Carlos Ruiz Zafón

«Sempre soube que ia ser escritor, que era isso que eu era»

20 | 12 | 2016   16.03H

Quinze anos depois de ‘A Sombra do Vento’, ficamos a conhecer o desfecho da saga ‘O Cemitério dos Livros Esquecidos’. Em ‘O Labirinto dos Espíritos’, todos os nós se desatam nesta teia de dramas e paixões. Coleciona dragões e um imenso amor pelos livros que vem de menino. O autor espanhol, que dedicou quase um terço da sua vida a uma tetralogia e é um dos escritores vizinhos mais traduzidos/publicados, quer que os seus leitores não dêem o tempo por perdido.

Vera Valadas Ferreira | vferreira@destak.pt

Em O Jogo do Anjo, escreve que «um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história». Como foi consigo?

No meu caso deve ter sido uma história narrada porque desde criança que contava histórias, que depois transpunha para papel. Com 10/11 anos, com um grupo de amigos, criei um jornal. Eu escrevia as histórias, outro imprimia na máquina Xerox do pai (algo mágico), havia o artista que assinava os desenhos e também o homem do marketing, que vendia o jornal no pátio da escola. Tivemos muito êxito! Vendíamos mini-romances de 5 ou 6 páginas. Essas foram as primeiras histórias pelas quais recebi moedas, que eram muitas aos nossos olhos e com as quais comprávamos guloseimas e roupa. Também as palavras elogiosas das pessoas que liam e gostavam… até que fomos descobertos pela direcção do colégio que proibiu a sua venda porque considerava-as subversivas, corrompiam a moral. A censura caiu em cima de nós. Mas a experiência ainda durou um ano. Desde criança que escrevia e narrava histórias. É algo que faço desde sempre.

Já queria ser escritor?

Sempre quis ser, sempre soube que ia ser escritor. Sempre soube que era isso que eu era.

Acha que hoje as pessoas respeitam os livros?

Acho que ainda há respeito pela cultura literária, que ainda há pessoas que gostam de ler. O que acontece é que há muitas pessoas que não sabem o que são os livros. Isto não é de agora. Haverá sempre pessoas que leem e outros que não, como não farão outras coisas. Mas sim, talvez haja um certo tipo de pessoas que estão a esquecer o prazer de ler, de tudo o que podem encontrar nos livros. Porque há muito ruido, muita oferta, muita coisa para fazer. Há que recuperar estes leitores e oferecer-lhes algo que seja estimulante. Seduzi-los para que entendam que a literatura é um prazer, uma fonte de beleza e desfrute, uma porta para o conhecimento. Que nos dá ferramentas para treinar o pensamento, a linguagem, para aprender a descobrir e a pensar por nós próprios. Há muita gente que não sabe o que está a perder, não por sua culpa, mas porque não se soube comunicar com elas. Às vezes o mundo da literatura oferece uma fachada muito pretensiosa, auto-convencida que merece o interesse, a admiração, a veneração das pessoas só porque sim. E não é assim porque temos de ganhar as coisas e trabalhar para que assim seja.

De cada vez que lança um livro sente a responsabilidade ser um dos autores espanhóis mais traduzidos e publicados?

Gostaria que aquilo que faço servisse para que mais pessoas se interessem pelo mundo dos livros e que isso faça parte das suas vidas. Tento trabalhar ao máximo para que uma pessoa, que me dá o seu tempo e atenção, não leia os meus livros e no final pense que não encontrou ali nada e mais valia ter visto televisão. Esse sim é o meu dever. Não posso representar a literatura ou assim, mas tenho por ambição que os meus livros valham a pena a experiência. E a partir deles o leitor seja tentado a ler mais livros e a explorar esse mundo.

Quando iniciou esta saga já sabia que seriam quatro livros?

Sim, já estava definido quando comecei a trabalhar nesta ideia em 1998/99. No início ainda pensei que podia ser um livro gigante mas percebi que não ia funcionar. Decidi que o melhor era parti-lo em quatro livros, cada um com uma personalidade própria, com uma história independente mas que se cruzasse com as outras. O primeiro [A Sombra do Vento] seria a história de um leitor, o segundo [O Jogo do Anjo] de um escritor, o terceiro [O Prisioneiro do Céu] de uma personagem e o quarto [O Labirinto dos Espíritos], o maior e mais complexo, a história do narrador, ou seja minha. E que todos se combinariam. O primeiro apresenta-nos uma família de livreiros em Barcelona, de uma criança órfã aos quatro anos que perde a memória do rosto da mãe. O mistério do que lhe aconteceu é o que sustenta o livro. Pensei: “a custo lá soluciono este e depois logo veremos se sobrevivo e se haverá mais alguém interessado em seguir este mundo”. Podia ser uma ideia fantástica da qual me arrependesse também. Não tinha uma obrigação contratual com ninguém. Com os anos, dei-me conta, que cada vez me interessava mais. Para mim seria muito mais fácil não fazer isto ou fazer livros independentes. Sabia que era uma coisa que, provavelmente, só ia fazer uma vez na vida. Não sabia quanto tempo ia demorar, nunca pensei que fossem quinze anos!

E acabou?

Acabou, para sempre. Os livros estão exactamente como eu queria. E já está. Claro que podia crescer, continuar, ramificar. Não havia nada de mal nisso. Mas não era esse o meu projeto. Construi aquilo que queria. É aquilo que tem de ser. E agora quero fazer outras coisas, coisas diferentes.

De qual personagem sentirá mais falta?

Não sinto muito a falta porque as personagens ficam comigo, porque são uma parte de mim. Nesta série de livros há umas personagens que são realmente uma parte de mim mesmo, que são uma extensão de mim. Neste livro são elas o Julián Carax, um escritor que é um personagem relativamente secundário, o Fermín Romero de Torres – que é uma parte do meu cérebro – e a Alicia Gris – que a figura central. Sei que eles não se vão a nenhum sítio. Se seria divertido pegar neles e levá-los a passear? Sim, seria. Talvez me apeteça e o faça daqui a 15 ou 20 anos.

Têm então outros projectos…

Sim, tenho vários na cabeça mas ainda não me decidi por nenhum. Estou como que a aterrar depois de tantos anos a trabalhar nestes livros. Não creio que volte a fazer uma saga. Em algum momento algumas das histórias que tenho em mente se destacará e me decidirei por ela.

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