PUBLICIDADE
edgar ramirez

«Sou a nemesis de Jason Bourne»

29 | 06 | 2007   09.22H

Como se tornou actor? Sempre quis sê-lo?

Tenho uma história peculiar na entrada para o meio. Eu estudei comunicação e especializei-me em comunicação política, para me tornar num diplomata e trabalhar na "arena" das relações internacionais. Foi para isso que trabalhei. Mas ao mesmo tempo sempre mantive um interesse pelas artes performativas e tentei fazer actividades nesse campo enquanto cresci. O meu pai era um diplomata. Vivíamos por todo o mundo. E, na verdade, queria seguir as pisadas do meu pai.

Quando é que teve consciência que o seu futuro não seria na diplomacia?

Foi há 10 anos, era responsável da preparação internacional de um festival de vídeo na Venezuela. Conheci um professor mexicano que foi convidado para ser um dos membros do júri. E, como eu tinha aparecido como actor numa curta-metragem de um amigo meu, nesse ano, e esse filme teve sucesso no festival, este professor viu-me e perguntou-me se eu era actor. Disse-lhe que foi apenas na brincadeira, mas ele gostou e convidou-me para conhecer o realizador e testar um papel perfeito para mim. Mas tive de recusar porque estava a estudar em Harvard e ia continuar com a diplomacia.

Apesar de adorar actuar, nunca pensei nisso como uma carreira possível, em que poderia trabalhar só nisso. Três anos depois, esse professor voltou à Venezuela, só que ele não vinha do México, mas sim de Cannes e o filme que ele me tinha oferecido era o Amores Perros, que acabou nomeado para os Óscares. Mostrou-me o filme e, depois, disse-me que o papel do Gael Garcia Bernal poderia ter sido meu. Fiquei impressionado com a oportunidade que tinha desperdiçado. Achei que deveria fazer algo sobre isso. Seis meses depois entrei no meu primeiro filme e seis meses depois protagonizei outro, e aqui estou eu.

Foi com Domino que "saltou" para o cinema norte-americano e mais internacional?

Sim, filme de Tony Scott e com Keira Knightley e Mickey Rourke. Como tinha feito um filme chamado Punto y raya (2004), que teve muita atenção dos media de Los Angeles, estive em LA a promovê-lo. Na altura, o Tony Scott estava a fazer castings para o projecto. Estive três dias por lá, mostraram-me o guião, fiz uma audição, voltei a fazer outra no dia seguinte, ele gostou e duas semanas depois consegui o papel.

A ascensão foi rápida. Já tinha uma carreira, como foi passar para a de actor?

Isto é uma verdadeira paixão para mim. Sinto-me muito confortável como actor. No entanto, para ser sincero, no fim do dia estou a actuar pelas mesmas razões pelas quais queria ser diplomata, que é uma definição muito profunda que tenho para a condição humana e a sua natureza. Como actor posso explorar a natureza humana, talvez de uma forma mais poética. E como diplomata também queria fazer isso, com procedimentos e ângulo diferente. Também queria aproximar-me de outros seres humanos, tentar compreender as diferenças, tentar lidar com as contradições. Acho que é isso que faço enquanto actor, e teria feito se tivesse continuado a diplomacia, que realmente gostava.

Como actor, nem sempre consegue fazer o que quer, tem de se limitar aos projectos disponíveis. Consegue, nesta altura da sua carreira, escolher o que mais gosta?

Sinto-me muito privilegiado por me oferecerem papéis com que realmente me identifico, ou que me divertem. Não sou esquisito, mas estou muito consciente dos projectos que não quero fazer. Quero estar entrar em filmes que tenham boas histórias, desafiadores, que realmente possam provocar uma reacção. Não quero participar em filmes demasiado óbvios. E tenho tido a sorte de poder escolher os papéis que quero. Tenho tido calma. Por exemplo, depois do Domino recebi muitas propostas mas esperei, porque não quis fazer filmes com os quais não me identifico minimamente.

Como actor que veio da Venezuela, estará "preso" aos papéis tipicamente latinos nos Estados Unidos?

Independentemente da nacionalidade, o que quero fazer é interpretar bons papéis, e esses não têm nacionalidade ou etnicidade. Claro que o mais provável é interpretar papéis latinos porque venho da Venezuela, mas não vejo isso como um problema, um clichét ou um estereótipo, porque as personagens não têm nada a ver com religião, etnicidade ou nacionalidade, mas sim com personagens bidimensionais. Em The Bourne Ultimatum a minha personagem não tem nacionalidade.

Sobre The Bourne Ultimatum, quem é a sua personagem, Paz? Qual o seu papel na história?

Sou a nemesis de Jason Bourne, a personagem do Matt Damon. Ele é uma espécie de versão melhorada do programa para assassinos a que Bourne pertenceu. Vêm da mesma escola, mas o Paz é mais letal. Ambos pertencem a um programa de assassinos. Vai ser uma nemesis muito pouco convencional, porque há uma relação difícil entre os dois. Eles conseguem ver-se um no outro, são semelhantes, embora não sejam iguais. Existe uma dinâmica muito curiosa entre os dois no filme.

Foi um papel muito físico?

Nem por isso. Claro que existem cenas físicas intensas, mas o que mais interessa neste terceiro capítulo dos filmes de Bourne, é que este funciona como um thriller muito psicológico. Está entre o filme de acção e psicológico. A tensão é algo que é constante. Embora também tenha explosões e acção, não é em catadupa, acontece de vez em quando. Há algo muito negro e altamente psicológico neste filme e, para mim, tem sido um prazer fazer parte dele.

Os outros filmes da saga Bourne foram muito bem recebidos pelo público e pela crítica pelo elemento mais negro pouco habitual neste tipo de filmes. Acredita que pode ser bem recebido?

Sim, sem dúvida. Tenha quase a certeza disso. Embora nunca se saiba, estou muito contente com o resultado porque mantém a força dos anteriores dois e consegue dar algo mais, consegue ser mais excitante.

Quando é que rodou o filme?

A partir de Outubro de 2006.

Como foi a sua relação com Matt Damon, no filme e fora dele?

Foi óptima. Ele é muito porreiro. Foi um verdadeiro prazer trabalhar com ele, sempre fui um grande fã dele e tem sido um grande privilégio poder contracenar com ele, ainda por cima num filme tão bom. Ele é um actor muito apurado, muito sólido. Tem um óptimo gosto para escolher os seus filmes e é uma grande inspiração.

Gravou recentemente outro filme a estrear em breve, com Sigourney Weaver e Forest Whitaker, chamado Vantage Point. É um filme que solidifica a sua carreira em Hollywood?

Tenho sido sorte por poder trabalhar em filmes em tão boa companhia. O que sinto mais é que começo a ter uma carreira de cinema mais estável no geral, não apenas em Hollywood. E o meu maior prazer nestes filmes, independentemente do mercado, do país ou da linguagem ou o orçamento é continuar a fazê-los, com histórias mais desafiantes e tocantes que sejam possíveis eu interpretar. É esse o meu objectivo, a minha necessidade.

Que tipos de papéis quer ter que ainda não teve?

Apesar de vir de uma casa e educação muito pragmáticas, sou muito emocional em termos das minhas escolhas para cinema. Não fixo que tenha de fazer um género a seguir ao outro, ou leio a imprensa para ver o que querem que faça a seguir. Apenas me identifico com as histórias, aquelas em que sinto que em quero estar, ou que quero dizer algo através daquelas personagens. As minhas escolhas de carreira são muito emocionais, estou a "tocar de ouvido", por instinto. Por exemplo, não sei que personagem quero fazer agora... acho que as personagens seguem-me mais do que eu as sigo a elas. Guiar a minha carreira assim seria demasiado aborrecido.

Trabalha na indústria da América Latina e norte-americana. Quais as diferenças?

A principal é fora dos cenários, nas infra-estruturas e recursos. Tenho tido a sorte de trabalhar em filmes com realizadores muito sólidos e dedicados e com bons actores. No que diz respeito ao interior do cenário, tem sido muito semelhante. O que acontece no cenário com o realizador e os actores, não tem sido muito diferente para mim, o que acontece lá fora e o impacto que os filmes têm é que é a maior diferença. Para minha sorte, o espírito do cinema é universal.

Quais os seus projectos futuros?

Ainda estou a terminar o filme Bourne, com a promoção e alguns pormenores que podem ser necessários. Preciso de terminá-lo completamente para definir melhor as coisas. Este Verão sai o The Bourne Ultimatum, no Outuno o Vantage Point. E estou muito excitado por um filme venezuelano Cyrano Fernandez que fiz, que é uma versão de Cyrano de Bergerac. E há algumas hipóteses a vir no nosso caminho...

João Tomé | jtome@destak.pt

1 comentário

  • Está porreira. As coisas que descobrimos por aqui, hein. Tem uma história curiosa este rapaz venezuelano.
    paulo assunção | 07.07.2007 | 01.56H
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE