significa que, desde Tubarão, faz o que quer. Por isso aumentou o orçamento de Cavalo de Guerra só para poder filmar em Devon, localidade onde se passa o filme e poder ter, sem efeitos especiais, «o céu incrível de Devon», numa homenagem a realizadores como John Ford e Howard Hawks.

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Outros temas:

CENAS DIFÍCEIS COM CAVALOS
O mais difícil de filme foi mesmo uma altura em que o cavalo Joey fica literalmente preso no meio da batalha entre britânicos e alemães, em arame farpado, num dos momentos mais belos do filme de Spielberg. «Tivemos alguns segundos de cada vez para gravar porque o cavalo queria sempre levantar-se», diz Spielberg que garante: o arame nunca magoou o cava-lo.

Não faltaram cavalos na rodagem e só para fazer todos os movimentos de Joey foram mais de 10, cada um com o seu tratador «de Espanha, Austrália, América e Reino Unido». Mas só dois deram mesma a “cara” e mesmo «improvisação»: Abraham e Finder (que já tinha estado em Seabiscuit).

TUBARÃO, O PONTO CHAVE
«O ponte chave na minha carreira foi Tubarão». Diz Spielberg, que admite que antes era «realizador por encomenda, depois podia fazer o que quisesse, que havia quem passa-se o cheque. Por isso pude fazer um filme que antes foi recusado e ridicularizado: Encontros Imediatos do 3.º Grau».

GERIR TEMPO DISPONÍVEL
«Os pontos baixos da minha carreira são relacionados com a gestão do tempo. Sentir que não tenho tempo suficiente para família e amigos. Tenho sete crianças, tenho de equilibrar tudo». O que não o afecta são as críticas e a bilheteira. Spielberg homenageou ainda o ‘seu’ compositor desde há 40 anos, John Williams, o colaborador mais importante.

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Michael Morpurgo inspirou-se em veteranos

O escritor Michael Morpurgo inspirou o seu livro de 1982 nas histórias que três ex-combatentes da I Grande Guerra, de Devon, lhe contaram sobre a importância dos cavalos na guerra. Em 1914, 10% das tropas britânicas montavam a cavalo, em 1917 eram só 2%.

Nomeação de ‘Cavalo de Guerra’ para os Óscares
Estar na lista para Melhor Filme é algo que Spielberg não esperava por este filme familiar. Desde 2006 (’Munique’) que um filme seu não era nomeado e o último Óscar (tem três) foi em 1999 (’O Resgate do Soldado Ryan’).

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Foto: DR
O génio de Spielberg na primeira pessoa | © DR
As batalhas (onde se usaram armas originais da I Grande Guerra), envolveram lama feita de propósito, a construção de mais de 230 metros de trincheiras, 5 800 figurantes e 280 cavalos
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