Luís Pedro Nunes

«Ir para zonas-limite requer desligar o botão do medo»

03 | 01 | 2016   18.03H

“Toda a Esperança do Mundo” é o nome do livro que juntou Luís Pedro Nunes e o fotógrafo Alfredo Cunha, num conjunto de reportagens a alguns dos países mais «duros» do planeta para celebrar os 30 anos da AMI.

João Tomé | jtome@destak.pt

Conhecido por participar no programa Eixo do Mal (SIC Notícias) e liderar o projeto do Inimigo Público (suplemento satírico), Luís Pedro Nunes admite ter conseguido criar uma «dinâmica especial» com o fotógrafo Alfredo Cunha (um dos mais reputados do país desde o 25 de Abril) neste périplo de várias viagens do Níger ao Iraque, passando pelo Haiti e o Sri Lanka, tudo locais onde a AMI (Assistência Médica Internacional) salva vidas.

Como é que começou esta relação com a AMI? Já vem dos tempos do Público, mesmo do início do jornal…

Sim, foi a minha 1ª reportagem mesmo a sério. Fui com o Alfredo Cunha em 1991 para a Roménia fazer uma reportagem difícil e pesada sobre as crianças no regime criminoso de Ceaucescu – valeu-me um Prémio Gazeta Revelação. E nunca mais trabalhei com o Alfredo, nem nunca mais vi o Fernando Nobre. Há três anos voltei a falar com o Nobre e ele falou-me nos 30 anos da AMI. Apesar de tudo o que se dizia na altura dele, eu tinha-o visto a salvar miúdos da morte à minha frente. Lembrei-me de sugerir ao Alfredo fazermos um livro sobre os sítios que a AMI apoia e era uma boa oportunidade de fazer reportagem. Criámos o projeto e apesar das dificuldades em arranjar apoios avançámos. Fizemos além de Portugal sete viagens. Ainda conseguimos por no livro a viagem ao Nepal, quando houve o sismo, que já não era suposto aparecer.

Temos orgulho no livro, embora seja um projecto visual, de fotografia e reportagens lá incluídas. Eu gostei mas das reportagens, o Alfredo gosta mais do livro. O livro inclui todas as reportagens, na íntegra, mas a verdade é que não tinha como plano de vida fazer um livro.

Do ponto de vista de experiência, qual foi a primeira viagem e que impacto teve. Foi diferente do que esperavam?

A primeira viagem teve um grande impacto porque foi das mais brutais porque o que vimos foi de tal forma inesperado, que eu tive muita dificuldade em processar aquilo, o meu cérebro não compreendeu o que viu. Só mais tarde consegui perceber o que era aquilo, no Níger. Lá 30% da população é escrava, é como se fosse gado, e uma aldeia fosse propriedade de outra. São donos de gado, pasto e dos habitantes de outra aldeia. Faz parte da cultura deles. É assim. Eu tenho dois gatos, eles têm uma aldeia. Estive em aldeias de escravos mas também estive na casa do governador do Banco do Níger e todos os que trabalham lá são escravos. Não existem legalmente, pertencem aos seus donos. Não tem direitos, não há nenhum papel que comprove a sua existência. Entrei numa escola numa dessas aldeias de escravos e tentei meter-me com eles e só depois quando vi nas fotografias reparei que eles estavam aterrorizados comigo. Homens de 1m80, altos, falam contigo de cabeça baixa sem te olhar nos olhos. Isso impressiona muito. Primeiro achas perturbador mas quando te bate, aquela realidade, toca-te mesmo.

No filme 12 Anos Escravo as pessoas que nasceram escravos parecia não terem reacções acontece o que acontecesse. Injustiças, crueldades, pareciam passivas às emoções. É assim?

Sim, a postura física é diferente. Não há raízes para eles, só há submissão. E depois há situações onde não percebes como é que a vida ali é possível, como bairros do Bangladesh ou no sítio mais violento onde já estive, que é no centro de Port Au Prince, no Haiti. Isso é violência em estado puro. Foi aí que me senti mais inseguro.

Foi aí que tiveram os maiores sustos, a nível de segurança?

Quando vamos para um sítio daqueles temos de levar o sustómetro desligado e acreditas que não te vai acontecer nada. Não vais assustado, vais preparado para aceitar que te ponham limites de segurança se for necessário, mas depois também não podes deixar que essas medidas de segurança se sobreponham se quiseres fazer alguma coisa, senão é um clima que não consegues fazer nada. Por norma os seguranças não querem que faças nada, porque estás sob a responsabilidade deles. Se estás sob a responsabilidade de um polícia com uma caçadeira de canos serrados num sítio perigoso, se depender dele tu não vais a lado nenhum nem fazes nada, que é para não haver riscos. Também tens de contrariar o segurança e dizer, ‘não, eu vou ali’. Nem que ele fique nervoso. É uma gestão que se faz. Agora estás no Iraque a 40 km de Mossul numa zona dos Pershmergas, claro que te pode acontecer alguma coisa. 15 dias depois de lá termos estado aquilo foi tudo devastado por aqueles camiões kamikaze, os kami-trucks, metem placas de metal à frente dos camiões e dos tanques e enchem aquilo de bombas e entram por cidades adentro e só explodem o camião lá dentro. Faz parte. Mas temos de desligar o medo.

Mas também houve stress nas estradas do Bangladesh…

Sim, foi duro. É que o trânsito do Bangladesh é tão louco, de tal maneira perigoso que estamos de 15 em 15 segundos a pensar que é agora que vamos desta para melhor. Eu desliguei-me assim: se o condutor faz isto todos os dias e ainda está aqui… desliga-te, não penses nisso. Tivemos várias horas na estrada nestas condições. Aquilo desgasta muito, é uma adrenalina incrível. Stress cumulativo de parecer que vamos rebentar, tivemos numa estrada do Bangladesh, de Chittagong, foi aquilo mais perigoso que fizemos. Ultrapassa os índices de loucura. Se fosse eu a conduzir não fazia 500 metros sequer. É uma sucessão de 8 horas com milhares de milagres… coisas extraordinárias. Tu quase morreste e de repente olhas e vais morrer outra vez… e safas-te.
Mas temos de lutar contra o embrutecimento porque chegas aos sítios e tens umas duas horas em cada local, é preciso sair do cansaço.

No Bangladesh outra coisa que me impressionou foi quando estávamos à procura do porto de Bengala que vem nos Lusíadas e tudo, por onde os portugueses passaram, em Chittagong, e está lá o local onde chegaram os portugueses mas ninguém de lá sabe de nós. E por lá encontrámos um ar cheio de uma papa química, uma coisa rosa e esverdeada, pelos níveis de poluição naquela zona. É onde há o desmantelamento dos grande navios, aquelas fábricas de tecidos e t-shirts do Bangladesh, é tudo atirado para o mar. E os pescadores se se afastam um pouco mais da margem são apanhados por piratas.
Imaginas o mundo do sítio onde estás, que é um caos total de gente que luta pela vida, mas depois também de crianças repletas de esperança. O mundo está cheio de crianças, são milhões e milhões, menos pelas nossas bandas, que somos um país de velhos. O mundo pulula de crianças, que vão ter as suas crianças. Em certas zonas parece que o planeta vai esmagar-se com tanta gente.

Mas essas crianças também trazem esperança…

Sim, sem dúvida. O país mais alegre que eu conheço é a Guiné Bissau. A Guiné Bissau é um país feliz. Há golpes militares, narco-estado mas sais de Bissau e é um país cheio de crianças a correr e a rir, onde os velhos tratam das crianças, as crianças tratam dos velhos. Crianças de 5 anos tratam crianças de dois anos. Milhares de crianças e brincar e correr por todo o lado. É incrível. E depois fome à séria não há. Há um desenrascanço uns com os outros enorme, um espírito comunitário. Há uma zona infantil de existência extraordinária. Já lá voltei várias vezes.

Também contagia ir a um sítio desses?

É verdade e agora temos um projecto de fazer um livro sobre o país. Esperamos ir para os Bijagós (arquipélago) e fazê-los a todos. Vai continuar mal a nível de gestão do país, vão continuar os golpes militares.

E como é que se lida com o regresso a casa?

No dia seguinte a voltar a maior parte das vezes já parece tudo um sonho. 24h depois já parece mentira que estiveste lá. Relativizas mais os teus problemas do dia a dia e ficas menos tolerante para os problemas pequeninos dos outros, que passas a achar que não são bem problemas. “Um problema gravíssimo, a minha namorada não me liga…” Digo logo, segue em frente. Fico sem paciência para algumas intolerâncias do quotidiano que estão a acontecer muito em Portugal. As pessoas são muito intolerantes, umas vezes com razão e outras sem. Aquela coisa do “não aos refugiados porque primeiro estão os nossos sem abrigo”. Há pobreza em Portugal e há problemas graves de sobre endividamento e abandono dos velhos, mas os sem abrigo em Portugal vivem na rua por opção. São pessoas que recusam ser institucionalizadas e preferem estar na rua a ir para um abrigo. A rede de Segurança Social e ONG’s têm conseguido absorver as pessoas que precisam de um abrigo para dormir.
A Europa até agora foi uma ilha de bem estar mas vai deixar de ser. Estamos absorvidos de certa forma. Vamos ver como corre.

E foi fácil construir o projeto? A AMI foi determinante?

Em termos de reportagem é impressionante que tenha de ser a AMI a nos ajudar com estas reportagens. Acabamos por não ganhar nada com as reportagens nem com o livro.
Já não há reportagem em Portugal. Não há nem vai haver. Não há dinheiro para fazer reportagem e há a ideia falsa de que as pessoas não querem ler reportagem, o que é mentira. As pessoas gostam mas os jornais não investem nisso. Vamos ter de procurar financiamento noutras entidades porque os jornais não apostam nisso. Já não acreditam que valha a pena.

E o que está agora na calha?

Estamos já a prepararmo-nos para um novo desafio noutro local muito perigoso do globo. É de tal forma exigente fisicamente que eu e o Alfredo temos estado a fazer ginásio, ele em Vila Verde e eu em Lisboa. Temos de ir em forma para lá e é já em janeiro. Não posso ainda dizer para onde vamos, dá azar.

Fazer dupla com o Alfredo Cunha nestes locais difíceis tem resultado bem?

É difícil arranjar uma dupla que funcione bem e nós temos um dinamismo porreiro, vamos complementando-nos. E funcionamos bem nestas situações de stress, em que chegamos ao fim e não nos queremos matar um ao outro. Temos de dormir no mesmo quarto, comer as mesmas coisas, fazer compromissos em situações de stress complicadas com cansaço e ir gerindo a situação. É um pacote difícil ao longo de tantas aventuras. Queremos ver se isto continua até nos matarmos uma vez nas matas de África. Queremos continuar em 2016.

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