Escutar sem peso nem culpa

Primeiro gabinete de escuta do País inaugurado esta semana em Lisboa

21 | 11 | 2016   12.30H
Desabafar é um ato libertador e até pode ser a “cura” para grandes males. O problema é que nem sempre há quem queira ouvir os nossos dramas existenciais e, ou acabamos na cadeira de um psicólogo ou de um psiquiatra – quando o mal nem seque ré patológico –, ou deixamo-nos consumir pelo silêncio.
Patrícia Susano Ferreira | pferreira@destak.pt
Para responder a esta necessidade, detetada pelos capelões hospitalares, surgiu o primeiro gabinete de Escuta do País que abre portas na próxima sexta-feira, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa. Mas engana-se se pensa que é uma espécie de confessionário ou uma iniciativa religiosa. É gratuita, aberta a qualquer público e conta com o trabalho voluntário de dois capelões e de dois assistentes espirituais disponíveis para ouvir todo o tipo de dramas, coisa que já fazem nos hospitais, mas que será alargada a este gabinete. «Luto, separação, doença e desemprego são algumas das situações que levam as pessoas a procurar-nos nos hospitais e a fugirem dos psicólogos e dos psiquiatras. Não querem ser catalogadas ou diagnosticadas. E aqui esperamos que aconteça o mesmo: que as ajudem os a encontrar soluções para as suas angústias», explica ao Destak o assistente Fernando Oliveira.
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Primeiro gabinete de escuta do País inaugurado esta semana em Lisboa | © dr

2 comentários

  • Sou um dos responsáveis da fundação do Gabinete de Escuta. É uma ideia com alguns anos. Em Espanha há uns 30 Centros de Escuta. Como se afirma nos princípios orientadores, não é um Gabinete de Psicologia nem de Psicoterapia. Não pretende ser alternativa a serviços de saúde mental nem a profissionais da saúde. Isso seria desvirtuar a ideia fundadora. É apenas um espaço onde pessoas com sofrimento espiritual e existencial são acolhidas e escutadas no contexto de uma relação de ajuda inspirada na psicologia humanista, e no enquadramento de uma a três sessões. Estamos conscientes da possibilidade de aparecer pessoas com problemáticas de natureza psiquiátrica ou psicológica. Como não é da nossa missão e muito menos da nossa competência tratar essas pessoas, nem é para isso que o gabinete é fundado, faz parte dos nossos princípios aconselhar e encaminhar as pessoas para serviços ou profissionais que respondam às suas necessidades. Fernando Sampaio
    Fernando Sampaio | 23.11.2016 | 20.53Hdenunciar comentário
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  • Foi com contentamento mas também descontentamento que li o artigo publicado hoje, dia 21 de Novembro de 2016, no Destak, sobre o projeto de "Escuta Ativa" que visa, de acordo com o que refere o artigo, a criação de um gabinete onde as pessoas podem recorrer para "desabafar". O meu descontentamento não advém da criação deste projeto, uma vez que poderá ser uma mais-valia para as pessoas, no entanto não é nem pode ser comparável ao trabalho de profissionais de saúde mental como psicólogos e psiquiatras e o artigo faz essa comparação, referindo inclusive que as pessoas que recorrem a estes profissionais são "catalogados". Por outro lado, o artigo alega que “quando o mal nem sequer é patológico”, as pessoas acabam “na cadeira de um psicólogo ou de um psiquiatra, ou deixam-se consumir pelo silêncio”, levantando-se a questão de como é que pessoas sem formação técnica partem de um princípio, sem uma avaliação técnica prévia, de que o problema não é patológico. Sou formada em psicologia clínica e enquanto psicóloga senti o meu trabalho desvalorizado e menosprezado, como se recorrer a um profissional de psicologia fosse "catalogar" e como se o objetivo de um acompanhamento psicológico fosse exclusivamente diagnosticar patologias mentais. As pessoas que recorrem à ajuda de um profissional da área da saúde mental, fazem-no não só para "desabafar" mas essencialmente para obter ajuda profissional de alguém que possui conhecimentos cientificamente comprovados acerca do comportamento humano e de quais as técnicas a utilizar, em conjunto com a pessoa, para obter resultados positivos e contribuir para uma melhor qualidade de vida. Cada vez mais noto que a psicologia tem vindo a ganhar importância na sociedade e que as pessoas estão mais conscientes da importância de procurarem ajuda no sentido de se sentirem melhor psicologicamente, no entanto, infelizmente ainda existe quem "catalogue" a psicologia e as pessoas que recorrem a ela. Artigos como este aumentam as probabilidades das pessoas não cuidarem da sua saúde mental e não recorrerem a quem domina os conhecimentos necessários para as ajudar. Acredito verdadeiramente que os capelões hospitalares tenham excelentes intenções e consigam ajudar muitas das pessoas que se encontram em situações complicadas de vida. A questão que me deixa descontente é o facto de existir, neste artigo, uma comparação entre o louvável apoio humanitário que passará a ser prestado neste gabinete e o trabalho técnico e cientifico essencial exercido por psicólogos e psiquiatras.
    Patricia Claro | 21.11.2016 | 23.48Hdenunciar comentário
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