Festival de Música

Vilar de Mouros não se realiza este ano

14 | 06 | 2007   16.26H
O festival que teve a "ousadia" de desafiar o Estado Novo, juntando 30 mil espectadores num fim-de-semana de 1971 numa aldeia do Alto Minho então desconhecida, parece novamente amaldiçoado, interrompendo pela quinta vez a sua realização anual, após oito anos de estabilidade.

Pela quinta vez, o Festival de Vilar de Mouros interrompe a sua realização anual, mas os organizadores prometem "tudo fazer para que o festival possa ser retomado já em 2008".

Na edição de 2006, comemorativa dos 35 anos, a organização anunciou que o festival de 2007 se realizaria entre 20 e 22 de Julho, com a estreia em Portugal do ex-Beach Boys Brian Wilson. Mas apesar dos vários nomes que foram surgindo nos sites de algumas bandas, a Portoeventos não confirmou mais ninguém, à excepção do vencedor do concurso Arena Rock, McAlister.

Quarta-feira, a Portoeventos e a Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, em comunicado conjunto, anunciaram o cancelamento da edição desde ano, acusando a Câmara de Caminha de "alheamento" em relação ao evento.

Em resposta, a Câmara de Caminha devolveu à Junta de Freguesia e à concessionária a responsabilidade pelo cancelamento, recusando ser "bode expiatório".

Histórico

O Festival de Vilar de Mouros realizou-se pela primeira vez em 1965, com características idênticas a outros eventos minhotos de folclore, tendo ganho alguma projecção nacional na quarta edição, em 1968, com o alargamento do âmbito à música erudita e ao fado.

O festival de 1968 não passou despercebido à PIDE (polícia política), que recebeu relatórios sobre as canções proibidas cantadas em coro por Zeca Afonso e pelo público, mas teve pouco impacto no país, ao ponto de ainda hoje ser atribuído o nascimento do festival à edição de 1971.

O festival de 1971, considerado o "Woodstock" português, numa alusão ao mítico evento realizado em 1969 nos Estados Unidos, levou a Vilar de Mouros Elton John, Manfred Mann, os principais grupos pop portugueses, Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro e novamente a Banda da GNR.

O desastre financeiro (mais de cinco mil euros de prejuízo) deste mega-festival fez com que a família Barge não pensasse sequer numa reedição, mas os ventos do 25 de Abril levaram um grupo de revolucionários a anunciar para 1975 um novo Festival de Vilar de Mouros, que não chegou a realizar-se.

Constantes alterações do cartaz e divergências entre organizadores, programadores e produtores levaram um jornal da época a classificar esta edição como "o festival das broncas", mas para a história o Vilar de Mouros'1982 ficou como um dos mais importantes festivais alguma vez feitos em Portugal: entre 31 de Julho e 8 de Agosto, actuaram nomes como os U2, Echo & The Bunnymen, Stranglers, Gist, Durutti Column, A Certain Ratio, Rip, Rig + Panic, Renaissance, Tom Robinson, Johnny Copeland, Sun Ra Arkestra, Carlos do Carmo, Vitorino, Rão Kyao, GNR, Jáfumega e Roxigénio.

Terminada esta edição, a Câmara de Caminha abandonou o projecto de festival bienal, devido aos elevados prejuízos, que nunca chegaram a ser apurados na totalidade. Inconformada, a Junta de Freguesia realiza em 1985 o primeiro (e único) Encontro de Música Popular de Vilar de Mouros, com os Trovante, Emílio Cao e Raízes, que redunda em novo fracasso financeiro.

O festival só regressou em 1996, numa edição comemorativa dos 25 anos, organizada pela promotora Música no Coração com o apoio de fortes patrocínios, que encheu durante três dias o Campo do Casal, com um cartaz que incluía Stone Roses, Young Gods, Madredeus e Xutos e Pontapés.

A exiguidade do recinto obrigou a nova paragem, reaparecendo o festival apenas em 1999, após a aquisição de terrenos contíguos onde passou a ser instalado o palco principal. O negócio da compra dos terrenos pela Junta de Freguesia, já então presidida por Carlos Alves (CDU), foi integrado na negociação de um protocolo de concessão, que atribuiu às promotoras Música no Coração e Portoeventos a organização de seis festivais (entre 1999 e 2004), com direito de preferência por 20 anos (até 2018).

Nestes seis anos, passaram por Vilar de Mouros grandes nomes do pop-rock, como Bob Dylan, Peter Gabriel, Neil Young, Pretenders, Alanis Morissette, Iron Maiden, Skunk Anansie, Ben Harper, Manu Chao, UB40, Joe Cocker, Joss Stone, Cure, Rammstein, Robert Plant, Sonic Youth, Lamb, Beck, Bush, Wailers, Sepultura e Guano Apes.

Com Lusa

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