entrevista

'A Uma Voz' de Gil do Carmo

14 | 06 | 2016   10.05H

A Uma Voz é o mais recente disco do cantor, do qual foi retirado o single O Teu Cheiro a Café Torrado. Inteiramente escrito por si, este é o quarto trabalho da sua carreira.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

O filho de Carlos do Carmo esteve à conversa com o Destak sobre o seu trabalho, as suas influências e Lisboa, que é o ponto de partida para a sua música.

Ivan Lins descreve o seu álbum como o mais autêntico por ser «totalmente acústico, utilizando instrumentos ligados à música popular portuguesa, como violas acústicas, guitarra portuguesa, acordeão, e instrumentos de percussão». Se fosse o Gil do Carmo a descrevê-lo o que diria?

Falarmos de vivências de outras pessoas é mais fácil do que falarmos de nós próprios. O que dizer? Acho que sobretudo é uma viagem que parte de Lisboa sempre para o mundo e para essa miscigenação da cultura portuguesa para o mundo. O que de Lisboa levamos para o mundo e o que do mundo trazemos. Não há forma melhor de traduzir a minha música: respirando sempre Lisboa e Portugal passo por outros universos que influenciamos e fomos influenciados.

Gosta que Lisboa esteja no centro da sua música?

Gosto também por viver aqui e por achar realmente que Lisboa é uma cidade muito especial.

Já viveu no estrangeiro também. De que forma é que isso contribuiu para a sua música?

Viver fora ajudou-me a crescer e a perceber que Portugal, os portugueses e Lisboa são todos muito especiais. Não é à toa que temos a história e a cultura que temos.

Se tivesse de inserir o seu disco num estilo, conseguia?

Não consigo, é verdade! Caracterizo-o como a minha música mas não consigo catalogá-lo. Começo na música portuguesa, nas tradições portuguesas, no fado, depois passo pelo samba, pelo semba, pela morna, pelo tango. Tanta coisa! Toda essa mistura dá o som de A Uma Voz.

Porque deu este nome ao álbum?

Se analisar o meu último disco Sisal tinha muitos instrumentistas, muitos arranjos, muitos coros e muitos pormenores. Naturalmente depois do Sisal e procurando o caminho a seguir e em conjunto com os excelentes músicos com quem tenho o privilégio de trabalhar, percebemos que fazia sentido fazer um disco de banda. Quando fomos construindo a sonoridade e o disco, percebemos também que despir os temas pela letra e por uma voz fazia todo o sentido. No seguimento disso e em paralelo, dá-me a sensação que pela forma como vivemos como seres humanos, é urgente vivermos a uma voz. Daí o sentido duplo do nome do disco.

O que quer dizer com isso?

Há princípios fundamentais e civilizacionais para os quais eventualmente estamos pouco despertos e que precisamos de aclarar e perceber que para a nossa sobrevivência temos de ter uma voz mais una enquanto seres humanos. E é preciso despertar essas consciências. Às vezes estamos um pouco distraídos.

Qual é a história por detrás do tema O Teu Cheiro a Café Torrado, que escolheu para single?

Se por ventura andarmos por Lisboa antiga, a Lisboa pombalina que é a Lisboa que mais me apaixona e gosto de descobrir andando por becos e ruelas, muitas vezes sente-se o cheiro a café torrado nas ruas, que é algo único. No meio desse cheiro vai-se dar a umas esquinas onde encontramos uma perspectiva nova o rio.

Este tema é exemplificativo do álbum?

Para nós músicos é quase como estar a escolher um filho, mas acho que este single faz todo o sentido e é um bom ponto de partida conhecer o resto do álbum.

Esteve oito anos sem gravar. Esteve à espera do momento certo para voltar aos álbuns?

Eu admiro as pessoas que conseguem fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Eu tive um restaurante bar que era o Speakeasy até agosto passado. Foram 17 anos e foi um “curso superior” brilhante e genial e tudo tem o seu tempo. Estava na altura certa e é uma mudança de vida completa aos 42 anos. E coincide com o lançamento deste novo disco e com certeza que agora é para apostar totalmente na música.

O facto de ter muita música na família ajudou a que a sua profissão passasse também pela música?

Era um absurdo se eu dissesse que não. Vindo da minha avó e do meu pai e de crescer literalmente num meio artístico, teve imensa influência. Foi mais fácil decidir porque fazia parte da minha existência e não foi nada que espantasse ninguém na família.

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