Entrevista

«O conhecimento não se estimula, desenvolve-se»

02 | 03 | 2017   10.42H
Tenta não dar receitas feitas, porque cada pai e cada filho são um caso individual,mas dá uma garantia: as crianças precisam de muito pouco para serem felizes e aprenderem. No livro Educar na Curiosidade, da Planeta, Catherine L’Ecuyer defende a importância de respeitar o motor interno do desejo de conhecer dos mais pequenos e de valorizar os momentos com os pais. Reduzir o tempo na escola e aumentar o que passam em casa seria o ideal.
Patrícia Susano Ferreira | pferreira@destak.pt

Hoje, há a tendência dos pais quererem ser os melhores e terem os filhos mais inteligentes. Isso faz com que haja um excesso de estímulos?

Os pais sem maldade acreditam que têm de fazer uma série de coisas que não são necessárias. A criança não precisa de um ambiente enriquecido porque já tem em si esse desejo de conhecer. Basta uma quantidade mínima de estímulos exteriores. O mais importante é que as crianças desenvolvam o vínculo de apego com os seus principais cuidadores, os pais, porque é algo que lhes dá segurança. O conhecimento não se estimula, desenvolve-se.

Há um excesso de consumismo de brinquedos?

Aqui é importante entender o mecanismo do assombro, do desejo de conhecer, que as coisas na vida não são garantidas. Quando compramos tudo, antes de os filhos pedirem ou desejarem, faz com que achem que têm direito a tudo e que as coisas e as pessoas se têm de comportar como elas querem. A criança deixa de ser agradecida.

Como mudar isso?

Reduzir os estímulos. Os brinquedos quanto menos botões e pilhas melhor, porque deve ser a criança que se desenvolve através do brinquedo e não o contrário. A criança tem de ser o protagonista da brincadeira. Há que mudar o paradigma atual.

A maioria dos pais coloca os filhos desde muito cedo no tablet ou na TV e acreditam que estes estão a aprender.

As crianças pequenas não aprendem através do ecrã, há estudos que dizem que até aos dois até acabam por ver o seu vocabulário reduzido e ficam mais impulsivas. Antes dos dois anos não devem sequer ver TV ou tablet por ser prejudicial. É uma questão de saúde pública. Já a partir dos dois anos podem, mas conteúdo de qualidade, com um ritmo lento e adaptado à idade da criança e de preferência com os pais presentes.

Em relação às birras, qual a melhor atitude?

Os pais devem colocar os limites com carinho e quando os filhos não os aceitarem e fizerem birra, o melhor é esperar que passe. Depois abraçá-los e só depois explicar.

E os castigos e as recompensas funcionam?

Só podem funcionar no imediato. Como estes são influências exteriores acabam por não motivar internamente a criança.

Foto: Jorge Zorilla
«O conhecimento não se estimula, desenvolve-se» | © Jorge Zorilla
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