reportagem

Pedalar por Portugal profundo

06 | 04 | 2009   09.06H

Um jovem de 27 anos. Uma bicicleta. Os meios mínimos necessários para a sobrevivência. E o projecto: «Pedalar para além: Portugal profundo e o mundo». Simples mas ambicioso.

Talvez a ideia seja tentadora para alguns de nós, deixar tudo para trás e mudar de rumo, viver uma aventura, conhecer novas pessoas, novos locais, sem as pressões do quotidiano. Mas por mais tentador que seja, a pesagem dos prós e contras, juntamente com a falta de coragem, acaba por ganhar. E limitamo-nos às nossas pequenas «loucuras» confortáveis que não põem nada em causa.

Tiago d’Aubigné tem a dita coragem que faz com que o caminho seja para a frente e a cabeça não se volte para trás. Pós-graduado em Economia e Políticas Públicas e licenciado em Gestão e Administração Pública, já teve empregos bons e menos bons, surpresas e desilusões, ou seja, a vida normal de um jovem de 27 anos. Porém, isso não chega.

Europa Ocidental de mochila às costas

O espírito viajante remonta há um ano atrás, aos meses de Maio e Junho. Como o contrato de trabalho com a empresa onde estava na altura iria terminar em breve, decidiu incursar pela Europa Ocidental de mochila às costas durante um mês. Sozinho, visitou 11 cidades e sete países, num projecto que demorou um ano a preparar, incluindo quatro meses a estudar a logística do inter-plane (deslocou-se sobretudo de avião em companhias low-cost) a que se propôs.

«Não me sentia realizado no trabalho. Quando o contrato terminou, achei que era a altura certa para fazer a viagem que já andava a planear há muito tempo», confidencia. «Passei a adorar viajar, conhecer pessoas durante os meus trajectos… e no meu regresso a casa, quando vinha de Madrid, sabia que não iria ficar por ali, tinha de embarcar numa nova aventura».

Pedalar para além: o novo projecto

Chegado a terras lusas, Tiago fervilhava em ideias. Depois de muito reflectir, analisar e contrapor, encontrou dentro de si o novo «projecto»: percorrer Portugal de bicicleta, com os instrumentos de subsistência básicos. «Escolhi a bicicleta como meio de locomoção por ser mais barato e por não ter gastos ambientais», explica.

Procurou então novo emprego com o objectivo de angariar fundos para «ir mais além», vendeu o carro, todavia, «não queria patrocínios, inicialmente, por ser um projecto de vida, pessoal, íntimo», daí que também não pretenda «mediatizar muito para não criar falsas expectativas». Contudo, teve de abandonar o actual trabalho como Gestor Comercial/Gestor de Clientes na empresa Multipessoal (patrocinadora) para viver livremente o Portugal profundo.

Quando questionado sobre o «porquê» das suas escolhas, Tiago não tem uma resposta concreta. Simplesmente, «há um sentimento... pegar numa bicicleta e pedalar por Portugal e pelo mundo», assim como colocou uma mochila às costas e partiu pela Europa! «Sem apoios, sem fundos, sem nada, apenas curiosidade!». E continua: «Há qualquer coisa aqui, não sei bem onde, dentro de mim que me faz partir. O objectivo é não olhar para trás e seguir em frente, juntam-se a vontade e o desejo de mudar o rumo dos acontecimentos na linha que guia a nossa vida».

Seja por não ter companhia, por ser difícil encontrar alguém que esteja disposto a deixar o trabalho durante algum tempo e a gastar dinheiro andando à aventura, ou por considerar que é mais fácil focalizar-se e concentrar-se no percurso, a verdade é que Tiago mesmo sozinho conhece pessoas e «conhecer pessoas é um objectivo, uma paixão». E porque se procura em cada aventura que se decide fazer.

Da preparação à partida

Como foi dito anteriormente, o projecto é simples mas ambicioso. Isto porque Tiago d’Aubigné propôs-se realizar entre 2500 a 3500 quilómetros durante dois meses e meio a cinco meses. E sem preparação física específica. Sem contar com as horas de surf que este amante de ondas pratica.

O trajecto não é rígido, ou seja, o planeado não é obrigatório, podendo vir a sofrer alterações, de acordo com o sabor do vento. O mapa marca então a partida de Lisboa até Elvas, passando por Bragança, Melgaço, litoral norte, passagem de novo por Lisboa, em direcção a Sagres, indo até à outra ponta do Algarve em Vila Real de Santo António, subida para Évora, terminando em Lisboa.

Parques de campismo, pousadas, bombeiros, tendas ou «até no mato» serão os locais onde este aventureiro de 27 anos irá pernoitar. Massas, cereais e muitas frutas serão a alimentação. Nos alforges da bicicleta Globe Sport preta 55, patrocinada pela Specialized, terá de caber um fogão camping gaz pequeno, a tenda e a esteira, o portátil com ligação à Internet e o corta-vento. A «Capitolina Ambrioleta», como carinhosamente apelida a sua companheira de duas rodas nos próximos meses, está devidamente equipada com iluminação, pára-lamas, conta-quilómetros, bidão, bomba de ar…

A partida está marcada para hoje, algures entre as 10 e as 11 horas. Tiago irá apanhar o barco no Cais do Sodré até ao Montijo, onde irá dar início à primeira fase da sua grande aventura. A primeira etapa é chegar até Coruche, mas Tiago brinca dizendo que não sabe se irá «passar do Montijo».

No entanto, nunca gosta de pensar que vai chegar ao fim, que já cruzou a meta. Daí que para 2010 esteja pensada a segunda fase deste projecto de vida: uma volta ao mundo de bicicleta (ou não), estimada entre dois a cinco anos. Mas como o próprio diz: «cada coisa a seu tempo».

[Acompanhe a viagem do Tiago d’Aubigné no blogue http://pedalarparaalem.blogspot.com/]

Vera Esteves | vesteves@destak.pt
Foto: DR
DR | © DR

3 comentários

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    MckeeJodi25 | 19.07.2011 | 19.32Hdenunciar comentário
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  • Excelente reportagem!Parabéns à jornalista e viva ao bom jornalismo em Portugal. Força Tiago!
    Ana Sofia Fonseca | 09.04.2009 | 21.09Hdenunciar comentário
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  • Boa Tiago! Deus protege os viajantes. Tudo de bom!
    gkkas | 06.04.2009 | 09.50Hdenunciar comentário
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