Entrevista a Julia Roberts

«Não me permito ficar com medo»

06 | 12 | 2017   22.46H
A eterna “Pretty Woman” é uma das estrelas do comovente “Encantador”, filme que estreia hoje em Portugal. Entrevistámos aquela que será a mais amada das atrizes norte-americanas contemporâneas.
Destak | destak@destak.pt

No cinema, as estrelas não aparecem todas as noites. Mas, de vez em quando, lá surge um corpo fulminante que queima e deixa marcas. O magnetismo da estrela não tem tanto a ver com os filmes que fez, com as histórias que contou ou com os realizadores e colegas que apareceram ao seu lado na ficha técnica. Uma estrela só existe se tiver aquilo a que chamamos presença.

Julia Roberts, a menina da Geórgia que saltou para a fama ao fazer de prostituta doce na comédia romântica "Pretty Woman" e que acabou por ganhar um Óscar ao combater as forças do mal normal no drama "Erin Brockovich", tem isso – uma enorme presença. Não há outra carreira em Hollywood que venha tanto do coração.

Sim, ela domina todos os tons da raiva e da ironia, do amor e do sarcasmo e da tristeza, todos os tons da dor e confusão, medo, terror e fragilidade. Mas é o seu calor – a sua autenticidade humana – que nos aquece a memória.

O novo filme dela, Encantador, apresenta-nos uma mãe que tenta proteger o filho nascido com deformações crâneo-faciais, correndo ela o risco de descurar outros aspetos da sua vida. É outra tirada sincera, tocante e absolutamente mágica da atriz que não consegue deixar de ser quem é.

As estrelas são assim. Servem-nos histórias de vulnerabilidade mas, enquanto as admiramos no escuro do cinema, mantêm-se firmes e luminosas.

Consta que, nos dias que correm, festeja os seus 50 anos de vida. Como é que uma estrela do cinema – digamos uma estrela com o calibre de, sei lá, uma Julia Roberts – festeja os 50 anos? E como se sente enquanto atravessa este momento da sua vida?

A festa é sempre feita na companhia da família. Como me sinto agora? Sinto-me ótima. Como já me sentia ótima no ano passado. Também tenho a certeza que gostaria de me sentir outra vez ótima daqui a um ano. Quer dizer, não consigo perceber bem a grande algazarra que se faz em torno desta data em particular. Ninguém sentiu uma excitação especial quando fiz 47. (risos). Mas tenho de, pelo menos, agradecer os ramos de flores. Por favor, não pense que me sinto mal-agradecida. O que não compreendo é a investigação cirúrgica que se faz à passagem dos 50. Como se qualquer viagem em torno do sol não fosse causa para celebrar e sentir gratidão.

É apenas uma maneira de contar o tempo, um marco, não acha?

Sim, é. E o que quis dizer foi exatamente isso: estou a amar cada momento dessa celebração em família.

Quem, para além dos seus pais, lhe deu um sentido da sua enorme beleza? Não falo aqui tanto da aparência exterior, mas da riqueza pessoal e interior.

Acho que isso é sempre trabalho que tem de ser feito pelo grande amigo que temos na nossa vida. Também era aí que eu queria chegar. Sinto que, quando éramos crianças, não andávamos sempre a examinar o nosso ser ou cada uma das emoções. Pelo menos não o fazíamos com a frequência que vejo agora. Naquela altura, os anos do crescimento, como são os da adolescência, eram vistos e devidamente classificados genericamente como “aquela fase esquisita”. Ou, então, a coisa era remetida para uma conveniência tão simples como “oh, sabes como é, todos os adolescentes precisam de mais autoestima”. Não era um assunto que tivesse de ser debatido todas as semanas. Não havia conversas dedicadas exclusivamente ao tema. Para o bem ou para o mal, era assim que se fazia. Não sei como foi a juventude de cada um. Mas garanto que a minha mãe não teve uma vida em que, de forma regular, se sentava com a minha avó a falar de determinados assuntos. Mas há sempre avanço e progresso. O que acho interessante é que nos transformámos nestes indivíduos que sentem prazer em falar e partilhar. Gostam de comunicar. Há várias conversas em curso sobre a maneira de fazer as coisas de outra maneira, tornar tudo melhor. Há uma enorme veiculação informativa sobre outras estratégias de tornar tudo mais interessante. Como mãe, reside aqui um dos elementos mais interessantes do exercício parental. Mas não sei se foi essa, necessariamente, a minha experiência enquanto jovem ou adolescente.

Já alguma vez foi vítima do fenómeno do ‘bullying’?

Sim, por jornalistas. Não, agora mais a sério: acho que não existe uma única criança que tenha frequentado a escola primária e que nunca tenha sido gozada ou humilhada pelos colegas, de uma maneira ou de outra. Embora, olhe, não sei. Se calhar, como jornalista, o senhor nunca foi discriminado no recreio. Se calhar os jornalistas são de tal modo ‘cool’ que nunca passaram por nada desse género. Seja como for, connosco a história é diferente. Nós, as pessoas normais, acabamos inevitavelmente por ser discriminadas de uma maneira ou de outra ao longo da vida.

Daqui a pouco tempo os seus filhos vão tornar-se adolescentes. Acha que isso vai mudar a sua perspetiva face à vida?

Perante esses factos incontornáveis, não me permito ficar com medo. Não vou ficar com medo. Não vai poder, com essa pergunta, meter-me medo. (risos).

No filme, aquela mãe diz ao filho que toda a gente tem marcas e pontos na cara. Mas que, para seguir pela vida fora, os únicos sinais que interessam estão no coração, porque são eles que nos mostram o caminho a seguir. No seu caso, dá consigo a pensar que futuro lhe está reservado?

Muito sucintamente, a resposta é não. A resposta mais longa é: adoro todo esse pequeno discurso, a maneira como foi escrito. Achei tão bonito. Acredito mesmo que o coração é o nosso grande compasso, aquele que nos diz onde temos estado, por onde passámos, para onde nos encaminhamos. Sabe, não fiquei imune à poesia desta história. Adoro cada momento do que contamos aqui. Continuo a acreditar nestas ideias. Continuo a acreditar que o nosso corpo e a nossa cara mostram os lugares por onde passámos e o que fomos sentindo ao longo dessa caminhada.

Alguma vez teve dúvidas sobre a qualidade ou sobre a consistência da sua carreira?

Nunca! Nunca tive uma única dúvida! Nem por um momento. (risos). Não sei como responder. Lembro-me disto: nem mesmo com as minhas dúvidas constantes, nem mesmo com a minha falta de autoconfiança, me desviei do caminho que seguia. Precisamente porque tive sempre acesso a um espaço de calma. Houve sempre algo que dava paz. Soube sempre que, de uma forma ou outra, no fim tudo iria fazer sentido.

Foto: DR
«Não me permito ficar com medo» | © DR
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE