Concerto

Dave Matthews e Tim Reynolds num prazer acústico gourmet

11 | 04 | 2017   12.57H

Nem 10, nem 15. Foi com 12 minutos de atraso que Dave Matthews subiu ao palco do Coliseu dos Recreios nesta segunda-feira à noite. Desde a sua última vez em Lisboa, não é que nos tivéssemos zangado, mas eu tinha dado um tempo na nossa relação... Porém a companhia e o ambiente obrigaram-me a reatar com este cantautor sul-africano radicado nos EUA.

Vera Valadas Ferreira | vferreira@destak.pt

Não desfazendo dos outros rapazes – os instrumentistas da tal Band que normalmente acompanha o músico e com os quais se pode vangloriar da proeza de ser o projeto com mais bilhetes vendidos em todo o mundo na última década – mas Tim Reynolds é de outra liga. Impede-me o decoro e o bom senso de aqui escrever palavrões capazes de expressarem o talento inacreditável e avassalador deste autodidata que descobre acordes onde eles só existem em sonhos. Nem todas as onomatopeias do mundo conseguiriam descrever a explosão sensorial que o seu amor (pela música) e dedinhos (não dos pés mas das mãos) nos provocam. “OMG!”, há vida naquelas canções e David encontrou em Tim o seu Golias perfeito.

«Esperem e vão ver», cantava Matthews logo ao primeiro tema. E as três horas de concerto (e outros tantos encores) passaram num corridinho. Ajudou o facto da sua voz quente e sorriso franco não terem corrido o risco de se perderem no vácuo de um qualquer festival ou na impessoalidade fria de uma arena. Um local de culto acolheu um músico de culto. Décadas depois fez-se justiça.

Dizem que numa relação três são uma multidão. Errado. Tim & Dave e cada uma das mais de quatro mil pessoas ali presentes criaram laços que ficarão na memória. Triângulos escalenos, isósceles ou equiláteros, tocando-se nos vértices, intersectando-se, numa constelação de fãs rendidos à aura musical dos dois artistas. O público cantou, vibrou, vocalizou, aplaudiu, incentivou, rejubilou. Também quando, no apontamento político da noite, o cubano Carlos Varela (que hoje celebra 55 anos) subiu ao palco para interpretar Muros & Puertas. «Algumas pessoas constroem muros e outras abrem portas. Pessoalmente, prefiro portas», sublinhou o anfitrião-mor, que contou ainda como era bom reencontrar-se connosco e ser acolhido com carinho, sobretudo tendo em conta que desta vez trouxe a família consigo. Nas teclas, dedicou-lhe um tema.

A penúltima das 14 datas da presente digressão acústica – encerra hoje, no Coliseu do Porto – celebrou 25 anos de um repertório verdadeiramente gourmet. Na iminência de não voltar a ter oportunidade de escrever isto: este foi e será um dos melhores concertos do ano.

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Foto: Nuno Andrade
Dave Matthews e Tim Reynolds num prazer acústico gourmet | © Nuno Andrade
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