SBSR: Dia 3

Kendrick Lamar: Yô contigo e tu comigo

17 | 07 | 2016   16.45H

Camisola de alças, boné com a pala para trás. Calções, ténis de marca, vestidos micro ou maxi mas muito decotados. Foi este o dress code da tribo reunida no terceiro dia de música no Parque das Nações, no único dia da 22ª edição do Festival Super Bock Super Rock verdadeiramente esgotado.

Mas só em lotação, porque até mesmo quem usava pulseira dos três dias ainda encontrou forças para “yô” com os músicos hip hop, rap e afins que subiram ao palco da Meo Arena. Primeiro os portugueses Orelha Negra, exímios no scratching, sampling e demais técnicas de manipulação de ritmos e sons, num concerto que aqueceu a multidão jovem, muito jovem, para a noite escaldante que ainda estava para vir.

Regressados a Portugal e muito particularmente ao festival, onde atuaram era uma vez há mais de uma dezena de anos atrás, os De La Soul estiveram ali a representar a old school destas sonoridades urbanas. Com o álbum And The Anonymous Nobody quase a sair do forno, Posdnuous, Dave e Maseo apostaram no repertório de uma vida e num espetáculo despojado de artifícios, só assente na força das palavras e do suor, num estilo duro e direto sem “rodriguinhos”, porque a vida às vezes também é assim bruta connosco. Puxaram pela multidão, fotógrafos de serviço incluídos, pois que quem não mete as mãos no ar não é cá da malta.

Por fim foi a vez de Kendrick Lamar que, avisando que «este é o mundo estranho» e o melhor mesmo é «celebrar vida» instigou a multidão – como se ela não estivesse já “feitinha” para isso mesmo – a soltar tudo e tudo que havia em si. A sensação foi que o rapper e a sua banda virtuosa encontraram uma extensão de si em cada um dos corpos presentes na Meo Arena, até mesmo para os que preferiram ver o show das bancadas. Lamar foi um polvo gigante, uma raia electrizante, assinando o concerto mais memorável desta edição do festival. Não houve tempos mortos, segundos em que o corpo não nos apetecesse mexer, saltar, extravasar energia.

“Look both ways before you cross my mind”, uma citação de George Clinton, o mentor do P-Funk, lia-se em letras garrafais no ecrã gigante instalado ao fundo do palco. Seguir em frente, pela estrada fora, só com partida e sem destino, só pelo prazer de viajar, e tudo com uma banda sonora com os decibéis no máximo, impedindo-nos de pensar, só nos desafiando a agir, a partir tudo. Foi esta a sensação que tivemos da performance do cantor que, nos bastidores, conheceu o campeão europeu Renato Sanches, um encontro oportuno, já que aqui e ali, nesta última noite de festa, lá se foram ouvindo cânticos a Portugal e ao goleador Éder.

Palco EDP

No palco secundário, a tarde começara com os madrilenos The Parrots, num punk rock fraco, fraquíssimo, que não merecia lugar no lineup deste festival. Se pensarmos no timbre do vocalista, o nome da banda faz sentido, vê-los num evento desta dimensão é que não. Aleluia que a seguir veio o R&B de Kelela. A intérprete de Los Angeles, que sonhava desde pequena ser cantora – desde os tempos em que o pai a fazia subir para uma cadeira e cantar temas de Whitney Houston – terminou em Lisboa a sua digressão mundial. Estava extasiada com o facto dos festivaleiros terem percebido que estava ali «simplemente para cantar algumas canções», detalhes da sua vida, desgostos amorosos, sonhos e desilusões, o comum ao comum dos mortais. «Se não fosse castanha, corava», acabaria por confessar. Seguiram-se-lhe os seus conterrâneos Fidlar, banda skate/garage punk, de novo tanto barulho para nada. E, depois disso, a rapper tuga Capicua e o seu elogio ao girl power.

A pronúncia do norte voltaria a dominar o palco EDP, desta feita na voz do veterano Rui Reininho e dos seus comparsas dos GNR. Celebrando o 30º aniversário de Psicopátria, o colectivo tocou para poucos e bons e mostrou que ainda pode dar cartas ao vivo. Sobretudo o frontman mostrou um vigor vocal que há muito não lhe admirávamos.

Enquanto isso no Palco Antena 3, Moulinex e convidados funcionaram como um oásis a quem quis desenjoar do balanço hip hop da noite. Foi uma Purple Experience que como o nome indica, prestou homenagem a Prince. Falecido em corpo mas tão, tão presente nas nossas almas.
 

Foto: De la Soul
Kendrick Lamar: Yô contigo e tu comigo | © De la Soul
Nuno Andrade
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