Jorge Ascenção - CONFAP

«Sem o envolvimento das famílias é tudo mais difícil»

06 | 09 | 2016   17.33H

O presidente do Conselho Executivo da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) espera que o ano letivo que se prepara para arrancar seja tranquilo. Espera, mas sem ilusões, até porque os imprevistos são uma constante. Ao Destak, reclama uma maior participação dos pais na vida escolar. Algo que, no entanto, não depende apenas destes.

Carla Marina Mendes | cmendes@destak.pt

Quais as expectativas para o arranque deste ano letivo?

Esperamos, todos os anos, um ou outro imprevisto, mas o que desejamos é que o ano letivo se inicie com toda a tranquilidade, no primeiro dia e com todos os meios. Esperamos que as necessidades e expectativas das famílias sejam atendidas.

Mantém-se o conflito entre os colégios privados e o Ministério da Educação, que vai marcar inevitavelmente presença no início do ano escolar. Como vê a CONFAP vê esta situação?

A CONFAP tem acompanhado este assunto e o que sempre dissemos é que é preciso garantir as condições para todas as crianças e jovens. Entendemos que, numa ou noutra situação, podem ter havido abusos e teria que se olhar para os casos e agir em conformidade, mas aquilo que esperamos é que o início de ano seja tranquilo e que se consiga um entendimento, que é desejável, entre as duas partes, chegando-se a uma solução justa e que não prejudique as crianças e os jovens.

Este ano já foram anunciadas alterações ao regime de avaliação? Faz sentido estas mexidas, que se sucedem, ano após ano?

Quando chega alguém novo a um cargo de decisão, devia perceber que está naquele cargo para conhecer a realidade e tentar melhorá-la. Mas o que vemos, em regra, é que cada um adota a atitude do “eu é que sei”. Não tem havido, antes de se fazerem alterações, estudo das situações, um envolvimento de todos os parceiros para que se perceba se aquilo faz sentido, se deve ou não ser melhorado. E estas mudanças constantes não são nada boas e não têm melhorado o sistema em si - as crianças continuam, nas salas de aulas, de costas umas para as outras, a ouvir debitar informação que muitas vezes já ouviram antes. Agora, alguém entendeu que em vez de exames devíamos fazer provas de aferição, mas a mudança do sistema em si, que merecia uma análise, não a tem tido e o que temos, sistematicamente, é a mesma forma de avaliar, mas com ligeiras diferenças.

Em relação às provas de aferição, foi anunciado que, para além de não contarem para a avaliação, deixam de ter notas? Concorda?

Temos que ver o efeito prático, mas em teoria trata-se de perceber o que se passa no percurso das crianças e dos jovens. Pelo menos parece-nos que o caminho não é mau, mas vamos ver se há preparação para receber a informação e trabalhá-la da melhor forma possível.

Acha que os pais hoje estão mais presentes, no que à escola diz respeito, que participam mais?

A participação dos pais está a mudar a dois níveis: quantitativa e qualitativamente, mas lentamente. Olhando para a foto dos pais, houve um aumento mais a Norte e no litoral, mas um pouco por todo o País. Os pais interessam-se mais por conhecer, ou seja, temos cada vez mais pessoas que se envolvem não para reivindicar, mas para saberem como funciona, para ajudar. É verdade que se fazem reuniões em que a afluência é muito reduzida. Mas há aqui um estado cultural que é preciso mudar, até porque vivíamos os momentos da vida de forma estanque e segregada e hoje estamos a trabalhar mais em rede. Ainda continua a haver muito a ideia de que as coisas da escola são com a escola e há muita gente que não se importa de pagar, mas sem ser incomodado, sem ter que ter o trabalho. E é mais fácil mudar o que é material do que isto. Mas a escola não está desgarrada da sociedade, nem da família. Depois, junta-se aqui uma certa desconfiança que vivemos dia a dia, uns para com os outros.

Em que é que esta desconfiança é prejudicial? O que resulta daqui?

Muitas vezes a família quer participar na escola e é o estabelecimento de ensino que defende que ela não tem nada que ali estar. Há dois representantes dos pais por cada turma, o que, se multiplicarmos por todas as turmas do País, vai dar mais de um milhão de pais. Mas muitos destes não estão a participar de uma forma ativa porque não são chamados pelas escolas, o que torna tudo mais difícil. Se eu digo que quero participar e me dizem que não é preciso uma, duas vezes, três vezes, eu acabo por desistir. É preciso que haja um feedback e nas zonas onde as escolas reconhecem a importância da participação dos pais – e não desconfiam dela – esta participação é muito diferente.

Os pais já são vistos como parte integrante do sistema educativo e com voto na matéria?

Estamos no bom caminho. Já trabalhamos em parceria com as associações sindicais e os diretores das escolas, algo que há cinco, seis anos não se fazia. Hoje, temos uma escola muito heterogénea e por isso temos que nos ajudar para cumprir uma missão muito difícil que, de forma isolada, não se é conseguida.

A CONFAP é chamada pelos decisores a dar a sua opinião?

Por norma sim, embora não seja sempre. Somos parceiros sociais do Ministério da Educação há cerca de 20 anos e ainda que não sejamos chamados com a frequência que seria desejável – até porque é muito difícil estar em todas as reuniões, já que nós fazemos isto fora do nosso horário laboral -, com este ministro já estivemos uma vez, com o secretário de Estado da Educação umas duas ou três vezes. Ouvimos dizer que a tutela pretende ter reuniões periódicas com os sindicatos e não fomos abordados nesse sentido, mas acreditamos que ainda podemos vir a ser. Há, no entanto, uma fragilidade que nos preocupa e tem a ver com as autarquias.

Não há aqui reconhecimento?

Somos muito defensores da autonomia, sobretudo aquela que é centrada na escola e as autarquias preparam-se para ter aqui um papel importante. Mas são poucas as que, efetivamente, envolvem as famílias. A CONFAP tem sido chamada a participar e dar o seu parecer a nível nacional com mais interesse do que aquilo que acontece com as nossas estruturas locais. E era bom que os autarcas percebessem que sem o envolvimento das famílias tudo se torna mais difícil.

Foto: Nuno Fernandes Veiga
«Sem o envolvimento das famílias é tudo mais difícil» | © Nuno Fernandes Veiga
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE