Repórter da BBC

«É uma questão de poder e não de religião», diz Andrew Hosken em livro sobre o Daesh

19 | 04 | 2016   15.46H

O experiente repórter de guerra da BBC esteve em Lisboa para apresentar o livro ‘Império do Medo – No Interior do Estado Islâmico’. O califado sonhado pelo Estado Islâmico tem o genocídio na sua raíz, ao jeito do nazismo, e envergonharia Bin Laden. «É muito mais sinistro e perigoso», avisa-nos nesta sua terceira obra.

Vera Valadas Ferreira | vferreira@destak.pt

Para a maioria das pessoas o aparecimento do Daesh foi uma surpresa. Mas no livro fica-se com a ideia de que era apenas uma questão de tempo…

Creio que sim. Quando estive no Iraque, em 2013 já se tornava evidente que o Daesh estava a tornar-se uma importante ameaça, não apenas na Síria mas também ali. Já dominavam províncias vastas e importantes. Os níveis de violência já eram incríveis e sabemos isso através dos seus relatórios anuais, com mil alvos oficiais por ano, qualquer coisa como três assassinatos por dia. Os carros-bomba também duplicaram de número, para vinte por dia. E isso implica um grande investimento. Mostrava que algo de extraordinário estava a acontecer, que algo extremamente poderoso e bem financiado estava em curso. O mais incrível é que esta organização já existia desde 1999 e as pessoas pensavam que tinha sido derrotada em 2010. As pessoas só estavam obcecadas com Al-Qaeda.

Parecia que tudo se passava num reinado muito distante… e agora o terrorismo está no coração da Europa!

Sim, as pessoas estavam fartinhas do Iraque. Já ninguém queria saber. Perdemos lá muito soldados, estávamos desejosos de sair de lá. Foi um pesadelo. E agora temos de confrontá-los porque estão a vir em direção a nós. E será sempre assim, enquanto eles tiverem esta exposição, dinheiro e território. Porque é que as pessoas haveriam de pensar que por ser em Bagdad é tolerável? Só porque não é em Londres ou Paris? Bruxelas e Paris foram só o início, isso é óbvio. No livro digo que isto ia acontecer porque eles próprios o disseram.

E agora falam em Portugal…

E falam a sério. Consideram que faz parte de Al-Andalus , o califado perdido. Eles têm uma ambição global, querem dominar o mundo. Mas, lamento dizer, Portugal faz parte do império islâmico que querem construir.

Estão sempre a mudar de nome, de alvos e até de modus operandi. Isso torna-os muito mais perigosos?

Sim. O que explico no livro é que as pessoas pensam que eles são como a Al-Qaeda, uma organização islâmica, extremista, fundamentalista. Mas não é só isso, são também uma fusão com o Partido Baath, que representa um movimento extremamente violento e manteve Sadam Hussein no poder anos e anos. São uma fusão de um regime de terror com uma organização terrorista. São peritos a controlar, têm décadas de experiência.

Em vez de serem islamitas que se radicalizaram são radicais que se aproximaram ao Islão?

Correto. Antes de 2013, ninguém se importava com as diferenças entre xiitas e sunitas. Agora é uma questão de poder e não de religião, de quem controla o território. São obcecados com isso. A brutalidade tem sido usada nas duas facções. A religião tem sido explorada. Tive acesso a documentos nos quais é notório que a própria Al-Qaeda está horrorizada com tamanha violência pois dá má imagem à jihad e ao califado.

Na Dinamarca, Holanda e França há projetos de acolhimento de jihadistas ou pré-jihadistas. A inclusão social é a solução para evitar o recrutamento?

É um grande dilema. Essa é uma questão deveras interessante porque tudo depende do indivíduo. Há a história de um tipo de que foi do Reino Unido para a Síria para ser um herói e acabou lá a lavar loiça. Sei que há um grande número de britânicos que foram e não gostaram das condições e que quiseram voltar e são tratados como terroristas. Alguns estão genuinamente arrependidos, cometeram uma loucura de juventude. No regresso serão sempre detidos, interrogados e isso ficará sempre no seu cadastro. Ir para a Síria e alistar-se no ISIS é um ato criminoso. Mas não conseguimos de sentir simpatia porque sente que cometeu um erro. É um tema de grande debate.

Saiba mais sobre:
Foto: João Ferrão
«É uma questão de poder e não de religião», diz Andrew Hosken em livro sobre o Daesh | © João Ferrão

1 comentário

  • É o que dão as traições e as políticas de fronteiras abertas, o terceiro mundo que fique lá fora e morram de fome que aqui não são bem vindos!
    Portugal país de cobardes e traidores! | 21.04.2016 | 08.30Hdenunciar comentário
    Tem a certeza que pretende denunciar este comentário? sim não
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE