Entrevista a Charlize Theron

«A verdade: não sei mais que os outros»

11 | 08 | 2017   19.52H
Não que restassem grandes dúvidas, mas Charlize Theron volta a mostrar em ‘Atomic Blonde’ que é um dos grandes potentos do cinema atual. Ao Destak, fala da infância e do que a move na profissão e na vida.
Destak | destak@destak.pt

Fez anos esta semana mas, realmente, quem tem tempo a perder com a passagem mesquinha dos segundos quando estamos na presença de uma luz continuamente divina? Deixai entrar Charlize Theron. Vem da África do Sul e, depois de ter passado anos a ser admirada nas passagens de moda internacionais, transitou para uma selva ainda mais perigosa, a do gabinete de audições em Hollywood.

A todas estas humilhações ela sobreviveu com perfil de garça imperial capaz de impor ao pântano um tom de leveza. Hoje, aquele pescoço longo é inspiração para rajadas de perfeição cinemática, incluindo as que vemos nos anúncios do perfume Dior ou no filme Mad Max. No caso do novíssimo Atomic Blonde, a sua tendência atlética vem mesmo a calhar, tantos são os pontapés, joelhadas, cotoveladas e tiros que ela distribui um pouco por onde vai passando com o teu trote de leoa.

Pessoalmente, a fera mantém-se em repouso, apesar de residir nela toda uma fúria capaz de dominar toda uma revolução em Berlim e, ainda, o verão de 2017. A paleta tem tons de farda britânica MI6 e, entre sensibilidades punk, tem um piscar de olhos às mini saias perigosas de Helmut Newton tal como ficariam envergadas pela resistência juvenil que derrubou o muro de Berlim.

Este filme eleva para outro nível a ideia de que um ator também tem de ser atleta. Mas, se em vez de estar a trabalhar no cinema estivesse a trabalhar no FBI ou na CIA, acha que seria uma grande espia ou a Charlize pende mais para o temeroso?

Mas estamos a brincar? Claro que daria uma espia fantástica.

Como é que se avalia em questões de ferocidade?

Considero-me bastante feroz numa série de circunstâncias.

Fora a destreza física, como é que uma mulher navega a arte da manipulação?

Manipulação entre os sexos tanto funciona num sentido como no outro. Se calhar, porque sou mulher, é um tema que não consigo tratar sem algumas ideias feitas, mas acredito que a mulher talvez tenha ao seu dispor uma caixa de ferramentas maior quando é preciso sobreviver. Um homem, quando encurralado, confia no que sabe. Uma mulher faz tudo o que pode e tem de ser feito. Só por si, esse elemento permitiu que a minha personagem pudesse fazer coisas pouco vistas no cinema. Uma mulher ameaçada, que dá consigo entre a espada e a parede, é imparável.

Como correram as cenas mais violentas?

Alguns dos nossos melhores duplos – um belíssimo naipe de especialistas vindos de Budapeste – não estavam preparados para o facto de eu ter vindo do mundo do bailado. Tanto em velocidade como em altura, tenho um grande alcance no pontapé. Houve muita reunião no bar local, ao fim do dia, em que tive de pagar uma série de rodadas aos pobres dos homens que foram atingidos.

Acha que vai continuar a fazer filmes de ação?

Repare: já ando nisto há 17 anos. Toda a gente sabe que só me interessam as boas histórias. Vou onde encontro as melhores narrativas. Tanto pode ser numa tela mais realista como o filme Monstro ou em algo mais apocalíptico como o último Mad Max, em que fui obrigada a treinar até ficar com pescoço grosso de futebolista. Mas nada disso interessa. A transformação física é um pormenor ínfimo, secundaríssimo, daquilo que me orienta as escolhas. Desta vez quis ir onde estava o movimento físico, em parte porque é raro encontrar filmes que sejam totalmente físicos, em que a história é guiada não pelo diálogo mas pela ação descrita em movimentos inesperados. Há pouquíssimos realizadores que conseguem contar uma história através da expressão muscular e emocional. Talvez tenha a ver com o universo do bailado em que cresci. Foi como bailarina, em criança, que encontrei pela primeira vez a possibilidade de contar histórias sem usar palavras, apenas com o corpo. Há nesta ligação algo de muito profundo para mim.

Não me diga que foi mesmo a Charlize a fazer aquelas cenas dos banhos de gelo…

Não sou assim tão corajosa. Essas sequências foram, por falar nisso, dificílimas de concretizar do ponto de vista técnico. Não consigo imaginar fazer aquilo tudo dentro de um banho de gelo. Essa seria uma daquelas plataformas problemáticas para várias partes do meu corpo.

Mas há dias em que penso que a Charlize é capaz de tudo. A Vanity Fair descreveu-a como sendo uma leoa dotada de grande compasso moral. Tem medo de alguma coisa?

Por amor de deus! Mas claro que sim. Sou apenas um ser humano. Há muitos momentos em que me sinto completamente ultrapassada pelas circunstâncias, por aquilo que é a vida, pela realidade. A verdade é esta: não sei mais que os outros. O que acaba por ser uma desculpa fantástica para colocar todas as responsabilidades nos ombros da minha mãe. Aquilo que posso dizer, se bem me lembro, é que nunca me lembro de ter sido colocada num determinado género. E nunca vi um determinado género como sendo mais negativo que outro. Nesse aspeto tive imensa sorte. Eternamente grata.

Mas, ao lado desse liberalismo, havia o resto da realidade no país…

Cresci num país em que as pessoas viviam entre meias-verdades, no meio de mexericos, mentiras, propaganda. Ninguém dizia nada. Acho que isso me influenciou muito nos meus anos da adolescência. Foi, possivelmente, por ter crescido naquele ambiente que compreendi a urgência da liberdade de expressão. A pessoa tem o direito de poder pensar e exprimir-se. Toda a gente tem de se dar conta de que a vida é limitada e que, no fim, só interessa saber se houve algum grau de autenticidade na maneira como essa vida foi vivida.

Foto: DR
«A verdade: não sei mais que os outros» | © DR

1 comentário

  • ««A verdade: não sei mais que os outros»» ---UM DOS MELHORES FILMES DE VERÃO EM ESTREIA EM PORTUGAL. VALE A PENA ASSISTIR NUM CINEMA PERTO DE SI. BANDAS SONORAS FABULOSAS, ACÇÃO E MAIS ACÇÃO . UMA ESPÉCIE DE FILME 007 NO FEMININO ONDE AS CENAS DE SEXO TÍPICAS DESTES FILMES EXPLODEM NO ECRÃ COMO MAGIA. -------------------------------------------------- ------------------------------------------------- Charlize Theron confessou ainda ter-se envolvido com mulheres.-------------------- “Quando és jovem exploras de tudo um pouco, mas sempre foi bastante óbvio que gosto de homens.”-------------------- Porém, Charlize, que no seu novo filme “Atomic Blonde” tem diversas cenas íntimas com a também atriz Sofia Boutella, afirmou que foi muito fácil.------------------------------------------- ------------------- “Com a Sofia foi fácil, porque somos duas dançarinas e temos de coreografar essas cenas. Há um aspeto técnico para isso, caso contrário parecem tolas. Por isso, foi fácil porque ela pensa como eu. Somos duas dançarinas”, começou por dizer Charlize Theron.--------------------------- Segundo a atriz, a cena foi filmada durante cerca de 45 minutos, “muito rápido”. “Com os homens, eles tendem a não ser dançarinos e dá um pouco mais de trabalho”, explicou.----------------------- Ainda assim, Charlize Theron não deixa de afirmar: “Desfruto de ambas [as cenas, seja com mulheres ou com homens].” ----------------------------------------
    RIC | 17.08.2017 | 12.30Hdenunciar comentário
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