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Entrevista Ruben Alves

A Gaiola Dourada - «Senti que tinha de contar esta história tão portuguesa»

22 | 08 | 2013   18.07H

Ruben Alves é o autor do mais recente fenómeno do cinema francês: A Gaiola Dourada. O filme «mais português de França» deste luso-descendente é uma homenagem aos seus pais. Apaixonado por contar esta história, conta-nos na língua de Camões o segredo que levou mais de um milhão de pessoas a ver o filme em França e que em Portugal (já depois da entrevista) foi visto por 300 mil espectadores em três semanas (é já o 2.º filme mais visto do ano no país).

João Tomé | jtome@destak.pt

Como é que surgiu a ideia para este 1.º filme? O objetivo foi homenagear os portugueses em França?
Inicialmente tinha uma ideia para um guião diferente mas o meu produtor incentivou-me a escrever sobre as minhas raízes e comecei a perceber que era uma história que nunca tinha sido contada. A imagem dos portugueses em França é sempre ligada ao futebol. Senti que tinha de contar esta história, de mostrar este lado porque não existia quase nada nos meios culturais sobre a perspectiva portuguesa. E depois queria homenagear os meus pais e a comunidade portuguesa.

Utilizou muito a sua experiência pessoal para as personagens e as histórias?
Sim, sem dúvida. Digo muitas vezes que o filme não é autobiográfico mas é inspirado nos meus pais, que têm o mesmo perfil dos protagonistas. Nas sensações, na maneira de pensar e ver a vida. Tentei dar uma alma portuguesa a este filme francês. Talvez seja o filme francês mais português de sempre.

Sente que os portugueses por norma trabalham para os franceses mas não são compreendidos por eles?
Nem os conhecem. O português de França é bem visto a nível profissional, integrado, conhecido por ser corajoso e disponível, mas não há representação forte nos media ou no audiovisual. Quem são? Como vivem a emigração? Quis pôr a nú estas questões e humanizar os portugueses, para mostrar que há mais nas pessoas para além da porteira e do homem das obras.

É a sua estreia como realizador, depois de uma curta. Como convenceu os investidores a apostarem no filme?
Tive sorte em convencer o grupo Pathé, que tem muita força. Gostaram da ideia de falar pela 1ª vez sobre o mundo português em França e adoraram depois de lerem o guião. Deram muita força. É a minha 1ª longa-metragem, sou jovem, mas nunca duvidaram. Deram-me confiança porque perceberam que tinha a certeza do que queria. Logo na 1ª reunião disse-lhes que os atores principais tinham de ser portugueses. Eles tinham dúvidas porque não conheciam, mas ficaram a conhecer.

Tem um elenco com Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Maria Vieira. Escreveu o guião já a pensar neles?
Não. Quando escrevi não pensei em atores. Mas mal acabei comecei a investigar. O Joaquim de Almeida foi por acaso. Encontrei-o em Cannes. Olhei para ele e comecei a perceber que ele podia ser um ‘José’ perfeito. Era um bom desafio pô-lo numa comédia com ternura, numa personagem humilde, trabalhador das obras. Estamos habituados a vê-lo em personagens mais duras e senti que ele tinha uma parte comovente. E com a Rita Blanco vim a Lisboa – porque vivo em França e não conheço o cinema português – e perguntei aos amigos quem é que achavam a melhor atriz e todos disseram: a Rita. Encontrei-me com ela e tivemos logo uma paixão um pelo outro. Temos a mesma visão do cinema. Ela na comédia é muito boa porque consegue dar muita verdade e ternura no olhar à personagem. Lá em França os atores principais, o Joaquim e a Rita, foram um êxito junto da crítica porque eles não os conheciam e gostam de conhecer pessoas novas. Adoraram. E a Maria Vieira foi a cereja no topo do bolo. Foi difícil conseguir trazê-la do Brasil, mas só admitia que fosse ela. Ela é única, mesmo na caricatura. Todos eles têm Portugal dentro deles.

Depois há uma descoberta. A Barbara Cabrita, uma atriz luso-francesa que faz a filha lusodescendente que tenta evitar o seu lado português. É um caso típico?
A personagem Paula foi a mais complexa e que os produtores franceses mais dificuldade tiveram em perceber. Não entendiam como é que ela sentia aquele repudio por ser filha de portugueses. É uma filha de emigrantes que ainda não se encontrou com as raízes portuguesas que tem. Continuo a ver muitos luso-descendentes que ainda não estão à vontade com esse seu lado: há quem sinta quase vergonha; depois há outros que se sentem totalmente desinteressados nas suas raízes. Tenho primos que não falam nada de português, nem um ‘olá’, e os pais até vão falando algum português em casa. Mas esta personagem da Paula ao longo do filme vai mudar muito. 

Os tons e cores fazem lembrar o filme Oo Fabuloso Destino de Amélie, com ares clássicos. O que o inspirou?
Acho que tenho uma alma antiga, velha. Por isso gosto dessas cores, luzes com tons quentes e envolventes. Mas mais do que outros filmes ou realizadores o que me inspira mais é a própria vida. É um bocado cliché dizer isto mas é verdade. O que eu vivo é o que inspira sobretudo aqui em Portugal, que há muita coisa que acontece na rua, é um teatro aberto. Gosto do cinema do Almodôvar, da forma como ele filma as mulheres e também de cineastas franceses como o Claude Sautet, que fala muito nas relações humanas.

A rodagem correu bem? O facto de já ser ator ajudou-o neste 1.º filme?
Correu oooootimamente bem. Havia muito bem estar, consegui criar uma família entre o elenco e a equipa. Todos adoraram ver os portugueses juntos. Ajudou-me muito ser ator, para comunicar com eles antes de rodarmos. Dava-lhes oportunidade de participarem no processo criativo, sem nos afastarmos do que eu queria das cenas. Todos os atores estavam muito empenhados no filme, nesta história e deram muito de si mesmos. Trabalhámos muito juntos nos pormenores, do sotaque certo às expressões. Foi ótimo ter atores tão bons.

O filme já foi visto por mais de 1,5 milhões de pessoas em França. Como foram as reações em geral?
Quando se faz um filme nunca se sabe como vai ser recebido. Mas apesar de ser sobre uma família portuguesa tem uma parte muito universal com que todos se podem identificar. Foi por isso que o filme foi tão bem recebido não só pela comunidade portuguesa, mas pela francesa e até árabe. Tive críticas muito boas mesmo de jornais inteletuais como o Le Monde ou o Telegrama. Tocou ao grande público, dos trabalhadores à classe mais alta. Mas o sucesso veio muito do boca a boca. É um filme pequeno, com um elenco de gente pouco conhecida em França. Tornou-se num fenómeno através da comunidade portuguesa. Houve reportagens sobre as idas de família inteiras às salas, algo que não se via em França à muito tempo. E no final batiam palmas, cantavam e até dançavam!

O filme já teve antestreias em Portugal. Teve um feedback diferente?
Na antestreia de Lamego as pessoas também bateram palmas no fim e quiseram falar comigo. Havia quem me dissesse ter-se sentido comovido por ter família em França e se ter identificado, mas também quem não conheça ninguém por lá e tenha chorado baba e ranho pela identidade portuguesa, que é muito forte. Em Cascais houve quem me dissesse que era o melhor filme português que já tinham visto – e o filme até é francês (risos).

Por onde vai estar o filme agora? Os EUA é um objetivo?
Já estreou em França, Luxemburgo, Suíça e Bélgica. Agora estreia aqui e no Canadá, no final de agosto estreia na Alemanha, onde chamaram ao filme ‘É Portugal meu amor’. Depois estreia na Áustria, Colômbia, Brasil, Itália, Austrália, Nova Zelândia. Os EUA ainda não está garantido, mas os distribuidores estão à espera do festival de Toronto para vender o filme. Também vou ao Festival de Macau em Dezembro.

E o que se segue? Quer continuar a realizar, contar outras histórias?
Sim, claro. Ideias não faltam. Quero começar a escrever um guião em setembro, mas estão-me a chegar várias propostas com ideias e guiões. Estou a ler, mas quero fazer tudo com calma porque tenho amigos em França que tiveram um .pequeno sucesso e foram logo fazer filmes à pressa para aproveitar o sucesso e correu mal. Não quero fazer isso, quero ter a minha calma e fazer algo que venha do coração.

Agora sobre outro tema para além da comunidade portuguesa?
Sim, agora sobre outras história. Esta parte de mim já foi tratada, agora vou navegar por outras histórias.

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A SABER

Onde passava os verões
Sempre em Portugal, em Julho e Agosto. Lisboa e Costa da Caparica, na praia, depois passávamos sempre pelo Norte, o meu pai é de Guimarães.

Zona preferida em Portugal
Adoro Lisboa, sou fanático. Tenho casa aqui. Gosto muito do Norte, mas desde que descobri a Costa Vicentina há quatro anos que fiquei apaixonado pelo Alentejo.

Zona preferida em França
Gosto muito do sudoeste, perto de Bordéus, cheio de castelos medievais. Há ainda uma autenticidade muito forte mas tradições e come-se muito bem. As pessoas são muito abertas.

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BI Ruben Alves

• Ruben Alves nasceu em Paris, há 32 anos e é filho de pais portugueses
• Vive e trabalha em Paris, é solteiro
• É ator e realizador. Estreou-se como ator em 2001 numa curta-metragem e como realizador em 2002, na ‘curta’ À l’abri des regards indiscrets
• Em 2004 teve o 1.º papel numa longa-metragem, Pédale dure, de Gabriel Aghion. Trabalha em televisão desde 2005. Em A Gaiola Dourada é ator (num pequeno papel de lusodescendente), realizador e guionista

CRÍTICA AO FILME

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Foto: DR
A Gaiola Dourada - «Senti que tinha de contar esta história tão portuguesa» | © DR
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