Filho de Pablo Escobar

«Sempre disse que preferia morrer a entregar-se»

21 | 04 | 2015   11.59H

Pablo Escobar foi possivelmente o maior narcotraficante do século XX, tendo sido responsável por 80% do tráfico mundial de cocaína e dono de uma fortuna estimada pela Forbes em três mil milhões de dólares. No entanto, quando morreu deixou uma jovem mulher e dois filhos menores com a responsabilidade de pagar “dívidas” aos narcotraficantes oponentes e de lutarem pela sua própria vida. Vinte e um anos depois da sua morte, o filho revela a sua versão da história no livro Pablo Escobar, O Meu Pai, da editora Planeta.

Patrícia Susano Ferreira | pferreira@destak.pt

Teve uma infância como qualquer outra criança?

Obviamente que não, houve muitos excessos, muita violência e muita discriminação. Não pelos meus amigos, mas pelos pais deles. Só queriam fazer negócios com o meu pai, mas não queriam que os filhos estivessem comigo.

Quando soube que o seu pai era narcotraficante e que o dinheiro era oriundo do crime?

Foi em agosto de 1984, quando o meu pai decidiu ordenar a morte do ministro da Justiça. Nesse momento a nossa vida como família mudou. Eu ainda era uma criança, só tinha sete anos e ainda não me questionava do que fazia o meu pai ou de onde vinha o dinheiro. Era difícil questionar esse tipo de coisas. Eu tinha uma vida ‘normal’, e no dia seguinte a essa morte tivemos de nos exilar no Panamá e depois na Nicarágua. A partir desse momento, o meu pai aparecia nas notícias de uma maneira diferente daquela que antigamente.

Foi um grande choque ver o seu pai associado ao narcotráfico?

Não me lembro como é que isso me afetou em particular, mas como nunca faltou amor na minha casa e como o meu pai era muito carinhoso comigo, nunca senti que faltava nada e não tinha capacidade de julga-lo e analisar tudo com profundidade.

Como lidou com a traição da família do seu pai?

Foi pior punhalada que nos deram. Podemos esperar o que quisermos das pessoas que não conhecemos, mas é muito triste reconhecer que a nossa própria família se é capaz de comportar como o pior inimigo. Os que acreditávamos serem os nossos piores inimigos acabaram por se mostrar mais nobres e respeitosos como pessoas do que a própria família.

Acredita que o seu pai se apercebeu em vida de todas as traições da família?

Em vida disse-mo. Há 22 anos. Na altura advertiu-me a mim, à minha mãe, à minha irmã e à minha noiva para estarmos preparados. E chegou mesmo a dizer-me para tomar conta da minha irmã porque acreditava que o seu irmão Roberto era capaz de a sequestrar.

Como foram os primeiros tempos na Argentina quando saíram da Colômbia? 

Agora sentimo-nos em casa, mas sempre sentimos saudades da nossa pátria. Há 20 anos que estamos na Argentina e estivemos 14 anos sem voltar à Colômbia.

Quando tinha 17 anos, os oponentes do seu pai queriam matá-lo por temerem que seguisse as pisadas de Pablo Escobar. Ainda hoje acha que eles acreditam que nessa possibilidade?

Eles estão mais conscientes do que ninguém que eu não represento uma ameaça nem para eles, nem para ninguém. Segui a minha vida e entendi que não há pior negócio que o narcotráfico e isso é algo que os narcotraficantes só se dão conta cinco segundos antes de morrerem. O meu pai e outros amigos pagaram um preço muito elevado por terem entrado nesse mundo, sacrificaram as suas vidas, os seus futuros, os seus sonhos, as suas famílias, amigos… se eu fosse o homem mais pobre do mundo, na verdade seria o mais rico.

Teve de mudar de nome e fugir para a Argentina para ter uma vida 'normal'. Hoje já consegue viajar sem problemas?

Não posso entrar nos EUA, porque lá só dão vistos a traficantes e não a pessoas de bem. Há 21 anos que não me dão o visto porque sou filho de Pablo Escobar, não sei que delito é esse que não consta de nenhum código penal de nenhum país. 

E para outros países?

Neste momento já não, mas quando o meu pai estava vivo sim, todos os países do Planeta nos negaram a entrada, até o Vaticano, a Cruz Vermelha internacional e as Nações Unidas. Nem as agências de viagens nos vendiam passagens tal era o nível de pressão e discriminação a que estávamos submetidos.

Alguma vez se sentiu responsável pelos crimes do seu pai ou alguém o culpabilizou?

A sociedade fez-nos sentir culpados e até à minha irmã que era uma criança. Mas quando mudámos de identidade conseguimos ter acesso aos direitos que nos estavam a ser negados sistematicamente.

Como descreveria Pablo Escobar como pai e como homem?

Acho que como pai cumpriu a sua função. Eu também sou resultado disso, da sua educação e amor… ele nunca me aconselhou que seguisse os seus passos. A única coisa que me dizia era que escolhesse com liberdade o que queria fazer e que me apoiaria. Como homem, era muito ambicioso, muito ‘capaz’ e inteligente para o crime e para qualquer outra atividade. A sua inteligência era nata e por isso converteu-se no criminoso mais importante e memorável do século XX.

O que aprendeu com o seu pai que quer ensinar ao seu filho?

Em primeiro lugar, o respeito absoluto pela família, pelo amor, a lealdade total aos entes queridos. E em segundo, a capacidade de ser frontal com o meu filho e não permitir que a sua relação tenha tabus. Ter uma confiança absoluta que permita primeiro ser meu amigo e só depois meu filho.

Porque acredita que o seu pai que se suicidou?

Sempre nos disse que o ia fazer para não se entregar. Para nós não era surpresa. Falávamos sobre isso em muitos almoços e jantares. Convivíamos com a morte todos os dias. Não era tabu falar sobre a morte.

Foto: dr
«Sempre disse que preferia morrer a entregar-se» | © dr
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