1º dia SBSR 2017

Red Hot: O Amor é uma coisa Esplendorosa ou o suplício da saudade

14 | 07 | 2017   12.15H
‘Obrigado. Love is a Splendored Thing’. Foram estas as primeiras palavras de Flea, um dos melhores baixistas do mundo e habitual mestre de cerimónias dos concertos dos Red Hot Chili Peppers, para a massa de público português que lotou a Meo Arena esta quinta feira e acolheu o regresso da banda norte-americana ao nosso país. Provavelmente uma referência à devoção imediatamente perceptível da multidão, à sua dimensão de perder a vista até ao último canto da última bancada, uma declaração de amor ou até de saudade pelos nossos fãs (a frase é do título de um filme e canção sobre este sentimento tão português, e que nossa língua foi mesmo traduzido como ‘Colina da Saudade’ ou ‘Suplício da Saudade’). Ou talvez apenas uma de muitas deambulações com que o ‘porta voz’ dos Red Hot nos brindou durante a hora e meia da atuação fulgurante e pejada de hits dos cabeças de cartaz do primeiro dia do Super Bock Super Rock 2017.
Patrícia Naves | pnaves@destak.pt

Cedo se percebeu que algo de especial se passava ontem em Lisboa, e que o concerto de Red Hot seria quase infalivelmente épico, ou pelo menos eficaz. Milhares de pessoas com camisas da banda, uma peregrinação de t-shirts como não se via há muito. A chegarem deliberadamente cedo ao recinto, a irem deliberadamente cedo para a Meo Arena para marcar lugar, em detrimento de ver outras bandas.

E assim que as luzes se apagam, ainda antes de os Red Hot entrarem –, primeiro sem Anthony Kiedis e num instrumental a mostrar o gigante virtuosismo dos seus elementos (Chad Smith e Flea sem dúvida dos melhores do Planeta na bateria e no baixo, e o guitarrista Josh Klinghoffer a todos os níveis à altura e imagem de antecessores como John Frusciante) – ainda antes do primeiro acorde, o público levanta-se todo das bancadas, como que a dizer ‘sentados é que não’.

E começa um alinhamento inicialmente arrasador: Can’t Stop. Snow/Hey Yo. Flea a agradecer-nos por virmos apoiar a música ao vivo. Dark Necessities. The Adventures of Rain Dance Maggie. Flea: ‘Precisamos de uma balada, vamos por o bebé a dormir’ e entra o acelerado, hardcore e carregado do som único que sai do seu baixo, Nobody Weird Like Me (pobre bebé que íamos adormecer. E sim, ninguém é estranho da mesma maneira que o Flea, ninguém.)

Sempre em modo acelerado, o concerto começou então por intercalar canções talvez menos óbvias (muitos não se esquecerão ou até perdoarão a escolha de temas mais improváveis como Aeroplane ou de momentos instrumentais em vez de clássicos esperados, como Under the Bridge). Mas houve Suck My Kiss, houve Californication, Soul to Squeeze, By The Way e, claro, houve Give it Away.

Houve a sensação de público totalmente enérgico e entregue como já nem sempre acontece- e embora nem sempre de forma consistente, aí talvez pesando algumas escolhas de alinhamento ou até a postura de Kiedis. É que quem conhece bem os Red Hot Chili Peppers e já os viu ao vivo (a última vez em Portugal há mais de 11 anos), já o sabe: Kiedis é um animal de palco, a entrega em pessoa, a voz continua perfeita abençoado seja, mas falar não é com ele. E não é que não vivamos sem chorrilhos de clichés e de declarações de amor constantes, mas por mais que Flea assuma as honras, faz falta um vocalista falar só um pouco, sorrir só um pouco, interagir com o público tão devoto que o veio ver e que o acolheu como convidado de honra na ‘sua casa’, para criar aquela empatia extra, então não faz. (como fazem falta fotos, coisa que não vamos ter nesta reportagem pois a banda não autorizou a publicação online).

Só que, tudo pesado na balança, é difícil não ter saído da Meo Arena, cada uma ou a grande maioria das 20 mil pessoas que a encheram, impressionado, de barriga cheia, com um banho de rock, entrega, virtuosismo e profissionalismo como já poucas bandas conseguem. E além disso o amor é uma coisa esplendorosa, mesmo quando não corre na perfeição.

Outras bandas e outros palcos

O ‘dia de Red Hot’, esgotado ‘por eles’ há largos meses, fez-se de outras grandes bandas e grandes momentos. A começar pelos Alexander Search, de Salvador Sobral e Júlio Resende, a abrir o palco EDP logo às 17h e logo com muito público, momentos muito bonitos, distribuição de poemas pelo cantor, um início talvez improvável mas próximo da perfeição, diga-se.

No mesmo palco, os espanhóis Boogarins não brilharam, como não brilharam os The Orwells, mas Kevin Morby protagonizou um – ou vários- momentos do primeiro dia. Com quatro discos na carteira e passagem pelos quatro, o cantor norte-americano trouxe o seu folk à beira do rio, prendeu muitos fãs e também quem mal o conhecia, conseguiu momentos mais próximos do rock e outros mais intimistas e introspectivos, e isto tudo para uma massa de público de respeito e enquanto a New Power Generation tocava o Purple Rain no palco principal, é obra.

Mais tarde no mesmo palco, The Legendary Tigerman apresentava temas do seu novo disco para um público escasso – difícil ou impossível competir com a ‘reserva de lugares’ pelos Red Hot, mas com a mesma entrega de sempre, como se tocasse para os 20 mil que lhe fugiram pelo palco e pela hora.

De novo no palco principal, a banda que tocava com o malogrado Prince teve então honras de abertura, num espectáculo com bons momentos- a presença de Ana Moura soube a fugaz mas foi bonita, sobretudo conhecendo a sua relação com o cantor, os melhores hits também soaram bem, o esforço e voz do cantor convidado, Bilal, em alguns momentos compensaram- mas não deixa der estranho ver a banda de Prince sem Prince, talvez seja muito cedo ou talvez pareça por vezes banda de covers – ou talvez tenhamos mesmo muitas saudades (as tais que conseguem ser um suplício) de Prince.

Capitão Fausto seguiram-se, tocaram para uma multidão e estiveram na sua maioria à altura, com Amanhã tou Melhor logo a começar como um dos momentos altos, mas não deixa de parecer óbvio serem uma banda que resulta melhor em salas como os, esgotados por eles há pouco, Coliseus. No palco LG, o destaque foi para Throes + the Shine, a competir por atenção exactamente à mesma hora de Capitão Fausto, a responder com a sua combinação única de rock e kuduro e a prometer no início ‘aquecer este palco’- promessa cumprida.

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