entrevista

Mísia oferece novo disco a Amália

10 | 11 | 2015   11.56H

O novo trabalho conta com as participações de Maria Bethânia, Rogério Samora e da cantora espanhola Martírio, entre outros. Pode ouvir os temas no próximo sábado, no Cinema São Jorge, em Lisboa.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

Mísia regressa aos discos com o álbum duplo Para Amália, depois de mais de 20 anos de construção de uma sonoridade própria. Saiba o que pode ouvir e quem participou nesta aventura.

Como lhe ocorreu esta ideia tao engraçada de oferecer um presente a Amália?
Este disco é mesmo um presente de mim para a Amália. Um presente é uma coisa mais pessoal e mais íntima. Há muito tempo que eu tinha vontade de agradecer à Amália, porque é uma das referências principais do meu trabalho. Também já tinha feito um presente ao Carlos Paredes. Fiz um disco todo inspirado na música dele. Já tinha esta ideia e no ano passado cantei em Madrid no festival de fado e fiz um espectáculo que era um tributo a Amália Rodrigues. Um bocadinho ao contrário do que normalmente se faz, que as pessoas começam a sua carreira a cantar coisas da Amália para seguir os seus passos, fiz isto já depois de vinte anos de profissão.

Prefere dizer presente em vez de tributo porque foi um trabalho construído mais a pensar na Amália e no que ela poderia gostar?Costumo dizer a brincar que canto the f word – folclore. Nem eu teria imaginado se não fosse este presente à Amália a cantar folclore. Sou muito urbana, gosto só de ouvir um bocadinho, mas no entanto adorei cantar 'A Rosinha da Serra de Arga', que tem uma letra muito bonita e muito naif. No repertório Amaliano há dois ou três temas que são músicas que a Amália gostava de cantar. Não é um disco feito só para mim.

Como fez a divisão em dois álbuns?
Um é só piano e voz, com temas mais filosóficos e mais profundos e mais sombrios, com letras que falam da vida e da morte, como a Amália gostava, e eu também gosto. O fado para mim é isso. O outro é mais solar e mais leve, com folclore, fados tradicionais, músicas mais conhecidas e quatro inéditos. Tive a ideia de pedir às pessoas para escreverem músicas e poemas inspirados pela grandeza da Amália hoje em dia. É como se a biografia dela se continuasse a escrever.

A quem pediu estes quatro temas?
Todas as pessoas que colaboram são amalianos, para mim era importante que assim fosse. Um tem a colaboração de Maria Bethânia e é o que abre o CD, chama-se 'Amália, Sempre e Agora', com um poema fabuloso e magistral da Amélia Muge, a honrar a Amália de cima abaixo. Outro poema é de Tiago Torres da Silva, que se chama 'Amália que Não Existo' e é um fado tradicional. O Mário Cláudio escreveu um poema que se chama 'Madrinha de Nossas Horas'. E o outro fui eu que escrevi, um textinho a fazer jogos de palavras com os títulos de alguns fados da Amália. Chama-se 'Uma Lágrima por Engano' e tem música do maestro napolitano Fabrizio Romano, que também toca piano no disco.

O disco acaba por conseguir reunir temas que Amália cantava, gostava e tem outros feitos de propósito para ela.
Exactamente e ainda há mais uma particularidade. Lembrei-me de fazer um disco ao piano, porque ela ensaiava ao piano os fados. Só depois transportava para a sonoridade das guitarras.

Além dos compositores o disco conta ainda com mais participações.
Também tenho as colaborações das pessoas que cantam comigo. Além da Maria Bethânia, tenho a voz extraordinária do Rogério Samora, que diz um poema lindíssimo, num tema que se chama Amor sem Casa. Há um cantor espanhol que já faleceu chamado Carlos Cano que compôs uma música dedicada a Amália chamada 'Maria la Portuguesa', que é bastante conhecida. E esse tema faz parte do reportório normal da Martírio, que aceitou logo o meu convite. É uma canção em castelhano.

Qual o papel que acha que a Amália tem hoje em dia?
A Amália é que pôs o fado no mundo a um nível inultrapassável. Ela esgotou todos os adjetivos da critica mundial e é considerada uma das melhores vozes do século XX. Mas em relação ao papel dela, quando se fez a candidatura do fado a património imaterial foi muito posto em relevo o papel dos fadistas que estão vivos mas não vi a importância do papel da Amália, nem a visibilidade que na minha opinião deveria ter tido.

Vai apresentar este disco no concerto integrado no Misty Fest?
No dia 14, é a grande apresentação no Misty Fest, no Cinema São Jorge. Vou fazer um espectáculo inteiro com este álbum e talvez cante A Lágrima, que é o meu fado fetciche que as pessoas pedem sempre no fim.

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Foto: DR
Mísia oferece novo disco a Amália | © DR
«Eu tinha vontade de agradecer à Amália»
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