Música

Ana Moura fala sobre novo disco Moura

09 | 12 | 2015   13.11H

Depois do "Desfado", Ana Moura está de volta com Moura, produzido por Larry Klein. Nos 13 temas conta com as estreias de Carlos Tê, Samuel Úria, Jorge Cruz, Edu Mundo, Sara Tavares, Kalaf, José Eduardo Agualusa e Toty Sa´Med. Repetentes são Márcia Santos, Miguel Araújo, Pedro da Silva Martins, Luís Martins, Pedro Abrunhosa, Manuela de Freitas e Maria do Rosário Pedreira. Em Portugal, o sexto álbum Moura vai ser apresentado nas maiores salas de norte a sul, entre as quais a MEO Arena, dia 9 de abril e o Coliseu do Porto, no dia 16.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

O que conseguiu reinventar neste sexto álbum?
Não foi fácil, ainda por cima porque foi produzido pelo mesmo produtor do "Desfado" e repeti também alguns dos compositores. A única preocupação que tive foi fazer algo diferente do "Desfado", e musicalmente é um disco muito mais elaborado. O "Desfado" é um disco mais cru, que vem dos instrumentos usados, como a bateria vintage que tem uma sonoridade mais suja. Este disco, em termos de som, é completamente diferente e tem mais detalhes. À medida que se vai ouvindo as músicas, vão-se descobrindo imensos pormenores, também pela forma como os instrumentos foram captados e tratados. Dou sempre o exemplo da guitarra portuguesa, que em algumas músicas foi reamplificada com amplificador de guitarra eléctrica, o que dá uma sonoridade completamente diferente. Tanto eu como o Ângelo (o guitarrista) até estranhámos, mas depois adorámos. E de facto este tipo de coisas é que faz toda a diferença.

Em termos de canções e letras, disse que repetiu alguns dos compositores, mas conseguiu manter uma diferença?
Eu repeti alguns compositores, que têm uma linguagem muito própria mas de qualquer forma houve diferenças. Por exemplo, o Pedro da Silva Martins que é compositor do "Desfado", que é uma música muito alegre. Esta música que fez para o "Moura" é muito mais introspectiva, embora espelhe a expressão portuguesa de estar alegre e minutos depois triste, com aquelas contradições que o "Desfado" também tinha. Os temas são variados e também conto com compositores que eu nunca tinha cantado como o angolano Toty Sa'Med com letra do José Eduardo Agualusa, em Moura. É uma música que viaja por um universo completamente diferente. E tenho também uma composição do Samuel Úria e do Jorge Cruz, que assina o single "Dia de Folga".

Acha que o single representa bem o disco no geral?
Representa bem, porque este disco é bastante mais alegre, e começa logo na letra. Há uma personagem feminina que atravessa mais histórias e pede que haja um dia que seja diferente de todos os outros dias com aquelas rotinas de todos os dias. Tanto musicalmente como a letra reflecte bem o que o disco é porque é muito mais alegre e ritmado. Por exemplo, a música do Miguel Araújo relembra que o fado também se pode dançar. No século XIX dizia-se que o fado se dançava e o Miguel foi buscar isso porque conta que ao assistir a um concerto meu via que eu dançava imenso e então teve a ideia de que o Fado também se pode dançar.

Outra grande diferença é este dueto no tema "Eu Entrego".
Quando acabei de gravar esse tema, senti que o tema tinha uma vibração muito cubana. Como há uns meses fui convidada pelos Buena Vista Social Club para cantar com eles, na altura conheci-os e houve uma empatia muito bonita. E agora quando acabei de gravar pensei logo, porque não convidar a Omara Portuondo e mostrar dois pontos de vista na mesma história, com a minha interpretação e a interpretação de uma voz mais madura e resultou muito bem, porque ela tem um swing único no seu canto.

Sente que continua a conseguir casar bem a tradição do fado com o pop?
Desde o primeiro quando fazia discos mais tradicionais tinha sempre uma ou outra música mais fora da caixa que as pessoas sempre associavam à pop.

Está cada vez menos tradicional, então?
Nas entrevistas perguntam-me sempre se estou a fugir ao fado, mas não é essa a palavra. Estou cada vez menos tradicional é a frase certa, porque estou a fazer o meu caminho. Tem feito sentido ir procurando o meu caminho, ir descobrindo um compositor ali, um produtor aqui. É apenas o meu caminho, embora me sinta fadista e não queira nada fugir ao fado. Nestes dois últimos discos que são tão diferentes, fiz questão que tivessem o fado tradicional.

Porque chamou "Moura" a este álbum?
De repente tudo começou a fazer sentido. A primeira intenção do disco era ser diferente do "Desfado". Eu queria que tivesse a simbologia da metamorfose, daí ter a borboleta na capa, para representar a minha vontade de me reinventar a cada disco. Quando comecei a procurar o nome vi que duas músicas do disco tinham o nome Moura e fui pesquisar as histórias das lendas das Mouras encantadas e achei curioso serem seres que tomavam várias formas. E achei que as peças se estavam todas as juntar e Moura era o nome que reflectia bem o disco.

Com tantos prémios que já ganhou, salas onde já cantou, artistas com quem participou qual diria ser o seu maior feito profissional até agora?
Confesso que o meu maior feito profissional foi o meu disco "Desfado" ter sido tão bem recebido, ter sido o disco mais vendido da última década e ser quíntupla platina numa altura em que não se vendem discos. Isto porque na altura quando comecei a gravar o "Desfado" ninguém acreditou e achava que o disco não ia ser bem aceite. Mas eu queria mesmo gravar este disco e fui extremamente feliz a gravá-lo e mesmo que não fosse bem recebido essa felicidade já ninguém me tira. Hoje em dia o disco ainda está no top!

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Foto: Frederico Martins
Ana Moura fala sobre novo disco Moura | © Frederico Martins
«Sinto-me fadista e não quero fugir ao Fado»
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