Daniel Oliveira

«Procuro perguntas que não permitam respostas vagas»

15 | 12 | 2015   11.32H

“Alta Definição – Um Novo Olhar” é o quarto livro espelho das confissões obtidas no programa da SIC. Histórias de força e superação, que revelam um pouco mais do que já sabíamos sobre os entrevistados.

Vera Valadas Ferreira | vferreira@destak.pt

Da fama e do proveito de bom entrevistador já não escapa. Qual é o seu segredo?

Não sei se há um segredo, até porque que o trabalho é bastante visível. Acho que tem a ver com a preparação que nós fazemos para cada programa. Depois há uma coisa mais pessoal, que é o interesse genuíno que eu tenho na história de vida das pessoas que vou entrevistar. E acho que isso se nota. Depois há a preparação com que eu parto para a entrevista, faço questão disso, lendo tudo o que há disponível sobre esse pessoa, recorrendo ao conhecimento empírico que há sobre a mesma, pesquisando na Internet. Depois sou fiel à máxima de que temos uma boca e dois ouvidos para ouvir mais do que falar. Portanto, eu estou de facto a ouvir aquilo que o convidado me está a dizer. É um conjunto de situações que fazem com que os convidados se predisponham da forma que as pessoas já conhecem.

Acontece-lhe afastar-se muito do guião previsto?

Sim, sim, muito. Até porque o guião é meramente indicativo. Diria até que não é um guião porque a minha lógica é que de que seja o convidado a conduzir a conversa, que seja ele a abrir as portas por onde eventualmente nós poderemos entrar. Não tento que nenhuma pergunta seja intrusiva ou que force algo que o convidado não queira falar. Muitas vezes, aquilo que eu levo preparado é “apenas” todos os caminhos que podem ser percorridos no decurso daquela conversa, aquilo que de mais relevante possa ser dito. Até porque a preparação também me ajuda a perceber o que é que a pessoa já disse sobre determinadas coisas e se calhar evitar as coisas que são mais recorrentes e procurar as coisas que são mais inéditas.

Qual tem sido o critério de seleção dos entrevistados?

É um critério acima de tudo de mérito do percurso de vida da pessoa, independentemente da duração da mesma – pode ser alguém muito novo mas pode ter uma história de relevante, estou a lembrar-me do D8, que aos 18 anos foi o entrevistado mais novo. O facto de nunca termos definido o que para uma estação comercial seria mais fácil acho que também explica o sucesso do programa. Fomos sempre muito criteriosos na escolha dos convidados, mesmo que à partida o público não tivesse pensado neles como alternativa.

Certamente ao longo destes anos entrevistou pessoas que admirava, com as quais tinha a ilusão de falar… como é que gere esse lado de fã?

Acho que consigo separar bem. O programa, não sendo jornalístico, não está espartilhado e portanto não amedronta nada que as pessoas percebam que eu nutro admiração por aquela pessoa. O importante é que resulte sempre numa boa conversa. É por isso que seremos sempre ajuizados, quer se note que eu sou fã do Lima Duarte, que há muito que queria entrevistar. Acho que isso se sente na entrevista mas não interfere no decurso da mesma.

Todos os entrevistados comentam que ir ao Alta Definição é um momento memorável nas suas vidas e carreiras. Para si também há entrevistas mais especiais que outras, talvez até pela dificuldade em consegui-las?

Especiais acabam por ser todas na medida em que há sempre qualquer coisa a mais do que havia até aquele momento na história de vida daquela pessoa, daquilo que o público conhece. A pessoa deu sempre mais qualquer coisa. Acho que isso conseguimos em todos os programas. Depois há outras que são especiais pela força do testemunho, pelo legado que deixam. Há muitas entrevistas neste livro que têm essa força. Estou a lembrar-me do Reynaldo Gianecchini, por exemplo, pela forma como superou aquele momento tão difícil na sua vida e como o aproveitou para nos dar ótimos exemplos na forma como devemos encarar a vida. Mas há outros exemplos que estão no livro, como o Anselmo Ralph, que também tem uma história de superação e que torna uma entrevista especial no sentido em que é inspiradora de ouvir.

Até quando é que acha que o programa poderá continuar? Portugal não é assim um país com um número limitado de gente famosa…

Lembro-me que quando fizemos dois anos de emissão as pessoas disseram que já não havia mais ninguém para entrevistar. Teve uma certa graça. Não temos fim à vista. Acho que haverá sempre pessoas para entrevistar e nada nos impede que muitas das pessoas que estiveram cá há seis anos não possam voltar com outros testemunhos e aprendizagens. Repetimos muito poucos convidados, seis ou sete, e todos eles o seu regresso foi justificado de alguma forma. Dou o exemplo da Cláudia Vieira que quando veio a primeira vez estava a grávida, quando regressa é mãe de uma menina de seis anos, ela mudou radicalmente e portanto o que ela tem para nos dizer é relevante enquanto testemunho. O João Manzarra quando veio a primeira vez ainda nem sequer tinha apresentado o Ídolos. A Daniela Ruah quando veio estava a estrear uma série nos EUA, quando regressa está grávida e já está de forma reconhecida nessa série. Mas ainda assim, temos o ano que vem todo esquematizado em termos de convidados. Trabalhamos sempre com essa antecedência. Obviamente que as coisas não vão ser exactamente como planeadas, hão de haver planos B, C e D. Procuramos ter esse distanciamento porque permite-nos ter uma abordagem à entrevista muito mais cuidadosa.

Consegue dizer-nos três nomes que gostaria de entrevistar?

Há muitas personalidades que eu ainda não entrevistei e que gostaria, por exemplo o presidente Pinto da Costa do FCP. Há muitas personalidades brasileiras, como a Glória Pires. Cá há também muitas pessoas que nunca entrevistei por circunstâncias várias, nomeadamente contratos exclusivos com outras estações.

Por falar em entrevistados brasileiros, por natureza bons conversadores e descomplexados… aconteceu-lhe entrevistar alguém que fosse extremamente fechado ao ponto de sentir que a conversa não estava a resultar?

Há pessoas que têm defesas mais erguidas e partindo para uma entrevista como a do Alta Definição, totalmente intimista, é normalmente que algumas possam estar mais nervosas. Mas com o fluir da conversa acabam por ficar mais à vontade. Gosto que isso aconteça sob a perspectiva do espetador. Por isso é que antes da entrevista procuro não falar com o convidado para que o gelo não se quebre antes da conversa. Prefiro que o gelo se quebre e que isso seja testemunhado pelo espetador. Há uma verdade em tudo isso que é muito prazerosa para quem faz e para quem vê. Isso coloca o espetador no mesmo patamar de importância e não secundário, ele está a ver as mesmas coisas que nós. Gosto muito disso.

Gostava que a entrevista fosse mais longa?

Não, não, não, de todo. Tenho autonomia quer para escolher convidados, quer para a edição. Estamos a falar de um canal generalista, um espaço de conversa que pode ir até 45 minutos. É um privilégio tão grande aquele que eu tenho nos tempos que correm, o poder conversar com alguém em televisão. Se pensarmos bem, sobretudo na televisão generalista comercial, quantos programas é que existem com estas características, é muito raro.

E também não sonha com o horário nobre?

Não porque o que enobrece os horários são os programas. Sobretudo nos dias que correm, cada vez mais, o horário vai ser secundário porque quem quer ver vai ver e define o seu próprio horário de visualização dos conteúdos que quer ver. A questão é a medição dessa audiência, as pessoas que não veem às duas da tarde mas até 7 dias depois ou já gravado ou na net, nas repetições da SIC Caras. Há tantas soluções hoje que o horário hoje é secundário e relativo para mim. O que me interessa é fazer um bom programa de televisão e isso prevalece em relação ao resto.

Há uma pergunta que faz sempre aos seus convidados: se alguém lhe deve um pedido de desculpas. Como é que se lembrou dessa questão? A si devem-lhe?

A questão tem a ver com o procurar fazer perguntas que possam cingir a dados concretos. Uma pergunta como essa permite dois sentidos de respostas. Procura perguntas que não permitam respostas vagas. Essa é uma pergunta que eu faço muitas vezes e que é fraturante porque é definidora de alguma forma da pessoa que está à nossa frente, que acaba de falar de um sentimento como o perdão que é comum a todos nós. Acaba por haver uma identificação do espetador em relação à resposta daquela pessoa. A mim não, ninguém me deve um pedido de desculpas.

O que dizem as suas… entrevistas?

(risos) A comunicação é o que outros entendem, mais do que aquilo do que nós dizemos. As minhas entrevistas dirão aquilo que os espectadores recebem das mesmas e portanto cada pessoa terá a sua própria opinião. Enquanto espetador acho que elas têm um pouco mais do que nós conhecemos daquela pessoa antes da entrevista acontecer. Se nós conseguirmos cumprir o propósito de gerar um sentimento qualquer nas pessoas, de ajudar de alguma forma, de entreter, estaremos a cumprir o nosso papel. Eu seria espetador do Alta Definição se não o fizesse.

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Foto: Marisa Cardoso
«Procuro perguntas que não permitam respostas vagas» | © Marisa Cardoso

1 comentário

  • és um pão.
    Ana Patrícia Figueir-edo | 18.04.2018 | 08.47Hdenunciar comentário
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