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Bairros Problemáticos

Há bairros sociais bem construídos e com bons exemplos

14 | 05 | 2009   10.38H

Construídos no final dos anos 50 e início dos anos 60 do século passado, os bairros de Olivais Norte e da Encarnação distinguem-se pelos edifícios "em correnteza" em tijolos e por prédios com habitações em duplex, adornados com jardins que saltam à vista pela forma como estão bem cuidados.

Os espaços verdes são o orgulho dos moradores. "O meu marido é quem cuida do jardim", conta à agência Lusa Ascensão Raposo, que mora no bairro de Olivais Norte há 41 anos e não tem razões de queixa: "A vizinhança é boa".

Para António Baptista Coelho, do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), este bairro, com 2500 fogos e dez mil habitantes, conseguiu fazer "a aliança entre a qualidade arquitectónica e a satisfação residencial", tornando-se "um exemplo de urbanismo".

A habitação social não pode ser julgada só pelos maus motivos e há mesmo razões de orgulho, como a atribuição do Prémio Valmor em 1967 a um conjunto de torres naquele bairro, da autoria de Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e António Pinto de Freitas.

"Há mais de 250 exemplos de boa habitação social feita em Portugal nas últimas duas décadas", salienta o arquitecto Baptista Coelho, autor do livro "20 anos a promover a construção de habitação social".

Para o arquitecto, o maior inimigo da habitação social é a concentração de pessoas e a ausência de misturas de diferentes estratos sociais. Uma situação que pode levar a actos de violência como aqueles que estão a acontecer no bairro da Bela Vista, em Setúbal, e como os que ocorreram na Quinta da Fonte, em Loures, há alguns meses.

Durante um périplo pela cidade de Lisboa, Baptista Coelho mostra outros bons exemplos de habitação social que marcaram várias décadas, como o do bairro de Alvalade, onde nas traseiras da Avenida de Roma se encontram "células" de habitação social que foram "replicadas positivamente noutras cidades".

Maria Clara foi viver para Alvalade na década de 1940. A "boa vizinhança" e o "sossego" têm marcado a vivência no bairro.

"Gosto muito de viver aqui", conta, apontando com orgulho para o jardim cuidado da praceta e para os girassóis que tem na sua janela.

A integração de “células” sociais num bairro residencial com pessoas de vários estratos sociais foi “perfeita”, diz o arquitecto, contando que Alvalade, que tem 45 mil habitantes em 230 hectares, foi construído para 33 mil moradores em fogos com renda económica.

"Mais do que um bairro fez-se cidade viva”, sublinha, defendendo que estes locais têm de ter comércio, escolas e equipamentos colectivos que levem à convivência entre vizinhos.

Já na década de 1990, mais precisamente em 1999, foram construídos 227 fogos nas avenidas de Berlim e Cidade de Luanda, paredes-meias com “habitação de luxo” no bairro de Olivais Sul.

Em “termos de pormenores nota-se que as coisas mudaram, mas era muito bom se toda a habitação social fosse a este nível”, comenta Baptista Coelho.

As fachadas dos prédios são bem cuidadas e dinamizadas e as escadas comuns têm ventilação e alguma luz natural. Além disso, os moradores têm comércio e transportes públicos no bairro, o que contribuiu para uma “boa integração na cidade”.

Paulo Luís foi morar para o bairro há sete anos e está satisfeito: “Se não misturarem aqui mais pessoas, está óptimo”.

“Relativamente ao que ouvimos nas notícias [actos de violência na Bela Vista], nós estamos no paraíso”, comenta na praceta do bairro, onde está à conversa com os vizinhos.

Há meros três anos foi construída a “cidade cooperativa do Vale Formoso”, em Chelas, com 294 fogos. Cada quarteirão foi projectado por um arquitecto diferente.

A construção distingue-se pelas linhas simples, pelos espaços verdes e a vista sobre o rio Tejo. “Este bairro amarrou ao antigo e fez-se cidade”, diz orgulhoso Baptista Coelho.

Helena Neves da agência Lusa

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