Entrevista

Miguel Guilherme: «Um Evaristo à minha maneira»

04 | 08 | 2015   18.01H

O ator português Miguel Guilherme chega aos 56 anos com uma das carreiras mais plenas da profissão. Desde as participações em vários filmes de Manoel de Oliveira, em dramas como Cinco Dias, Cinco Noites (de José Fonseca e Costa, 1996), séries de televisão como Sozinhos em Casa (com Henrique Viana), Herman Enciclopédia, Bocage (lançada em DVD), ou o mais recente Conta-me Como Foi, a versatilidade é óbvia.

João Tomé | jtome@destak.pt

Agora o desafio foi outro: adaptar o clássico de 1942 O Pátio das Cantigas, em que tenta reinventar o mítico Evaristo. Ao Destak fala na personagem que António Silva celebrizou nos anos 1940.

Houve preocupações por se tratar de readaptar de um clássico tão memorável?

Sim, claro que há respeito pelo primeiro filme, mas há uma tomada de posição em relação a esse clássico, no bom sentido. No sentido de o amar e gostar tanto dele que queremos fazê-lo, ou refazê-lo. No fundo fizemos aqui uma homenagem ao Pátio das Cantigas.

E como é que surgiu o convite, não houve casting, pois não?

Não, foi um convite direto do Leonel [Vieira] e depois começámos a falar. Achei o argumento do filme muito conseguido, o que deixa logo um ator mais tranquilo, ainda para mais quando estamos a partir de um clássico com tanta importância.

Existem muitas diferenças na personagem Evaristo, que interpreta?

Ao contrário de outras personagens desta adaptação, o Evaristo é muito parecido com o original. De certa maneira, recriei o Evaristo, ao meu modo, mas tem muito da génese da personagem. Já os diálogos são diferentes do clássico.

Foi necessário rever o filme para “entrar” no Evaristo?

Sim, revi várias vezes. Trabalhei imenso em casa, tentei seguir alguns maneirismos dele, não tanto alguns gestos mais exuberantes (que são mais antigos). A verdade é que há maneirismos do António Silva que tentei usar. E depois o fundamental na rodagem é ir preparado e estar muito descontraído a fazer, porque é comédia, tem de se estar bem-disposto, o que nem sempre é fácil com as câmaras.

Mas o Evaristo também se leva muito a sério…

Claro, o que é mais cómico no Evaristo é ele levar-se tão a sério. Isso e achar-se tão importante, tão inteligente, tão giro, tão rico, tão culto, muito mais do que é. Não tem sentido de humor, ou é muito raro. Apesar das várias décadas que passaram, a génese de algumas pessoas mantém-se muito igual. Continua a ser uma personagem atual.

E como foi recriar o bairrismo típico de Lisboa?

Esse bairrismo também continua a existir. Os bairros de Lisboa não mudaram, continuam a competir uns com os outros, embora hoje os jovens sejam diferentes. Os tempos são diferentes.
Na rodagem houve preocupação em rever partes do filme para alguma cena? Não, nem por isso. Seguiu-se sempre o argumento. A rodagem acabou por ser muito descontraída, mas ao mesmo tempo com um sentido de responsabilidade sobre o que estávamos a fazer. Não houve chatices, as pessoas dedicaram-se muito ao projeto e tenho uma ótima recordação – já gravámos há um ano. A Vila Berta é maravilhosa, usámos o local real, que foi adaptado e estava muito bem. Gosto muito dos atores, sou amigo de alguns.

Há cenas semelhantes às mais emblemáticas do primeiro filme. Houve uma preferida?

Uma cena assim icónica do meu personagem é só o: “Ó Evaristo, tens cá disto?”, que foi adaptada. O resto é como se fosse o mesmo personagem, mas fosse o neto dele, é assim que eu vejo. São um pouco diferentes, embora a relação com os vizinhos seja a mesma, a sobranceria é a mesma. Continua a ser gozado e detestado pelas outras pessoas do bairro, continua a achar que a filha é o máximo e ela está sempre a enganá-lo. E também há o amor pela Rosa, não correspondido, mas pelo qual luta até ao fim. É persistente e sem complexos de superioridade.

E a relação com o César Mourão foi boa, já que são rivais pelo mesmo amor no filme?

Foi boa, mas nem filmámos muito juntos. Aliás, mesmo no próprio Pátio das Cantigas, o Evaristo e o Narciso também não têm assim tantas cenas juntos. São é cenas importantes, porque competimos pela mesma mulher, portanto há um ódio latente quase shakespeariano. E foi mesmo muito divertido gravar. Há uma cena do arraial, em que acaba tudo à porrada, que foi perfeita a todos os níveis.

Continua em plena atividade profissional aos 56. O que se segue?

Agora estou a fazer uma novela para a SIC. Já começou a ser filmada, chama-se Coração de Ouro. E vou fazer uma peça de teatro, que vai estrear no Casino do Estoril. Sou eu e o Bruno Nogueira numa encenação da Beatriz Batarda. É uma comédia hilariante de um autor francês. Ri-me do princípio ao fim. E é uma oportunidade de voltar a trabalhar com o Bruno Nogueira. Somos amigos.

Espera poder colocar este Pátio das Cantigas num cantinho especial da sua carreira?

Vamos ver como corre. Agora já não está na minha mão, o que tinha a fazer já fiz, agora as pessoas ou vão atirar ovos ou vão achar graça. Mas isso é sempre o dilema do ator: está sempre a ser julgado. Faz parte.

No meio de uma carreira tão plena e diversificada, do que se orgulha mais?

A nível de cinema foram os filmes com o Manoel de Oliveira, como é óbvio [onde estão Non’ ou A Vã Glória de Mandar, Palavra e Utopia, A Divina Comédia, entre outros], que era um cineasta com quem adorava trabalhar. A nível de televisão, foi uma série de oito episódios que fiz sobre o Bocage e o Conta-me Como Foi. Já não é mau (risos).

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‘O pátio das Cantigas’
A adaptação ao clássico nas salas

Partindo do argumento original de António Lopes Ribeiro, Vasco Santana e Francisco Ribeiro, o
realizador Leonel Vieira estreou esta semana O_Pátio das Cantigas renovado, numa adaptação do clássico. «Bom dia, menina Rosa!» é como arranca o filme, onde uma bela balconista Rosa (Dânia Neto) tem dois pretendentes: Narciso (César Mourão), um guia turístico poliglota, e Evaristo (Miguel Guilherme), dono da mercearia. Não faltam “cromos” (alguns novos relativamente ao clássico) neste bairro lisboeta.

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Leonel Vieira | Realizador
«Adaptámos e fizemos homenagem»

Leonel Vieira segue aqui um projeto de uma trilogia de clássicos, depois de garantir os direitos não só de Pátio das Cantigas, mas também de Leão da Estrela, de 1947 (estreia no final do ano), e A Canção de Lisboa, de 1933. Sem ser um remake, «tentámos homenagear o clássico numa adaptação diferente». «Temos um dos melhores atores portugueses [Miguel Guilherme], ainda por cima tem uma voz que faz lembrar o António Silva», disse ao Destak. Para o realizador seguem-se dois filmes rodados no Rio de Janeiro que terão distribuição no Brasil.

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Foto: DR
Miguel Guilherme: «Um Evaristo à minha maneira» | © DR
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