SBSR: 2º dia

Até que enfim quase até ao fim

15 | 07 | 2017   10.08H
Não há superlativos que façam jus à beleza do momento em que Hannah Reid canta, sentada e à capela para quase meia Meo Arena. Se as sereias e as banshees existem, elas cantam exatamente assim: fortes e simultaneamente frágeis, em tudo magnéticas.
Vera Valadas Ferreira | vferreira@destak.pt
Na sua estreia em Portugal, até que enfim, e com um espetáculo de grande cuidado visual, os London Grammar provaram que só são miniminalistas na sua formação. Se eu escrevesse um diário eram estes os meus poemas lamúrias. Se eu mandasse, no próximo outono/inverno, estariam de volta mas nos coliseus. Num dia, o 2º do SBSR, dedicado ao rengo-rengo hip hop, entrar no universo do trio britânico foi como mergulhar num jacuzzi e darem-nos farófias à boca. A consistência de um cartaz tem lógica e recomenda-se mas não de tal forma que seja mais fácil encontrar parecenças entre os projetos em palco do que propriamente diferenças. E foi o que aconteceu nesta sexta-feira, com os portugueses The Gift a dispararem o outro tiro ao lado em termos sonoros. A banda de Leiria teve a ingrata tarefa de dar a provar à hora do jantar os temas do novo álbum, Altar, a uma multidão festivaleira mais interessada em vibrar com o som de Slow J. Transferido do palco dos talentos emergentes do ano passado para o Palco EDP, o jovem que gosta de acrescentar rimas e batidas a clássicos do cançonetismo nacional, fez por merecer o upgrade, numa atuação só manchada pelas falhas dos microfones dos convidados. Nesse palco, logo para acordar às 17h00, Pusha T marcara o tom com o seu rap do Bronx de letras sexistas de “eu quero, posso e mando”, que recebera há uns anos o amém de Kanye West. O público delirou. Seguiu-se-lhe Jessie Reyez, criada no Canadá mas de genética sul-americana. A rapariga, gira que se farta, também encantou com a sua postura sem papas na língua. Quando perceber que pode cantar uma oitava abaixo e ainda mais com o coração e a mente e não tanto com o nariz tem potencial para fazer uma carreira de sucesso. Já Akua Naru, norte-americana radicada na Alemanha, fez menos ricochete no carinho do público, então já em alta rotação e menos sintonizado com as divagações jazzy desta rapper. No Palco EDP a noite terminaria cantando Língua Franca, com Brasil, Portugal e África escarafunchando as mesmas feridas sociais. Já no Palco LG by SBSR.fm, num final de tarde que até arrancou ao som do rock com sotaque do Porto dos Throes + The Shine, Keso e depois NBC lá nos fizeram lembrar que a noite era de hip hop. Timóteo Deus Santos, assim se chama o músico nascido em São Tomé, trouxe asas de anjo branco e uma homenagem a Michael Jackson. Merecia um palco maior, já bem composto se revelou o seu público. Isto tudo para chegarmos a Future, cabeça de cartaz da noite, um vislumbre terrível daquilo que este evento ameaça tornar-se no… futuro, caso dê mais primazia ao que está na moda, pensando na forma e não tanto no conteúdo. Muita produção visual, temas enlatados servidos à pressa, bailarinos mecânicos e plateia a meio gás. Uma vintena de composições numa hora de show é obra, e não no bom sentido. O hit Mask Off encerrou o show, sem direito a encore. Já vos contei que os London Grammar foram mesmo bons?
Foto: Nuno Andrade
Até que enfim quase até ao fim | © Nuno Andrade
The Gift

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