entrevista

Rodrigo Alvarez desvendou 'Maria'

19 | 07 | 2016   12.46H

Maria é a figura central do livro do escritor e correspondente brasileiro da TV Globo que mora em Jerusalém. O autor aventurou-se a escrever ‘Maria’, a biografia de uma das mais importantes mulheres da história.

Filipa Estrela | festrela@destak.pt

Maria alia o rigor jornalístico a uma profunda investigação histórica, entre textos bíblicos e relatos não reconhecidos pela Igreja Católica, mas também inúmeras visitas a lugares sagrados e sítios arqueológicos.

Geralmente o ângulo das pesquisas costuma ser sobre Jesus. Como foi fazer as suas viagens e pesquisas centradas em Maria?
É interessante falar nisso porque Maria, desde os evangelhos que é um pouco esquecida. Ela foi pouco mencionada no Novo Testamento, só há menção a seis falas de Maria e uma resposta visual dela. Em dois mil anos deixaram-se muitas lacunas sobre Maria e era preciso pesquisar noutros textos, até naqueles que não foram aceites pela Igreja, para entender o que foi sendo dito sobre ela ao longo destes dois mil anos, principalmente nos primeiros anos. Tive de fazer uma pesquisa bibliográfica muito grande, em textos antigos, livros e tratados da igreja, arquivos do vaticano e também uma parte arqueológica com a visita aos lugares onde se acredita que Maria esteve.

Passou por todos esses lugares?
Eu moro em Jerusalém e a partir daí visitei todos os mais importantes. E isso dá uma força muito grande, escrever a história, pisando os locais onde aconteceu. Vivo a dois quilómetros do túmulo de Maria e vou andando de bicicleta e passo num dos túmulos onde se acredita que Maria possa estar.

Como consegue perceber o que é importante, uma vez que não há factos concretos 100% certos e às vezes até informações contraditórias?
Como os evangelistas não eram biógrafos não se preocupavam em fazer a biografia de Jesus. Estavam focados em relatar uma nova vertente do judaísmo e não sobre a vida de Jesus. Não se preocuparam em dizer quem eram os avós de Jesus. Não há nenhuma prova de que foi Ana e Joaquim. Esses nomes surgiram de uma necessidade de preencher os vazios dos evangelhos. O trabalho que fiz foi de recompor o mosaico sem a pretensão de que há um retrato único definitivo. Quero conduzir o leitor por uma viagem que desse para entender aquilo que se disse e se pensou sobre Maria em cada momento da história, sem a pretensão de que seja a verdade definitiva.

Como organizou a sua história?
A história começa antes de Maria, com os pais dela e passa pela morte de Maria e há um momento importante dedicado ao que foi feito dentro da igreja cristã, que se foi dividido inclusive por causa de Maria. O que foi feito com o nome de Maria que antes era uma virgem importante, a mãe. Como é que essa personagem se foi transformar na mãe de Deus. Foi uma montagem de um mosaico cheio de senões e de supostos e de talvez, sem nenhuma necessidade de afirmar uma verdade porque não existe verdade definitiva sobre praticamente nada.

Ia anotando todos os factos que ia encontrando?
Sim, sempre com o rigor histórico e religioso e a honestidade jornalística, para o que há de conhecimento real estivesse junto com o que há de especulação.

Falou nos relatos que a igreja não reconhece. Encontrou factos contraditórios?
Há padres e bispos da igreja que dizem que Maria depois do nascimento de Jesus não era mais virgem. Como é que a igreja poderia aceitar isto? Existem vários textos que contradizem o que a igreja diz. O que interessa como leitores do século XXI é que o que aceitamos como verdade foi-se construindo ao longo do tempo e o que se sabe sobre a mulher Maria é muito pouco. Que ela é a mãe de Jesus é uma das grandes certezas que se tem. Agora, se Maria foi com três anos viver com virgens no templo de Jerusalém, como afirma a tradição? Provavelmente não, porque não há registos históricos e arqueológicos. Tudo o que existe é o que veio depois de 300 anos. É uma grande história humana construída por seres humanos e é também uma história de devoção que está ligada à crença básica da religião católica e das religiões cristãs.

Encontrou factos chocantes?
Sim por exemplo, uma acusação muito grave de adultério, de que Maria teria tido um caso com um soldado romano chamado Pantera e que jesus seria fruto desse adultério. Isso começou a circular no ano 300, mais ou menos na mesma idade de outros textos que usamos como base. Este livro é o livro mais compreensível e possível sem uma vírgula de ficção, nem de devoção. Tudo o que está aqui é facto, pode se contestado mas se é contestado diz que é contestado e atribuído a quem disse.

É católico?
Sou católico de família, estudei num colégio católico e numa universidade católica, mas não escrevo o livro do ponto de vista de um católico. Escrevo o livro do ponto de vista de um jornalista com interesse nos factos. Não há ficção nem devoção.

É um livro só para católicos?
De maneira nenhuma. No Brasil, o leitor do livro é dividido entre católicos, ateus e até evangélicos.

Como lidou com informações de milagres e aparições?
Sempre do ponto de vista de como foi inserido e recebido pelos seres humanos na história.

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