Guns N' Roses

Bem-vindos ao passado

03 | 06 | 2017   17.59H
Nada dura para sempre. Coisas há, todavia, que ficam connosco durante longos e longos anos. As canções que nos acompanham na adolescência, de revolta e amor, são disso exemplo. E mesmo que não façam parte do nosso repertório de eleição, como é o meu caso em relação ao imaginário dos Guns N’ Roses, conseguimos senti-lo por osmose, tantos e tantos são os amigos que têm esta banda no coração.
Vera Valadas Ferreira | vferreira@destak.pt
Na noite de sexta-feira, mais de 55 mil pessoas, muitas com mais de 40 anos e algumas já acompanhadas de filhos pré-adolescentes, rumaram ao Passeio Marítimo de Algés. Só a ida já teve um sabor especial: o prenúncio da emoção que acontecerá daqui a pouco mais de um mês, quando aquele mesmo espaço receber o Festival NOS Alive, a antecipação da inauguração da temporada de festivais de verão. Sim, a capital já cheira a manjericos e a sardinha mas a banda sonora também já tem acordes rock. Não foram poucos os que sacudiram o pó das t-shirts pretas de rosas carmim, vestindo-se a rigor para o reencontro com a banda que por cá se estreara há 25 anos. O tempo voa quando nos estamos a divertir… de facto. Pois que também passaram a correr as duas horas e meia de concerto, sem pausas e sem direito a encore, uma vez que começou com meia hora de atraso face ao previsto. Foram mais de 25 os temas recuperados, de Welcome to The Jungle, Patience, November Rain (com direito a piano e tudo), Civil War, Knockin’ on Heaven’s Door, You Could Be Mine, Live and Let Die e por aí fora, sem esquecer a fase Chinese Democracy ou uma homenagem ao falecido Chris Cornell, em Black Hole Sun. Ao início temeu-se que Axl Rose, distante da forma esguia de outras eras, estivesse uns furos abaixo do previsto. Mas, tirando os calções justinhos, nada faltou neste entertainer, dos lenços vermelhos na cabeça, aos chapéus e blusões de cabedal, anéis XXL ou botas de cowboy douradas. Muito ativo em palco, revelou sobretudo grande inteligência na gestão da voz, tanto espaçando entre si os temas mais exigentes nos agudos como usando como reforço Duff McKagan, este sim numa invejável forma física. E claro, houve Slash, o guitarrista de cartola, cabelo em carapinha e dedinhos supersónicos. É um regalo assistir à naturalidade com que este exímio instrumentista faz gemer a guitarra num registo de “vou-só-espantar-vos-mais-um-bocadinho-com-a-minha-arte-e-o-bem-que-isto-me-está-a-saber-entretanto”. A solo tocou a banda sonora de O Padrinho e Wish You Were (Pink Floyd). «Passava a noite toda nisto», confessou. Ninguém duvida e quem nos deram a nós. Já Axl avisou, cantando, que nunca irá mudar. E nos olhos e sorriso marotos que acompanharam o verso houve um vislumbre do apetite para a destruição de outrora. Ao longo do espetáculo não faltou fogo e vídeos de pistolas que disparam sobre rosas, sintoma do kitsch romântico que sempre marcou a estética da banda. Paradise City encerrou o concerto. O que é plenamente justo pois que foi para lá que muitos foram transportados tamanhas eram as saudades.
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