Logótipo XL |Automotor |Classificados |Correio da Manhã |Destak |Jornal de Negócios |Máxima |Record |Rotas & Destinos |Semana Informática
Matilde Sirgado

«Crianças de rua nas teias da prostituição e da droga»

06 | 10 | 2008   11.02H

ISABEL STILWELL | editorial@destak.pt

Nome Matilde Sirgado

Profissão Coordenadora do Projecto Rua, desde 1994

O que este trabalho representa para si: «Diria que foi "amor à primeira vista e não me imagino a fazer outra coisa". Quem trabalha aqui lida com situações de emergência, com crianças, não trabalha com papéis. O que damos está para lá da nossa formação académica, para lá das funções profissionais que acordamos. Mas não há outra forma de o fazer.»

Dezanove anos depois do início do Projecto Rua, é possível um balanço?

Fruto dessa intervenção, a situação das crianças de rua em Lisboa modificou-se, tendo mais de 600 crianças voltado à família ou às instituições donde tinham fugido.

Estão menos visíveis na cidade, mas deixaram de existir?

A criança de rua no verdadeiro sentido da palavra deixou de existir em Lisboa, mas as situações de perigo estão agora ligadas a formas de exploração terríveis, como a prostituição ou o tráfico de droga. Hoje trabalhamos com crianças em contexto de fuga, categoria que inclui todos os menores que, devido a vivências problemáticas, fogem de casa ou da instituição. Crianças que rapidamente caem em situações de mendicidade, prostituição, absentismo escolar, consumo de substâncias psicoactivas, o tráfico de droga, transac-ções ilícitas, furtos e assaltos.

É possível dizer quantas são?

Em 2007 encontrámos cerca de 77 crianças em contexto de fuga em Lisboa, e no primeiro semestre de 2008 foram 35. Quanto ao contexto nacional, não possuímos dados, uma vez que apenas intervimos em Lisboa.

E relativamente à prostituição infantil?

Encontrámos 13 menores em 2007; e 4 menores durante o primeiro semestre de 2008. No entanto, deparamo-nos com jovens com uma aparência muito 'trabalhada', sendo difícil provar serem menores. Para além disso, muitos deles mentem quando questionados acerca da sua idade.

Fala de giros. Acontecem todos os dias?

Realizamos, todos os dias, giros diurnos e nocturnos em 6 zonas predefinidas localizadas no centro da cidade. Sempre que é encontrado um menor em risco, abordamo-lo (se as condições assim o permitirem), de modo a obter o máximo de informações (o bairro de onde provém, a escola que frequenta, etc.) que nos permitam realizar uma intervenção eficaz. Para além disso, a nossa intenção com a abordagem é criar uma relação de confiança e proximidade com ela, de modo a ajudá-la na elaboração de um projecto de vida.

Quem são as equipas de rua?

Técnicos multidisciplinares (técnicos superiores de política social, psicólogos, assistentes sociais, psicopedagogos, educadores sociais, animadores), incluindo também voluntários de várias áreas.

Incluem também ex-crianças de rua que revelaram grande capacidade de liderança?

Nas comunidades onde o Projecto Rua intervém, fomentamos a constituição de mediadores - figuras de referência notória - que possam ter uma postura facilitadora na interacção entre os elementos que constituem a sua comunidade. A mediação ajuda a desenvolver o sentido da escuta, da responsabilidade, da autonomia, da iniciativa pessoal e colectiva e do respeito para com os outros, tornando-se um importante passo para a construção da cidadania.

Recebem pedidos para encontrar determinada criança?

Através da Linha SOS Criança Desaparecida, recebemos denúncias de crianças que se encontram em fuga (da família ou institucional) no Distrito de Lisboa. Procuramos então localizá-las através de giros e/ou contactos com parceiros que interve-nham nos locais onde os menores se possam encontrar, sendo que a estratégia para a sua integração passa pelo encaminhamento para entidades competentes após um acompanhamento inicial por parte da equipa.
A estratégia do Projecto é trabalhar nos bairros de origem, para prevenir as fugas...

Em 1994 iniciou-se uma nova fase do Projecto a fim de suster o problema das crianças de rua nas suas origens e prevenir o aparecimento de novos casos. Fixámos equipas nas comunidades de residência das crianças/jovens que se encontravam na rua. Estas comunidades foram o Bairro 6 de Maio (na Damaia), o Pátio 208 (em Chelas), cuja população já foi realojada, e o Bairro Olival do Pancas (Pontinha), onde ainda intervimos. Nestes bairros passou-se do trabalho individual ao trabalho por grupos,
tentando criar condições de 'em família para crescer'.

Uma das vossas acções é o "Aprender na Rua"?

É uma acção que começámos por realizar no amo de 2004 nos bairros 6 de Maio e Zambujal, onde identificámos problemas ao nível da educação, não sendo a escola resposta suficiente para as crianças em risco que não se adaptavam. O resultado desta 'inadaptação mútua' foi um elevado número de situações de abandono e insucesso escolar. Agora, uma vez por semana, vamos aos bairros Quinta da Fonte e Boavista. Esta forma diferente de estar com eles permite-nos diagnosticar as situações de risco para, com as autoridades, definirmos estratégias de intervenção mais eficazes.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE