«Sinto-me um fabricante de sentidos»

Gregorio Duvivier da Porta dos Fundos apresenta peça em Portugal

27 | 10 | 2015   11.53H

Gregorio Duvivier é um dos fundadores da Porta dos Fundos e está em Portugal para apresentar a peça Uma Noite Na Lua, de João Falcão. A digressão passa pelo Teatro Tivoli BBVA (hoje), Leiria (dia 29), Figueira da Foz (dia 30) e Teatro Sá da Bandeira (dia 31). Além do espetáculo, o humorista, ator, escritor, guionista, cronista e poeta brasileiro desvendou um pouco sobre o livro que lançou pela Tinta da China.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

Está em Portugal para apresentar uma peça. O que pode desvendar?
Uma Noite na Lua é um monólogo, de um homem pensando, em cima do palco. O público vai ter acesso aos pensamentos do homem, como se a peça fosse dentro da cabeça de um ser humano. De lá de dentro sai uma peça de teatro. A peça que estão a assistir é a peça que ele está a escrever. É uma comédia acima de tudo, mas também dramática. Passa por vários géneros, por isso é que gosto tanto dela. Mas também é um musical, porque é cantada, e tem suspense por isso também é um thriller. A peça passeia por muitos géneros teatrais. O que mais gosto da peça é ser uma rapsódia teatral.

Identifica-se com o seu papel?
Identifico-me o tempo todo com esta peça, porque ela fala de um homem que está pensando em coisas que não devia estar pensando. Ele devia escrever uma peça e está a pensar na mulher que o deixou. Ele só pensava na peça que tinha de escrever por isso é que ela o deixou. Eu sou um distraído crónico, tenho um problema de foco enorme por isso me identifico muito com este personagem.

Como se sente sozinho em palco?
Antes de entrar em cena é muito difícil. Nos bastidores fico muito nervoso e sou um homem sozinho, mas quando entro em palco estranhamente não estou mais sozinho. Tenho o público que me acode e me faz companhia. Nunca me sinto sozinho quando estou no palco graças ao público que é muito acolhedor. Talvez por ser um espetáculo que fala de amor e de solidão, que são temas muito caros ao público em geral. É como se eu tivesse amigos na plateia. As pessoas se identificam, algumas choram. Apesar de ser uma comédia acaba por ser catártico para o público.

É uma peça que dá tanto para rir como para chorar?
Sim, as pessoas choram no final da peça, é muito comum. A peça fala de amor, solidão, tristeza, de inconseguimento – tão bonita esta palavra! A peça faça de inconseguimentos da vida. Embora seja uma comédia é sobre factos difíceis da vida, tem triso e também tem choro.

O que espera do público português?
Fiz esta pela em mais de 30 cidades do Brasil, e é um país muito grande com um pouco de tudo, com muitos públicos. É muito prazeroso conhecer lugares através do teatro. Apesar de contar uma história para o público, também conheço espaços diferentes. É uma troca do autor com o público. Assim conheci o brasil todo e assim vou conhecer Portugal. É muito festivo para mim, é uma experiencia muito enriquecedora, é melhor do que turismo porque é uma troca.

Qual a faceta que o representa melhor: ator, humorista, escritor, guionista?
Cada momento me sinto um. Agora, mas ator com certeza. Todos eles organizam experiências de forma a que façam sentido. Um bom espectáculo é aquele onde se sai achando que a sua vida se organizou de alguma maneira em torno de algum sentido. Todas essas facetas devem inventar um sentido. Não descobri-lo, porque não acho que haja um sentido só para a vida, mas como ator, guionista, humorista ou poeta sinto-me um fabricante de sentidos. E isso dá um sentido à minha própria vida.

De que forma a Porta dos Fundos o ajuda a ser o ator que é hoje em dia?
A Porta dos Fundos me deu uma visibilidade fora do comum para canal de internet. Não estou habituado a falar para tanta gente. A Porta dos Fundos traduz a experiência de ser ator de teatro perante uma centena de pessoas para milhares de pessoas. É algo realmente surpreendente como uma coisa tão artesanal como o teatro se tornou quase industrial. Temos doze milhões de subscritos! Não consigo não ficar feliz, e emocionado até.

Como surgiu a Porta dos fundos?
Nós somos muito amigos e decidimos fazer um canal de humor. Achamos graça às mesmas coisas e o objectivo foi fazer algo que fizesse a gente rir. E deu certo!

A Portugal traz também um livro.
Lancei um livro pela Tinta da China que se chama Caviar é uma Ova. São crónicas que escrevo na Folha – o maior jornal do brasil - e não chegam aqui, ao contrário da Porta dos Fundos. Elas falem do brasil, mas mais do que isso falam do quotidiano. Talvez expliquem esse puzzle que é o Brasil, que é muito complicado. E a comédia dessas crónicas vem disso, do facto de o brasil ser um país incompreensível.

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Foto: Pedro Loureiro
Gregorio Duvivier da Porta dos Fundos apresenta peça em Portugal | © Pedro Loureiro
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