entrevista

Ivo Canelas desvendou-nos o seu personagem em 'Quarteto'

19 | 01 | 2016   12.51H

Está em cena até 13 de fevereiro, no Teatro da Politécnica, em Lisboa, a peça "Quarteto" de Heiner Müller, numa encenação de Jorge Silva Melo. Este espetáculo foi o ponto de partida para uma conversa com o protagonista (que contracena com Crista Alfaiate), sobre esta peça em particular e sobre a vida de ator em geral.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

Descubra o Valmont de Ivo Canelas no Teatro da Politécnica à terça e quarta, às 19h00, quinta e sexta, às 21h00 e sábado, às 16h00 e às 21h00.

O que podemos esperar nesta peça "Quarteto"? Se calhar a referência mais simples é o filme de Milos Forman, "As Ligações Perigosas", que é baseado num texto de Heiner Müller. As personagens principais são o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil, que são dois predadores da sociedade, cheios de tempo nas mãos, e que mais não fazem senão contar as suas conquistas e destruir reputações.

Como é o seu Valmont? Valmont é o arquétipo do Don Juan, é um eterno conquistador. Como se diz no texto: «ele só tem uma amante, sempre a mesma mulher, em todas as mulheres que conquista».

Qual foi o principal desafio que encontrou a fazer esta peça? Esta peça tem um texto denso, por isso há um desafio técnico muito grande de transmissão das ideias. O principal desafio é pensar este texto diariamente. Não olhar para ele de uma forma fechada, para não deixar que ele estagne. É necessário pensá-lo todos os dias, para não ficarmos paralisados com o texto. É sempre necessário pensar nos textos diariamente, mas com este particularmente.

Como foi voltar a trabalhar com Jorge Silva Melo, como encenador? Já tinha trabalhado com ele há muitos anos, por isso foi um regresso. Foi muito simples, muito tranquilo. Ele dá muita liberdade aos atores para o procurarem, mas também nos vai guiando pelas suas intenções de encenação.

A estreia foi no passado dia 6 de janeiro. Como correu essa noite e como têm corrido estes dias? A estreia correu muito bem. A sala é pequena, tem cerca de 70 lugares, e o espetáculo tem 1h10. Ainda estamos a entender que espetáculo é este que construímos e como é recebido pelo público. As reacções têm sido muito positivas. Há públicos mais reativos e outros mais retirados, mas a sensação que dá - de quem está dentro do palco - é que há uma grande concentração na escuta, porque o texto assim o exige. É um espectáculo cheio de maldade. A primeira vez que o li, a minha reacção foi ter um riso nervoso constante. O que interessa muito neste espetáculo é a enorme carga de manipulação. Os personagens passam o tempo todo a manipular os outros, com uma inteligência assustadora.

Neste caso, o seu personagem é maldoso. Mas, se puder escolher, prefere ser o bom ou o mau da fita? Não tenho preferência entre bom e mau. Ambos representam faces diferentes da mesma moeda. E do ponto de vista do ator não há bom e mau. Encaro cada personagem que faço como tendo toda a razão do mundo. Defendemos para lá da lógica, os nossos personagens. Defendo a maldade do meu Valmont como sendo justificada.

Ainda costuma ficar nervoso antes de subir para o palco e entrar num personagem? Quando deixar de me sentir nervoso é melhor ir-me embora! Sim, sinto-me nervoso ainda. Talvez não me sinta nervoso imediatamente antes de entrar, mas umas horas antes. Depois vou-me aproximando do universo e do personagem e já não me sinto tão nervoso. Penso sempre “porque estou a fazer isto?!”. Mas depois em palco estou cofrotável.

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Foto: Jorge Gonçalves
Ivo Canelas desvendou-nos o seu personagem em 'Quarteto' | © Jorge Gonçalves
«Defendo a maldade do meu Valmont»
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