Entrevista a Channing Tatum

«Toda a gente ainda faz pouco de mim»

06 | 09 | 2017   23.20H
À boleia da estreia de ‘Lucky Logan - Sorte à Logan’, o impactante Channing Tatum fala sobre a forma como os filmes são feitos, as contradições da indústria e de como a relação com a sua mulher está “afinada”.
Destak | destak@destak.pt

O rapaz veio dos anos 80 no Alabama e foi eleito melhor atleta católico numa universidade de Tampa. Cartões de visita tão especiais como este não surgem com frequência em Hollywood. Soa genuíno, de ser humano como os de antigamente, com arcaboiço agarrado à terra e aroma de bacon na gola engomada.

Nos ecrãs da indústria, é de Channing Tatum o domínio do homem real com laivos de deus tangível – por dentro e por fora. Para além da ginástica que o torso lhe permite perto e longe dos varões de cabaret, a presença tem brotado tão calma e atenciosa que o ator acabou por conquistar, igualmente, o domínio cinemático da alma sensível e romântica.

Em filmes como The Vow ou outro qualquer baseado num livro do Nicolas Sparks, o homem encanta do cimo daqueles ombros largos e face benevolente. Mas, se estiver a trabalhar para o colaborador eterno Steven Soderbergh, cuidado com a energia cómica, carnal e autêntica que consegue desencadear.

Desta vez a história envolve um assalto. E muita falta de senso. As pessoas do campo são sempre tão divertidas na interação com as máquinas e com as pretensões da modernidade.

Vou pressupor que, também para um menino nascido nos confins do Alabama, a ideia de trabalhar em Hollywood venha com uma enorme carga de estilo, pose e dicção. Mas, na vida vulgar de todos os dias, qual foi a situação mais excessivamente fotografável e decadente que alguma vez presenciou?

No início da minha carreira, talvez por causa das vantagens fiscais que alguns estados oferecem, o trabalho era quase sempre feito longe de Hollywood. Só mais recentemente passou a envolver essa vida que só conhecemos dos livros, da lenda, quando o ator está dias a fio fechado num estúdio de som e imagem. No filme dos irmãos Coen, Avé César!, vi-me pela primeira vez a trabalhar nesse formato. Lá andava eu, nos estúdios enormes da Sony Columbia, vestido com um fato anos 50 e a fazer sapateado como o Gene Kelly. Foi aí que, pela primeira vez, consegui imaginar como era a vida nos anos de ouro. Emergia da minha rulote e ia para as filmagens. Tudo no mesmo perímetro. Senti-me totalmente cool e nostálgico, como se estivesse a partilhar aquele ambiente de outrora, as vielas entre os edifícios, pessoas vestidas e mascaradas de maneira diversa andando por ali, vários filmes diferentes sendo feitos num mesmo espaço criativo.

Que estratégia prefere diante da fama? Lê toda a informação que circula sobre si, de forma a poder reagir devidamente; ou, pelo contrário, prefere não saber nada, talvez a única estratégia para sobreviver a essas coisas traiçoeiras a que chamamos tendências populares?

O melhor, penso, é continuar a viver como se nada estivesse a acontecer. Mas, depois, ainda é preciso gerir os muitos desafios da promoção – neste aspeto, é como se o ator estivesse a jogar com outra identidade totalmente distinta. Sobretudo agora, quando vender um filme parece ser quase mais importante que fazer um filme. Há produtos que, embora sejam medíocres, vendem. Precisamente porque foram promovidos até à exaustão. Pelo contrário, há filmes que são muito bons mas que, se não forem divulgados, ninguém vai ver. É como se o ator tivesse que inventar uma personalidade diferente só para poder vender o filme. Cabe ao ator encontrar coerência entre tudo. Não faz sentido andar a promover-se como sendo indivíduo conservador e tradicional para, mais tarde, se vir a saber que a carreira dele começou num clube de striptease. No meu caso é simples. Sempre que regresso ao Alabama, toda a gente ainda faz pouco de mim. Os amigos, a família. Nada mudou. Não corro o risco de, um dia, dar comigo a pensar: “Oh, acho que já não consigo ser quem sou realmente”.

Gosto muito, sempre sem qualquer pulsão ou assédio, de acompanhar todos os pormenores domésticos, ou mesmo íntimos, divulgados na sua página de Instagram. É mesmo verdade que, lá na herdade, o cavalo de estimação bebe cerveja diariamente?

É verdade. Disse que o Smokey adora cerveja. O que se passa é que, porque a cerveja é uma bebida feita à base de cereais, o cavalo vem logo à minha mão tentar perceber se há por ali algo que lhe seja familiar. Para além do Smokey, a herdade – comprámos vários hectares na zona de Ojai, natureza aberta e maravilhosa – tem ainda outro cavalo que é um refugiado a empréstimo, cinco cabras, dois cães, uma dúzia de galinhas.

Como é que a sua esposa se dá com a fama do marido? Sei que há uma criança no ninho. Imagino que uma boa parte do tempo dela já não é passado a trabalhar como atriz…

Ela está a passar por uma fase muito boa da carreira. Tem, entre muitas outras ocupações na sua agenda artística, um papel recorrente na série Supergirl. Mas há, naturalmente, algumas contradições em Hollywood. Por vezes chego a casa e digo que passei o dia a aprender certos passos de dança. Eis que ela olha para mim como se estivesse a dizer “Mas eu sei fazer isso, se calhar melhor que qualquer outro dançarino nesta cidade!”. Há momentos frustrantes, especialmente quando sou chamado para fazer algo que nunca fiz antes, tendo ali ao lado alguém que é especialista. Seja como for, estamos constantemente a falar disso. Acordamos juntos todos os dias e ela sabe o que penso sobre o assunto. Para nós, o problema não existe. Mas, claro, estamos por dentro. Os tablóides estão de fora, não sabem.

Há mais alguma coisa, sobre essas manhãs passadas em conjunto, que os tablóides não estejam a divulgar devidamente?

Uma pergunta que me faço com frequência é: “Channing, deste-te ao trabalho de lhe fazer o almoço? Não. Ok, tudo bem”. E lá vou eu à loja, comprar qualquer coisa. Nisso, terei de admitir: nunca sou eu a fazer o almoço. É sempre ela a tratar do assunto. Ou seja, ela terá, provavelmente, este problema como razão de queixa.

Foto: DR
«Toda a gente ainda faz pouco de mim» | © DR

1 comentário

  • DEUS TAMBÉM NÃO AGRADOU A TODOS.JÁ VISTE AS MODERNICES QUE HOJE EM DIA HÁ,,E FUTURAMENTE TODO O CONTEÚDO DA BÍBLIA SERÁ CANTADA.O MELHOR É IGNORÁ-LOS,POIS DEVES SABER QUE SÃO DEMENTES.
    EMANUEL | 09.09.2017 | 10.39Hdenunciar comentário
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