Jordi Llobregat

«Num primeiro livro há uma liberdade importante»

15 | 03 | 2017   11.46H

O Segredo de Vesálio marca a estreia literária do autor espanhol que sentiu o apelo para a escrita aos 12 anos. Um thriller tendo como pano de fundo a Barcelona das vésperas da Exposição Universal de 1888. Um filho de boas famílias, um promissor estudante de medicina e um jornalista cheio de vícios unem esforços para desvendar um mistério. A obra já foi traduzida para 18 línguas, por cá com o selo da Planeta Editora. Falámos com o seu inventor em Lisboa.

Barcelona é o cenário desta história. Porquê?

Um dos motivos é porque a história só podia decorrer ali uma vez que fala do facto histórico real que foi a Exposição Universal de 1888, um momento fabuloso que mudou totalmente a vida. Barcelona passa a ser uma cidade moderna, aberta à Europa, deixando para trás uma cidade mais obscura, sem luz eléctrica, muito mais fechada. Outro motivo é que Barcelona é uma cidade muito literária e inspiradora. Quem a visita vê que tem magia. O terceiro motivo é que é a cidade da minha mãe, que havia morrido uns anos antes. Em Barcelona, o ambiente, os sorrisos, a forma de falar das pessoas recordaram-me muito dela. Dei-me conta que este romance só podia ser nesta cidade.

A cidade é como uma personagem. Qual é o seu encanto especial?

É uma cidade muito viva, as suas pedras falam-nos do passado. Essa personagem milenar viveu, sofreu, é reflexo de ódios. Há algumas cidades no mundo que transmitem isto e Barcelona é uma delas. Há cidades que parecem um ser vivo.

Este livro exigiu muita investigação?

Sim! Porque há a parte da medicina. Sou muito perfecionista e odeio errar. A parte da medicina está profundamente documentada, assim como a personagem que ilustra o jornalismo de então. Li um ano inteiro de jornais de época, o que é uma loucura! Vi muitas fotografias dessa época. A documentação é um processo fundamental em qualquer romance, mesmo que o leitor não se dê conta.

Qual foi o ponto de partida para o romance?

Um aeroporto em Londres. Estava a pensar em escrever um romance. Na altura viajava muito e nos aeroportos vou sempre às livrarias. Em Inglaterra há uma grande tradição de literatura gótica mas em Espanha não tanto. Nesse momento decidi que queria escrever um livro gótico, um género de que tanto gosto. Não pensei logo que fosse em Barcelona. Também não pensava no mistério de Vesálio até perceber que era a peça que faltava no puzzle.

Sentiu a angústia do primeiro livro?

Não, sinto mais agora. Quando escreves o teu primeiro romance não tens consciência do que fazes. Há uma liberdade importante.

O que é o El Cuaderno Rojo?

É um grupo de amigos de cervejas, basicamente, mas no qual todos escrevemos. Respeitamos muito o que cada um escreve. Lemos os manuscritos um dos outros e cada um seguiu um género diferente, o que nos permite criticar os outros totalmente. Os manuscritos vêm sublinhados, riscados, com anotações, ou seja sangrando. Nesse dia, não quero nem vê-los. Mas depois...

Depois de umas cervejas?

(Risos) Sim, isso! Tudo se resolve! Às vezes esses comentários ajudam mesmo muito porque mostram outra visão.

Sobrou-lhe muito material para fazer uma continuação da história?

Pensei nisso! Com tanto material que me sobrou pensei: “vou aproveitar, ao menos que o próximo livro se passe nesta época que já conheço tão bem!!”. Mas prefiro provar outras coisas que me interessam, na mesma linha do thriller. É sem dúvida uma época de que gosto muito e talvez volte a ela mais à frente.

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Foto: Gustavo Ten
«Num primeiro livro há uma liberdade importante» | © Gustavo Ten
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