Entrevista

Miguel Oliveira: «Vou estar no MotoGP em dois ou três anos»

19 | 07 | 2015   20.36H

É um dos motociclistas mais promissores dos campeonatos mundiais de MotoGP. Aos 20 anos, o português de Almada Miguel Oliveira admitiu ao Destak que o sonho de integrar a primeira classe do campeonato, o MotoGP, é possível «em dois ou três anos». Depois de dois triunfos em Moto3 este ano, está a recuperar de uma queda que lhe partiu a mão esquerda na última prova e espera voltar ao GP de Indianapolis, dentro de duas semanas, para lutar pelo título (é 3º na geral).

João Tomé | jtome@destak.pt

Como é que começou esta paixão pelas motos?
Começou muito cedo. O meu pai levava-me com ele para as concentrações [de motos] era quase recém-nascido. Comecei a andar com ele, a acompanhá-lo. Estive desde cedo em contacto com esse mundo. Passávamos por Faro [a concentração de Faro realiza-se este fim de semana], por Góis, pela concentração dos Pinguins (Valladolid)… viajámos por todo o país de mota.

As motos sempre foram um habitat natural…
Sim, sempre houve na garagem e sempre estive à vontade.

Quando é que começou a sentir o apelo da competição?
Quando comecei a andar de mota queria logo fazer corridas. Sempre tive vontade de competir. Com oito anos estive um ano de passagem pelos karts. Tínhamos um troféu em Palmela e foi daí que comecei a perceber que queria era competição. Não era só o prazer de andar de mota, queria competir.

Quando foi a primeira corrida? E o primeiro triunfo?
Foi também em Palmela, em 2004 [aos nove anos] e o primeiro triunfo também foi aí em Palmela, uns meses depois de ter começado em competições. Eram motos muito pequenas, de 70cc, já com mudanças, por isso o primeiro ano foi complicado, fiquei quase sempre em último mas ainda nesse ano venci lá a minha primeira corrida.

Já deu para saborear e valorizar essa primeira corrida?
Nem por isso. Não dei grande valor porque não via a competição na altura de uma forma propriamente racional. Tinha nove anos e chegar à frente dos outros meninos era bom mas fazia-se tudo pelo convívio. Correr era algo muito inocente nessa altura.

E quando é que percebeu que era isto que queria fazer para a vida?
Foi uma transição muito progressiva. Talvez quando o meu pai deixou de poder ser o meu mecânico e de levar as motos para as corridas, aí tudo se tornou mais profissional, quando passei para o campeonato de Espanha em 2009 (com 14 anos). Aí foi o primeiro passo para a profissionalização.

Já sentia que tinha um dom/talento natural nessa altura?
Quando passei para o campeonato de Espanha passei a contactar com pessoas importantes, que me elogiavam bastante e fui percebendo que tinha algo de especial.

Na altura já sentia que a competição de motos tem muito a ver com instinto, para além de preparação?
Há um compromisso. É certo que existe muita preparação. O talento a partir de certo ponto não chega. Conduzimos muito por instinto mas há erros técnicos que podemos evitar com treino e estratégia. Tudo o resto já lá está, é inato e não sentimos ou racionalizamos. A parte do talento nota-se nas situações difíceis e imprevistas numa corrida, quando se tem de decidir em instantes e se está a lutar por uma posição. Aí nota-se a vontade de cada um em vencer e aptidão técnica para a concretização final.

Existe um ambiente muito competitivo nas corridas? A rivalidade ultrapassa a própria pista?
Mais ou menos. Na categoria onde eu estou [Moto 3] existem muitos adolescentes e há uma rivalidade um pouco infantil em certas alturas. É só o desejo de ser melhor mas felizmente neste desporto nada passa para fora da pista até porque lá dentro estamos a por em risco a integridade de cada um, por isso há um respeito mútuo grande entre os pilotos.

A família foi importante neste processo? E como geriu a escola e a aprendizagem académica?
A família sempre foi fulcral. É a base de tudo, que me transmitiu os valores que acabam por também ser importantes em competição. Na competição em si a família faz pouco, estamos entregues a profissionais que nos acompanham e fazem parte das nossas vivências e aprendizagem. A família aqui tem um papel mais na forma como nos ajuda a lidar com a pressão, os maus resultados e os bons resultados. Há que ser humilde e saber que a vitória também se esquece rápido. Temos 18 corridas durante um ano e é preciso continuar trabalhar. Em relação à escola, sempre quis continuar. Neste momento estou na faculdade, a carreira é curta por isso há que pensar no que vem a seguir, até porque a carreira pode acabar por uma lesão ou por falta de resultados e há que pensar que a vida é mais do que andar de moto. O curso é medicina dentário, estou no segundo ano.

A nível de Moto 3 as coisas têm corrido bem este ano, já com duas vitórias recentes, apesar da lesão na última corrida. No próximo ano vai para a categoria intermédia [antes do MotoGP]?
Sim, sem dúvida. Vou passar para Moto2. Estamos em conversações com diversas equipas já que aqui no Moto3 não me resta muito a provar. Este ano tenho captado a atenção de várias equipas de topo e esse é o objectivo, tentar arranjar uma boa solução para 2016 e para os anos seguintes. Estou preparado. Penso que em dois ou três anos passar para o MotoGP é um objectivo concretizável.

Quem é que admira mais no MotoGP?
Valentino Rossi sempre foi a minha referência como piloto, como pessoa. É um ícone deste desporto. É difícil não gostar dele, tem um carisma fora de série.

Já o conheceu pessoalmente?
Sim, já nos cruzámos várias vezes e falámos. Estive no rancho que ele tem em Itália e andei de moto com ele e outros pilotos. É uma pessoa normal e é isso que nos faz gostar ainda mais dele. Estar ali com o nosso ídolo é especial. Perguntava-me várias vezes porque ele me dava atenção. Ele é o deus dos deuses das motas. Tem-se mantido no topo. Com todos os títulos e vitórias há algo especial nele que o faz querer ir mais além. Tenho dúvidas que alguém possa repetir o que ele fez até porque o desporto tomou outro rumo. Neste momento somos atletas de elite, treinamos muito, as motos mudaram e são mais exigentes. O desporto também se profissionalizou bastante e é difícil ter uma carreira longa. O desgaste físico e cansaço faz-se notar.
O que faz a diferença para se vencer uma corrida? Primeiro ter a moto para isso, depois ter a vontade. Todos queremos vencer mas o factor psicológico entra muito em jogo. Temos de traçar uma estratégia e conseguir concretizá-la.

Como é o seu dia a dia durante a época?
Andar de moto e ter o jeito para treinar é relativamente fácil, difícil é treinarmos várias horas por dia em outras actividades que nos vão ajudar. Dedico muitas horas a correr e andar de bicicleta – desportos que pessoalmente não gosto muito de fazer, não quero ser ciclista, mas tenho de fazer 60 km por dia. Tenho o estilo de vida desportivo, vou três vezes por semana (2h) ao ginásio e nos outros dias, à excepção de domingo, faço ‘cardio’ em bicicleta ou a pé.

Continua a vibrar com a adrenalina da pista e da competição?
Claro que sim. No dia em que não tiver isso deixo de correr de moto, porque posso-me aleijar ou aleijar os outros. É algo que vou ter sempre e quando não tiver algo está a correr mal.
Mesmo esta queda não é nada que influencie muito mentalmente… Não influencia nem pode. O perigo está sempre à espreita mas nunca podemos pensar nele. Faz parte do desporto e do processo.

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Miguel Oliveira: «Vou estar no MotoGP em dois ou três anos» | © DR
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