Entrevista a Guillermo del Toro

«Queria que houvesse sempre muita água»

31 | 01 | 2018   23.44H
Falámos com o cineasta Guillermo del Toro, a mente brilhante por detrás de “A Forma da Água”, aclamado filme protagonizado por Sally Hawkins, um comovente hino ao amor e ao respeito pelas diferenças de uns e de outros.
Destak | destak@destak.pt

Guillermo del Toro, filho de Guadalajara, estado de Jalisco, México, tem passado a vida a meter medo. Nas histórias dele é fácil encontrar labirintos existenciais, fascismo espanhol, orfanatos, cenas do fim do mundo, vampiros, infernos, punhais, sangue e muita opressão vinda dos deuses poderosos - alguns deles sob a forma de figura paternal doméstica, mas com jeito para a ditadura.

Mas a nova aventura é algo bem mais refrescante. Fala de uma trabalhadora modesta, mas rebelde, decidida a ver amor e compaixão onde outros só encontram ameaça. Atenção ao dilúvio de água. O filme contem água nas ruas e chuva nas janelas. Há igualmente lágrimas, transpiração. E, quando ela rasga o calendário, a frase que fica à vista diz «O Tempo é um rio que que corre vindo do passado».

Água é amor. A Forma da Água tem a forma dos nossos afectos. O senhor Guillermo, recente vencedor do Globo de Ouro de melhor realizador do ano, explica-nos tudo o resto.

Diga-me como chegou àquela banda sonora fantástica do Alexandre Desplat. Suponho que, para além da importância que lhe conhecemos na história do cinema, a música tem aqui um valor acrescentado: porque estamos a ser elevados num romantismo que transpõe barreiras e contornos tradicionais, porque também a protagonista de A Forma da Água se exprime com uma linguagem transnacional, etc. Fale-me disto...

A música tem, na história que quero contar, importância absoluta. Repare que a música, num determinado sentido, iria ter por função ser a voz do filme. Ou seja, teria de funcionar em duas correntes emocionais. Por um lado teria de conjurar musicalidades fluídas e encantadoras, exatamente como a água. Mas, por outro lado, teria de servir de voz à nossa interveniente principal. Seria a voz da Sally. É através da banda sonora que temos acesso aos labirintos emocionais que ela desbrava. Conseguimos compreender a Sally através da música.

Que orientações deu a Sally Hawkins? Quem eram os seus compositores favoritos?

Quando o Alexandre Desplat me perguntou que tipo de música eu imaginava para a história, atirei com o nome de George Delerue. Compositor fantástico. Hoje, posso dizer que o Alexandre é o herdeiro mais direto de Georges Delerue. Depois, pediu-me outro nome. Disse: Nino Rota! Porque queria que o filme, ao lado da sua grande componente americana, tivesse um sabor a cinema europeu. Queria que tivesse uma grande sensualidade, um grande amor pelo cinema, um grande amor pelo amor.

Uma pessoa sabe que o Guillermo, quando faz cinema, conta histórias de uma maneira que é só sua. Que elementos novos existem neste filme?

Já faço filmes há 25 anos e, desta vez, foi como se todos os outros trabalhos me tivessem levado a fazer este último. Há dias alguém disse-me que, com este filme, pude finalmente exalar. Foi como se, ao longo destes 25 anos, eu tivesse inspirado, absorvido, contido, guardado. Desta vez pude deitar essa minha voz cá para fora. Nesse sentido, este filme é mais exato que os outros. Há nele uma grande energia, uma quase ausência de fricção, um esforço coletivo. É um tipo de obra muito difícil de concretizar. Se formos a ver o que o filme quer fazer, se tentarmos perceber quais são os objetivos e ambições, é uma peça que consegue fazer quase o impossível. Que alvo queria o filme atingir? Quase que se parece com um filme musical. Ou com um ‘thriller’. Ou com uma comédia. Talvez se pareça com uma carta de amor à grande variedade que existe na arte do cinema. Mas, para além dessas referências, queria que fosse um objeto sólido e único do ponto de vista emocional e artístico. Queria que fosse um momento de exaltação.

Fico com a impressão de que esta fase da sua vida parece ser um novo começo para si…

Ainda não sei bem do que se trata, tudo isto. Mas é, de facto, uma fase nova. Tinha 52 anos quando dei comigo a pensar: ora bem, que vou eu fazer com este filme? O que é que ainda não tentei antes? Portanto, sim, o filme aconteceu e foi produzido na sequência de um propósito claro e que me chegou por vias muito conscientes. Queria, realmente, fazer algo diferente. Eu pelo menos, senti isso. Espero que também o espectador sinta de algo semelhante. Pode ser que, quando estamos a ver o filme, a viagem traga à memória outros temas que abordei anteriormente. Nesse sentido, a nova história é uma súmula de muita coisa. É uma síntese. Uma síntese de muitos assuntos que, ao longo dos anos, fui aludindo nos trabalhos que ia fazendo. No meio disso tudo, quera que o filme fosse uma novidade. Queria que nos trouxesse sensações novas.

Onde é que vê essas grandes novidades?

Os nove filmes que tinha feito antes eram uma espécie de reencaminhamento, uma espécie de linguagem que encontrei para os meus grandes mitos de infância. Foram nove filmes a contar a minha mitologia ancestral. Com este filme falo, pela primeira vez, como adulto.

O que é que, de maneira deliberada e consciente, achou que deveria ser dito?

Achei que era muito importante falar de identidade, falar das outras partes do que somos, falar de compreensão e empatia e intimidade e sexo, falar do verdadeiro significado de amor. Falar do ato de amar. Era essencial que, quase que de dois em dois minutos, o ecrã mostrasse água. Queria que houvesse sempre muita água em movimento. E queria que o filme tivesse grandes painéis centrais com água, grandes peças centrais com água cheia de vida. É por isso, também, que o prólogo da história foi feito daquela maneira. Em estilo musical, a câmara não se detém e flui como água. Sempre sobre carris e através de um guindaste. Flui por ali adentro. Quando a protagonista acorda, o sonho que estava a ter tinha muita água. Levanta-se, vai cozer ovos com água, masturba-se debaixo do chuveiro, passa uma camada de graxa líquida nos sapatos e vai para o emprego.

Foto: DR
«Queria que houvesse sempre muita água» | © DR
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