Estreias

Lopes & Martins dão tudo no visceral ‘São Jorge’

09 | 03 | 2017   18.47H

Na 3ª longa-metragem de Marco Martins o realizador reflecte sobre os anos de intervenção da troika em Portugal, centrando-se nos bairros sociais. Nuno Lopes recebeu o Prémio Orizzonti para Melhor Actor no Festival de Veneza pela sua interpretação.

Mais do que um mero filme, São Jorge para o protagonista Nuno Lopes e para o realizador Marco Martins é uma experiência de vida que demorou cinco anos a cimentar.

Lopes está por todo o lado no filme de Martins e no caso do versátil actor é a medida certa. Já tinha sido assim com Alice, de 2005, onde Nuno Lopes é o rosto da tragédia quando um pai vive a angústia do desaparecimento da filha.

Na 2ª colaboração dos dois no cinema (são amigos e colaboradores no teatro), o ponto de partida é o duro período de crise económica em Portugal durante a presença da troika.

A ideia ganhou forma primeiro num almoço entre os dois em que pensaram em fazer um filme sobre pugilismo. Mas umas entrevistas a pugilistas amadores depois, ao saber que muitos eram contratados para fazer «cobranças presenciais» nos tempos de crise em que as dívidas se acumulavam, mudaram o tom da ideia para incidir precisamente na difícil época que Portugal vivia.

Nuno Lopes é Jorge, a personagem densa, entre o amargurado e o resiliente, que vive com os pais num bairro social, trabalha numa fábrica que não paga salários há meses e se vê obrigado a ser cobrador de dívidas num país que não as consegue pagar. O objetivo? Providenciar para o filho com quem partilha a pequena cama na casa dos pais e tentar que a mãe do filho, brasileira (Mariana Nunes), volte para ele numa altura em que ela pondera seriamente voltar para um Brasil mais saudável economicamente.

Num filme duro e intenso que reflecte sem sentimentalismos lamechas a amargura de viver sem boas perspectivas de vida, somos sempre guiados por um Jorge habituado a guardar para si o que sente, enclausurado no seu próprio corpo, e que apesar de ser musculado e pugilista – onde ganha uns cobres extra –, é profundamente limitado pela falta de dinheiro e de perspectivas no bairro social onde vive.

A sua relação com o filho, fruto do amor por uma brasileira negra, é um dos trunfos do filme à medida que Jorge tem de lidar com as escolhas que vai tomando. Lopes ‘encorpou’ 20 kg (de massa muscular) e treinou como pugilista durante seis meses, numa rodagem também ela bem dura, admitiu o realizador Marco Martins.

Em destaque no filme visceral e que vale bem a ida à sala de cinema estão também as boas interpretações de Mariana Martins, Jean-Pierre Martins, Gonçalo Waddington e José Raposo, além da participação de vários 'não actores' dos próprios bairros onde o filme foi rodado e que tiveram oportunidade de contar as suas próprias histórias em tempos marcantes e difíceis.


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Kong: A Ilha da Caveira
Realizado por Jordan Vogt-Roberts, segundo um argumento de Dan Gilroy e Max Borenstein, Kong é uma espécie de renascer do mito King Kong no cinema.
Passado em 1971, seguimos um grupo de exploradores, mercenários e soldados (vindos directamente da guerra do Vietname) prontos para partir a Ilha da Caveira, um lugar mítico e inexplorado situado no Oceano Pacífico, onde supostamente vivem criaturas pré-históricas extintas há milhões de anos.

Está longe de ser um filme memorável mas é uma forma peculiar de reavivar King Kong e aproveita bem os efeitos especiais convincentes (o 3D aqui funciona bem). O ponto de partida para a história de Kong interessante para se tornar num filme agradável e cativante q.b..
Se Kong, embora verdadeiramente enorme, é convincente entre o assustador e o bondoso, nem todas as personagens são tão bem conseguidas. O elenco é excelente mas a bela Brie Larsson chega a ser bonita, penteada e algo empertigada demais para uma personagem que é fotógrafa de guerra. Já Tom Hiddleston é um peculiar mercenário/tracker habituado à selva mas que é demasiado simpático, composto, limpo e... educado para alguém que já terá passado por tanto em situações difíceis. Ainda assim, um filme de acção com algo para nos dizer onde Samuel L. Jackson, felizmente, está igual a si mesmo.

Quando chegam ao destino, deparam-se com uma luta territorial que envolve um enorme gorila chamado King Kong e os "skullcrawlers", várias espécies de monstros caracterizados pela sua extrema agressividade e capacidade de adaptação. Aquela estadia depressa se transforma num verdadeiro teste às capacidades de sobrevivência de cada um…

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Lopes & Martins dão tudo no visceral ‘São Jorge’ | © DR
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