Entrevista a Frances McDormand

«O que temos é uma mulher em fúria»

11 | 01 | 2018   00.02H
Apenas uma atriz neste mundo poderia ser a protagonista de “Três Cartazes à Beira da Estrada”, aclamado filme que estreia hoje: Frances McDormand. Dias depois de ganhar o seu primeiro Globo de Ouro, eis a entrevista.
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Frances McDormand, a lendária atriz que vive longe dos holofotes e dos clichés dominantes de Hollywood, volta esta semana com um filme, Três Cartazes à Beira da Estrada, que fala da resistência humana face ao poder institucional do estado. Há um grito no ar, uma raiva, juntamente com alguns cocktails molotov.

A mulher foi à luta. Ela não está interessada em fazer reféns. A única coisa que exige é ação, justiça. Ficam as três (ou quatro) perguntas à senhora que gosta de criar mulheres no ecrã que sejam donas do seu destino, rasgos em forma de ser humano que se recusam a pedir desculpa pelas lições que vão dando enquanto caminham neste mundo.

Frances, a sua personagem neste filme – a senhora Mildred, da localidade de Ebbing, no estado do Missouri – parece mesmo ser uma espécie de John Wayne com determinação suficiente para cortar a paisagem ao meio. Como foi a experiência de carregar essa carga de energia e revolução?

Adorei usar o John Wayne como talismã e ideal. Desde logo, porque sempre amei a maneira como ele andava. Era um homem muito alto. Embora calçasse o número 44, os pés dele mantinham-se demasiado pequenos para o tamanho daquele corpo. Era por isso que aparecia sempre no ecrã, em filmes de ação e muito movimentados, a andar daquela maneira – um andar tão queridinho e amaneirado. Para ele, aqueles passinhos dados com tanta elegância eram apenas ele a tentar manter-se de pé, em cima de uns pezinhos amorosos. Pelo menos foi isso que li.

Não sabia que lia biografias. É um género muito especializado…

Geralmente não leio biografias. Mas li esta do John Wayne. Li o livro num ápice, da capa à contra-capa com uma voracidade que geralmente não me é suscitada por biografias de atores. Isto para dizer que biografias de atores é algo que, de uma maneira geral, acho desinteressante. Não foi o caso do John Wayne. Gostei de saber mais sobre ele. Achei interessante que tenha sido ele mesmo a construir a imagem do John Wayne. Havia, de nascença, um indivíduo nascido no estado do Iowa e chamado Marion Morrison. E, depois, havia também um John Wayne. O Marion sabia que o público precisava de um John Wayne. A história, os estúdios, as plateias, toda a gente andava à procura de um John Wayne, a tal imagem icónica do herói. Mas ele, o indivíduo, sabia que havia uma grande diferença entre o Marion Morrison e o John Wayne. Fora isto tudo, também adoro o facto de os pais dele terem dado à criança o nome Marion. (risos) Por amor de deus. Mas qual foi a ideia? (risos).

Como é que esta mulher do filme consegue, apesar da sua vulnerabilidade, ser tão corajosa?

Estava tudo no grande texto do guião escrito pelo Martin McDonagh. Mas também há isto a considerar: quando vamos ver a minha filmografia encontramos ali uma série de mulheres vitimizadas, embora, acho eu, o meu retrato delas tenha acrescentado algo extra – precisamente porque eu sou este tipo de pessoa. No caso da mulher neste filme, há uma grande prenda no centro da sua evolução. Sabemos que, mesmo que ela tenha sido tratada como vítima noutras fases e facetas da sua vida, desta vez fica claro que está ali para agir. Ninguém fica com dúvidas. Desta vez ela está ali para tomar providências, fazer algo. E não vai olhar para trás. Era muito importante, por exemplo, não fazer dela uma pessoa de quem se gosta logo à primeira vista. Não é fácil gostar dela. Não queríamos fazer dela uma figura maternal. Não queríamos que ela defrontasse a povoação com um ar doce e maternal. Isto é uma mulher que está em guerra com quase toda a gente. Ora bem, isto é algo que não vemos com frequência nas personagens femininas. Geralmente há ali momentos em que quase se pede desculpa. Desta vez não queríamos que ela andasse ali a pedir desculpa. Uma das minhas citações prediletas é uma frase de Red Auerbach, um lendário treinador de basquete: “Não há ação correta que exija explicação ou pedido de desculpa”.

Como é que vê esta Mildred Hayes por comparação à Marge Gunderson do clássico Fargo? Encontra-se ali o espectro da maternidade, em ambas…

Não vejo grandes semelhanças. No Fargo ela vai ter um filho. Neste filme o que temos é o oposto – como sabe, o grande imperativo é que uma mãe nunca deixe que um filho seja morto. Mas estava também a pensar no Blood Simple [aclamado filme de estreia dos irmãos Coen]. Os irmãos Coen fizeram uma cena em que dou um pontapé nos tomates de alguém. Era uma daquelas cenas que criava uma pequena reação de escândalo na plateia. Era um choque. Ora bem, neste filme o realizador dá-me, não uma, mas duas cenas em que prego um bom pontapé nos tomates de alguém. Um dos poucos pontos de confluência entre essas duas mulheres é este: conseguem revelar o ‘zeitgeist’, a energia dos tempos. O Fargo apareceu numa altura em que as mulheres americanas grávidas trabalhavam até que chegasse o momento do parto. Faziam parte do mercado de trabalho de uma maneira diferente. Não vestiam batas de grávida porque não havia batas de grávida no local de trabalho. No caso deste Três Cartazes à Beira da Estrada, a situação é diferente. Neste filme, a mulher não está apenas a perder a paciência. Não está apenas zangada. Para situações desse tipo há cursos de ‘anger management’, sessões de terapia que tentam curar o temperamento irritado. Neste novo filme a mulher não está apenas irritada. O que temos é uma mulher em fúria. Ora bem, fúria é algo que pertence ao universo da tragédia grega. Eleva tudo a outro nível, como se a Mildred fosse uma auscultação ao mais recente espírito global. As grandes histórias do cinema têm sempre este lado. Deixam de ser apenas bons filmes e transformam-se em matéria de conversa. Mas, ainda sobre as diferenças entre as duas personagens – na última cena do Fargo a Marge Gunderson é vista na cama conjugal a dar miminhos ao marido. Está grávida e acabou de resolver um crime horrendo, provavelmente o caso de massacre e homicídio mais difícil e de sucesso que ela vai ter na vida. Mas o dia dela acaba com o marido a falar do selo de correio que não ganhou o concurso. Um selo de 2 cêntimos.

Foto: DR
«O que temos é uma mulher em fúria» | © DR

1 comentário

  • Não vivia assim com uma mulher desta.
    Cliente | 11.01.2018 | 16.06Hdenunciar comentário
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