Refugiada norte-coreana

Hyeonseo Lee: «Não sabia que ia ter de viver na sombra e ser perseguida»

13 | 10 | 2015   11.25H

Hyeonseo Lee é o nome pelo qual assina hoje, mas ao longo dos seus 35 anos já teve sete identidades. Já viveu tanto na Coreia do Norte, onde nasceu, como na do Sul onde está refugiada, assim como na China onde ocultou a sua origem para evitar ser presa e deportada. Hoje, conta a sua história sem segredos no livro 'A Mulher com Sete Nomes' (editora Planeta) e usa-a como ‘arma’ de sobrevivência. Tem plena consciência que o seu protagonismo é a única forma de se manter viva. Apesar de temer ser raptada, acredita que um dia vai conseguir regressar a uma Coreia do Norte livre para poder rever a família que não vê desde os 17 anos.

Patrícia Susano Ferreira | pferreira@destak.pt

Sente que teve uma infância feliz?

Como não havia comparação e tínhamos uma lavagem cerebral desde que nascíamos, eu achava que tinha uma vida perfeita, mesmo com os desaparecimentos de pessoas durante a noite e as execuções públicas… eu achava que isso também acontecia nos outros países.

Quando é que se começou a questionar?

Quando o ditador morreu em 1994 pensei «como é possível um Deus morrer?… se calhar ele é humano». Depois comecei a ver a televisão chinesa e tive contacto com uma imagem de paraíso de cores vibrantes que queria ver.

Foi isso que a levou a passar a fronteira?

Sim. A única vez que passei a fronteira foi aos 17 anos, mas não sabia que seria a última vez, nem que seria tão sério. Via tantas pes-soas a passarem a fronteira, parecia ser uma coisa normal. Não sabia que ia estar separada da minha família tantos anos... ser perseguida e ter de viver na sombra.

Acha que a sua mãe sabia que nessa noite você ia partir?

Não, se ela soubesse não me deixaria sair. E se eu soubesse que colocava em risco a hipótese de ver a minha família também não o faria. O que mais me incomodou durante muitos anos foi esse momento em que me despedi sem nenhuma saber o que ia acontecer.

Como reagiu quando a sua mãe lhe ligou e disse que não podia regressar?

No momento, fiquei muito feliz, mas depois vivi com a sensação de culpa. Quando cheguei à China achei que aquilo era a verdadeira liberdade e esqueci tudo. Mais tarde, senti-me sozinha... mas era tarde de mais.

Acredita que um dia vai ter oportunidade de regressar à Coreia do Norte?

Sim, é isso que me dá forças para continuar a fazer o trabalho que estou a fazer. Eu acredito que vai acontecer. É por isso que ponho a minha segurança em risco.

Mesmo hoje, vivendo na Coreia do Sul, receia que possa ser levada de volta para a Coreia do Norte e presa?

Se não fosse uma pessoa conhecida isso significaria ser executada publicamente. Mas neste momento não podiam fazê-lo... seria raptada, torturada e teria de falar em público a dizer que era tudo mentira. Depois não sei o que me aconteceria… mas seria horrível.

Seria mais fácil simplesmente ir para outro país e viver na sombra?

Eu sou contra o regime norte-coreano e não me vou esconder até ver o regime cair, vou lutar… Estou a planear ir para os EUA, mas é porque acho que é o melhor sítio para lutar pelo meu país.

A sua vida parece saída de um filme…

Eu nunca pensei que a minha história fosse impressionar tantas pessoas. Sempre achei que era o meu destino. Passei toda a vida a achar que toda a gente tinha vidas difíceis. Agora que me sinto em paz penso «Uau, eu fiz um filme da minha vida!».

Hoje sente-se livre?

Eu vivo num mundo livre desde 2008, mas por causa do meu estatuto de refugiada e das questões de segurança sei que não sou totalmente livre. Mas tirando isso, eu sinto-me livre, nunca antes tinha sentido esta sensação, mesmo as coisas mais simples, como estar aqui [em Portugal] sentada a apanhar sol numa esplanada.

E até mesmo poder viajar...

Sim... todos os dias tenho que agradecer porque experienciei uma vida de opressão. Eu não podia ver televisão sem ser quase no silêncio e com as cortinas fechadas, não tinha liberdade de expressão, religião… não podia fazer questões sérias na escola, porque isso seria desobedecer ao regime. Hoje na universidade, quando oiço os profesores a dizerem «têm perguntas?» é tão estranho. Nunca me aconteceu…

Para a sua mãe ainda é mais difícil...

Sim… na idade dela, a liberdade já não é tão importante. O mais importante é a família que ficou lá… às vezes questiono-se me fiz a escolha certa para ela porque custa muito ver as saudades que ela tem do que deixou lá…

Qual a sua verdadeira identidade neste momento?

Eu sinto que sou uma cidadã do mundo, apesar de neste momento ter nacionalidade sul-coreana. Mas sei que quando a Coreia for uma só, eu saberei qual a minha identidade. Eu quero ser simplesmente coreana.

Acredita que será possível?

Tenho a certeza que vai acontecer ainda durante a minha vida porque nenhum ditador pode durar para sempre. O novo ditador é louco, não tem habilidade para ser líder, o que vai fazer com que não irá durar muito tempo…

Qual seria a primeira coisa que fazia quando regressasse à Coreia do Norte?

Visitar a minha aldeia natal e ver a minha familia, se ainda estiverem vivos e dizer-lhes obrigada. No passado quería ver o meu pai biológico, saber como é que ele era… mas como ele morreu há três anos, já é tarde. Talvez vá visitar as filhas dele… as minhas irmãs que eu nunca vi. 

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