entrevista

«Hoje é Assim, Amanhã Não Sei», diz Ricardo Ribeiro

26 | 04 | 2016   14.04H

O Coliseu dos Recreios recebe Ricardo Ribeiro a 30 de abril, às 21h30. Na bagagem leva Hoje é Assim, Amanhã Não Sei, que conta com 14 temas, entre os quais o single Nos Dias de Hoje, com letra e música de Tozé Brito. Começámos a falar com o fadista sobre música, mas descobrimos um poeta, com uma declamação sempre na ponta da língua.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

O Ricardo diz que gosta de desbravar caminhos. Que caminhos desbravou para fazer este álbum? Atrevi-me a cantar outros géneros, composições de João Paulo Esteves da Silva ou um tema de Vinicius de Moraes.

Sente que arriscou um pouco ao não cantar só fados tradicionais? Este disco é muito inspirado num poema de Miguel Torga que se chama Orpheu Rebelde. As minhas ousadias são porque sou um individuo muito rebelde. Rebelde em termos estéticos e da musicalidade. Se até aqui fiz discos com a predominância do fado tradicional, neste disco fiz menos fado tradicional. Mas continua a ser um disco de fado e com guitarra portuguesa, mas com mais fados canção e com canções também outros géneros.

Cada vez que há um disco novo para fazer é como se fosse uma folha em branco. Como começou a escrever esta nova folha? O disco é inspirado no Orpheu Rebelde e todos os poemas, melodias e fados que iam aparecendo tinham a ver com esse poema de Miguel Torga. E também tinham a ver com uma frase do professor Agostinho da Silva que diz «tento ao máximo não fazer planos para a vida para não estragar os planos que a vida possa ter para mim». E essa folha em branco foi sendo construída com essas duas inspirações. Daí o disco se chamar Hoje é Assim, Amanhã Não Sei.

Esse título revela uma certa incerteza do amanhã… Exatamente! O mundo está numa mudança drástica e muito rápida. Hoje é difícil tentarmos fazer previsões ou sermos clarividentes sobre um futuro próximo. A minha vida sempre foi muito espontânea e eu não gosto de saber o que aí vem. Gosto de estar preparado para o que não sei que possa acontecer. Gosto do imprevisível. A criatividade também é isso. Não sei o que se passará, com quem me vou cruzar, quem vai influenciar a minha vida, com quem vou colaborar. Essa incerteza é o que me seduz na vida. No bom sentido, porque nos obriga a ser curiosos e desafiadores.

De que forma é que este single Nos Dia de Hoje o marca? O poema do Orpheu Rebelde diz no final «Canto como quem usa os versos em legítima defesa». Este tema mostra que cada vez é mais importante perceber que é preciso que se salve o amor e a esperança. Evoluímos tanto, mas continua a haver injustiça, desigualdade e miséria. Mas também me sinto muito feliz por cantar outros temas.

Parece cliché mas associa-se o fado quase à tristeza. Não deixa de ser engraçado ouvi-lo dizer que se sente feliz ao cantar. É uma questão de felicidade, porque quando se desabafa as coisas ficam mais leves. Mas devo dizer-lhe que não sou um auto sofredor nem - como dizia Fernando Pessoa – tenho olhos tristes por profissão. Mas também não tenho saco para os otimistas profissionais. O importante é tentar o equilíbrio. O fado é uma canção lúcida. Não é triste, é lúcida. Nasce da tristeza que a vida também tem, por isso os fadistas tem muito esse lado de tristeza, mas às vezes é uma certa mágoa ou lucidez. Fico feliz por cantar, também por alívio. Eu canto por necessidade. Canto porque preciso de cantar. É como comer um doce.

Não é fácil dizer bem de si próprio mas com tantos elogios à sua voz, sente que está a escrever um pouco da história do fado? Seria cínico dizer que não sinto que sim. E que não fico orgulhoso e grato. Mas para mim o mensageiro não é importante, o importante é a mensagem. Eu quero que a minha obra fique, porque ando cá para deixar uma obra, boa ou má, isso cabe a cada um julgar como quiser. Eu não sou importante, o importante é o que eu faço.

Esta a preparar-se para apresentar o seu disco no Coliseu a 30 de abril. O que nos espera? Não sei! Hoje é assim, amanhã não sei!! Eu vou dar tudo o que tenho. Vou estar muito feliz porque faz 20 anos a primeira vez que pisei o palco do Coliseu para concorrer a uma grande noite do fado. Vamos ter todos os músicos que participaram neste disco, e a partir daí só posso dizer que vou ser verdadeiro, fechar os olhos e cantar e esperar que todos viajem comigo nesta aventura.

No seu dia a também declama poemas ou é só nas entrevistas? Sempre! Digo sempre poemas e se quiser posso um dia responder sempre em quadras, se quiser. Tenho muitos poemas na cabeça e gosto muito. O Santo Agostinho já dizia «Ama e faz o que quiseres», por isso se uma pessoa ama uma coisa deve fazê-la e conquistá-la. Só tenho pena de não saber escrever, se seja por isso que digo muitas vezes.

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«Hoje é Assim, Amanhã Não Sei», diz Ricardo Ribeiro | © DR
«O fado é uma canção lúcida. Não é triste, é lúcida. Nasce da tristeza que a vida também tem.»

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