O Nepal, um ano depois do terramoto

03 | 05 | 2016   13.17H

Obrigado Portugal é o trabalho de dois portugueses que estavam no Nepal há um ano, quando houve o terramoto. Lourenço Macedo Santos e Pedro Queirós ficaram e ajudaram. Conheça a história e os projetos e ajude! Basta passar no site e no Facebook da Associação.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

Falámos com Lourenço Macedo Santos sobre tudo o que já foi feito e o que ainda está por fazer.

Como começou esta aventura no Nepal?
Eu e o Pedro Queirós decidimos ir fazer uma viagem no sudoeste asiático. A viagem começou a 23 de janeiro e no dia 24 de abril chegámos a Catmandu, no Nepal. Mal chegámos ao Nepal, entregámos os passaportes na agência de viagens, para fazermos uma escalada ao monte Evereste. E no dia 25, aconteceu o terramoto de 7,9 e a cidade parou e fechou. Nós ficámos sem forma de sair do país. Até ao dia seguinte houve muitas réplicas pequenas, mas no dia seguinte, houve outro grande e muito longo de 6,4. Nós estávamos num hotel com uma estrutura muito duvidosa e nós estávamos precisamente dentro do quarto do hotel. Foram dois minutos que pareceram dias, foram os dois minutos mais longos da minha vida. Parecia que ia cair e não caia, e não conseguíamos fazer nada. Mantivemo-nos os dois debaixo da ombreira da porta e esperar. Graças a Deus o prédio não ruiu e mal acabou, fomos para a rua.

E nos dias que se seguiram, o que aconteceu?
Nesse dia fomos ao parque da cidade, e andámos pelas ruas. Foi uma adrenalina tao grande que parecíamos uns repórteres a tirar fotografias. À noite é que o medo se apoderou de nós. E no dia seguinte, depois do outro terramoto, ganhámos mais medo e fomos albergar-nos no consulado de Espanha, para termos água, eletricidade e comida.

Quando começaram a ajudar?
A primeira coisa a tratar foi levantar dinheiro nas caixas multibanco, assegurar a nossa sobrevivência com água potável, eletricidade e comida. Conseguimos recuperar os passaportes a 28 de abril e no dia 29 com a nossa situação resolvida e o bilhete de regresso comprado para dia 1 de maio, que decidimos ficar a ajudar. Foi aí que tivemos condições e o discernimento de fazer alguma coisa pelo País. Decidimos aplicar o resto do nosso orçamento da viagem, que eram 1700 euros cada um, em ajuda. E fomos para a rua ajudar. Mesmo tendo uma casa, as pessoas ficavam a dormir em espaços livres, para não serem mais um número. Morreram mais de oito mil pessoas e 800 mil casas foram destruídas.

Perante o cenário que tinham, quais foram as prioridades?
Vimos cadáveres no chão, edifícios ruídos, o caos completo, o desespero total das pessoas. O impacto das coisas que vimos foi tão grande que tínhamos de ajudar. Ninguém se sentia seguro em casa, então as pessoas foram dormir para os parques da cidade. Não tinham água nem como cozinhar. Arrancámos com as nossas mochilas vazias e fomos à primeira loja que encontrámos aberta, a pé, e comprámos 50 quilos de arroz e 400 bananas. Fomos distribuir para o parque da cidade, e em menos de cinco minutos a comida despareceu. Ficámos um bocado assustados porque as pessoas saltaram para cima de nós. Mas fomos a mais uma loja e comprámos mais 200 quilos de arroz, despareceu tudo em meia hora. Fomos outra vez às compras e levámos 400 quilos de arroz. Nos primeiros 25 dias pós terramoto, continuámos a dar comida. Juntamo-nos a uma organização local que conheciam as aldeias e tinham o know how. Fomos a uma aldeia remota dos Himalaias e entregamos sete toneladas de comida. Todos os dias batíamos recordes de entregas.

O dinheiro não começou a acabar?
O dinheiro começou a aumentar. No primeiro dia, mandamos mensagens para amigos e famílias a avisar que íamos ajudar e que se quisessem contribuir podiam enviar dinheiro. Fizeram uma reportagem connosco e passou em todo o mundo. E quando essa reportagem saiu, recebemos cerca de 40 mil euros. Os nossos fundos iam aumentando. Todos os dias no facebook detalhávamos tudo o que comprávamos e as pessoas viam com confiança a ajuda que estávamos a dar. Recebemos no total cerca 120 mil euros, só com ajuda de pessoas singulares que transferiam €5, €20, €550 ou €1000.

Como é que o projecto cresceu e onde está hoje?
Começámos com o projeto Ajuda Imediata, em que distribuímos comida e bens essenciais. Passados 25 dias, os circuitos económicos começaram a abrir e a comida começou a chegar. Não fazia sentido aplicar os nossos recursos em comida. Mas as pessoas continuavam a dormir na rua, então tínhamos de criar um refúgio para as pessoas. Decidimos construir casas para quem tinha perdido a sua, e chegámos a um conceito duradouro, com materiais locais, que respeita a arquitectura, com fundações, telhado e estudada para resistir a terramotos. Casas em que podem ficar muitos anos e podem ser aumentadas. Construímos 22 casas para 30 famílias. Este é o projeto Saudade.

Depois seguiu-se o Campo Esperança?
Paralelamente, recebemos uma chamada que dizia que 1200 pessoas tinham sido evacuadas dos Himalaias, nas montanhas, para Catmandu. As pessoas foram para vários campos, e havia 350 pessoas que não tinham para onde ir, e ficaram connosco. O Campo Esperança começou a 16 de maio e ainda está vivo e dinâmico e de entre ajuda. Conseguimos um terreno, montámos 22 tendas, um refeitório, uma cozinha comunitária, salas de estudo, tenda médica. Das 350 pessoas, há 80 crianças, que vão à escola todos os dias.

O que se segue e como se pode ajudar?
Isto leva-nos ao Our Dream Village, que é o realojamento destas pessoas que vivem no Campo Esperança e das restantes pessoas que foram evacuadas, de uma forma sustentável. É um projecto para as 1200 pessoas. Queremos construir 222 casas permanentes, de betão, com condições, anti-sismicas e que podem durar. Queremos construir uma escola, a ponte e a estrada que foram destruídas. Queremos uma vial auto-sustentável. É para este projeto que precisamos de ajuda. No total já angariámos 270 mil euros; 120 mil euros já foram gastos nos projectos fechados e sobra-nos 150 mil euros. Ainda falta muito para chegar lá e precisamos de ajuda de toda a gente. Precisamos de doações em dinheiro, porque não compensa enviar produtos para lá. Podem também ir ao nosso site e à nossa página de facebook, fazer like, e partilhar. E vamos arrancar com projetos de voluntariado em berve.

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Foto: DR
O Nepal, um ano depois do terramoto | © DR
«O impacto das coisas que vimos foi tão grande que tínhamos de ajudar. Comprámos 50 quilos de arroz e 400 bananas.»
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