NOS Alive: 2º dia

Unos e múltiplos prazeres sonoros

08 | 07 | 2017   15.13H
É sobretudo em festivais com esta quantidade, variedade e qualidade de propostas musicais que sinto vontade de ser múltipla como Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Poder estar aqui e ali, em toda a parte. Não perder pitada dos mais 100 artistas dispersos pelos sete palcos instalados no Passeio Marítimo de Algés. Ou isso ou ser Gulliver e, num passo de gigante e no tempo que demora a pestanejar uma vez, movimentar-me no recinto entre concertos.
Vera Valadas Ferreira | vferreira@destak.pt
Dada tal impossibilidade há portanto que fazer escolhas, dolorosas em alguns casos, tão pouco desencontradas em termos de horários são as atuações. Mas quando sentimos que fizemos as opções certas, oh é uma delícia. Ao segundo dia do Alive 2017, Tiago Bettencourt abriu o palco NOS, o maior, seguido dos Courteeners que, para impressão futura, mostraram o quão iguais a tudo são, tão interessantes quanto uma cerveja morna. Mas no Palco Heineken, aí sim, depois dos “tugas” Eden Lewis e Lot, o ambiente aqueceria com as Savages. Com dois álbuns às costas – o segundo , Adore Life congeminado no Porto, como nos lembraram e nunca se esquecerão – a banda de Jehnny Beth plantou e depois arrancou do público a semente do rock cru. A vocalista não é um quarto de banda, é banda e meia e mais ¾ de audiência. Beth tem demasiada chama em si e não me refiro só ao batom e stilettos escarlates com que se apresentou. Noise rock no feminino e uma teatralidade na voz e nos gestos a fazer lembrar Siouxsie Sioux. Uma pantera indie agarrada, suportada, transportada, mexida, adorada pelo público, galgando as grades ou fazendo delas o seu palanque. Perante tamanha prova de agilidade e resistência física, juro que nunca mais volto a queixar-me à saída do ginásio. “Boy, oh boy”, este demónio sexy estava apostado em possuir-nos e não houve como resistir-lhe. Menos à flor da pele mas também interessantes seguiram-se naquele palco Warpaint e depois Wildbeasts, lutando nas atenções do público com The Cult e The Kills. Se Alison Mosshart e Jamie Hince já tinham até apresentado Ash & Ice, o seu mais recente álbum, em novembro, nos coliseus, coroando mais de 12 anos de presença nos festivais nacionais, já The Cult há muito que não atuavam na nossa capital, pois o seu último show em Portugal já data de 2012 e foi no Festival Marés Vivas em Vila Nova de Gaia. Por culpa de Ian Astbury e companhia o público do segundo dia de festa envelheceu notoriamente. E, desabituado ou preguiçoso ou tímido as estas andanças ao vivo, demorou a expressar todo o seu contentamento face a tão gratas memórias sonoras. Hidden City, o décimo álbum de estúdio do coletivo, foi apenas uma gota nesta onda rock. Wild Flower, Rain, Sweet Soul Sister, She Sells Sanctuary, Lil’ Devil, Fire Woman ou Love Removal Machine foram os bilhetes para esta viagem de ida e volta ao passado, acasionalmente até à discoteca Plateau, tão mainstream se tornaram já alguns destes temas ao longo dos quase 35 anos de vida da banda. Astbury já não é o rapaz esguio e de cabelos negros de índio desses tempos e isso custa a assimilar, não minto. Mas também já nenhum de nós tem 20 anos, certo? Isto com exceção de um ou outro filho de pais roqueiros que, num prazer plurigeracional, não quiseram perder o regresso dos Foo Fighters a Portugal. Seis anos, ficou chocado Dave Grohl, afastaram a banda norte-americana do seu culto nacional. Seis anos ali recompensados em duas horas e meia de show e 21 temas. Contas feitas a banda formada em 1994 já atingiu a maioridade e por isso não lhe é difícil encontrar temas-ícones para rechear um alinhamento em jeito de best of. All My Life, This Like These, These Days, My Hero, White Limo, La Dee Da (uma novidade, cantada com Alison Mosshart), Best of You ou Everlong foram algumas das escolhas, com o público a cantar a plenos pulmões. Aliás, aqui, já na reta final, a multidão trocou de papéis com a banda brindando-a com um quase medley improvisado de cânticos, desde o “salta, Dave, olé, olé” ao “campeões, campeões” ou o hino nacional. Desde que vencemos a Eurovisão ficámos com a mania… que sabemos cantar, devem ter pensado os largos milhares de ingleses e espanhóis presentes no festival. Dave Grohl é incansável na sua rudeza rock e foi logo avisando que o concerto era para durar. Mas no entretanto também nos desarma com a sua ironia doce, para não falar da cumplicidade com Taylor Hawkins, o talentoso baterista que também canta e tem um “million dollar smile”. E pensar que este momento esteve mesmo, mesmo, mesmo, para não acontecer, já que a banda correu o risco de ficar irremediavelmente retida no aeroporto de Madrid devido a uma tempestade. Em concerto, houve um instante de breu total, a pedido do vocalista, com ecrãs gigantes e holofotes desligados. Então foi pedido a todos e a cada um do público que mostrassem “as suas luzes”. Entre 50 mil telemóveis, juro mas juro, que até vi muitos isqueiros à moda antiga. Unos e múltiplos. Ali e para a toda a eternidade.
Foto: Nuno Andrade
Unos e múltiplos prazeres sonoros | © Nuno Andrade
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