Entrevista a Jamie Bell

«Ele está ao dispor dela. Adorava aquela mulher»

07 | 02 | 2018   23.26H
Jamie Bell, o eterno “Billy Elliot”, é um dos co-protagonistas de “As Estrelas Não Morrem em Liverpool”, umas das agradáveis surpresas deste início de ano cinematográfico, formando com Annette Bening um casal irresistível.
Destak | destak@destak.pt

Jamie Bell, o mesmo que veio do norte de Inglaterra para conquistar o mundo com as piruetas revolucionárias do clássico Billy Elliot, aparece esta semana nos braços de uma ‘vamp’ mais velha. Nunca se sabe, na extravagância da coreografia, onde é que o gesto deste moço vai pousar. Uma coisa não muda: a sua crença generosa. É dele a cara mais sã, a expressão mais inocente e o ímpeto mais sincero, como se fosse porta-voz dessa figura recorrente a que chamamos o ‘jovem devoto’.

A irrequietude otimista de Jamie Bell já foi usada por Spielberg durante a conversão do Tintin ao cinema, já auxiliou Peter Jackson na renovação da saga King Kong e já ajudou Clint Eastwood quando foi preciso retratar o sacrifício dos soldados meninos nas guerras dos Pacífico. Esta semana, claro e transparente, como é apanágio de quem só se move pelas melhores das intenções, o talentoso ator inglês aparece ao lado de Annette Bening num romance centrado numa estrela de cinema esquecida que, certo dia, deu à costa nas sombras do velho mundo.

Quando foi que, pela primeira vez na vida, se viu na presença de uma estrela de cinema?

Quando conheci a Julie Walters durante as filmagens do Billy Elliot. Foi ela a minha primeira pessoa famosa e glamourosa. Até ali eu era apenas um miúdo vindo da província. Nunca tinha visto estrelas de cinema. Aliás, devido a essa ocasião monumental – conhecer a grande Julie Walters! –, a minha mãe foi comigo comprar uma camisa de botões como deve ser. Foi a primeira vez que vesti uma camisa dessas, de mangas compridas e com botões. Não fazia ideia, ao tempo, que a Julie Walters era considerada um dos grandes tesouros do drama inglês. Agora, com este filme, quinze anos mais tarde, volto a trabalhar com ela.

No filme, como manobrou a diferença de idades? Ele parece mesmo apaixonado, mas ela é uma mulher tão insegura. Como é que vê as questões de insegurança etária numa relação amorosa?

Como ator, eu não estava em posição de trazer à conversa a questão da diferença de idade. Por uma razão muito simples: a minha personagem, o Peter Turner, nunca olhou para as coisas dessa maneira. Ele nunca viu na Gloria Grahame uma mulher mais velha. Uma vez que a história tem lugar nos anos 70 e 80, estamos aqui a falar de uma época em que uma pessoa não tem ainda a possibilidade de investigar quem acabámos de conhecer. Ele não podia, simplesmente, ir ao Google e constatar que a grande Gloria Grahame já tinha casado quatro vezes, já tinha ganho um Óscar, que tipo de vida ela tinha levado, etc. O que gosto nisso tudo é que, por causa dessa crença e falta de informação, a relação torna-se muito pura. É apenas um caso de duas pessoas que se conhecem e cultivam um afeto, sem preconceitos, sem juízos de valor – são apenas duas pessoas embaladas por uma relação de amor, naturalmente. Ora aí está algo, um privilégio, que já não temos ao nosso dispor atualmente. Hoje sabemos demais sobre a vida das pessoas e sobre os ídolos do cinema.

O que aprendeu, ao longo de todo este processo, sobre a grande Gloria Grahame?

Era um daqueles pássaros raros. E, ao mesmo tempo, uma mulher muito complicada. Fica claro desde o início que ela tinha levado, até ali, uma vida bastante turbulenta. Tinha passado muito tempo em Hollywood, onde conseguira o maior dos sucessos. Trabalhou com os melhores realizadores, colegas atores, tudo. Mas houve um ponto em que a carreira dela entrou numa fase de menos notoriedade global. Caiu no esquecimento, por assim dizer. Passou ainda muito tempo a fazer teatro, em Inglaterra, numa daquelas companhias nacionais que vão de cidade em cidade.

Que fascínio viu nesta história tão rara entre homem primaveril e mulher veterana coberta de mossas na alma?

O que mais gostei na história foi isso mesmo: ele está ao dispor dela. Adorava aquela mulher. Perdoava as falhas de carácter que ela parecia exibir, perdoava-lhe as inseguranças todas. Esta história, ao contrário de quase todas as outras, mostra um homem ao serviço de uma mulher. Nos relatos das grandes figuras, a tendência é mostrar a mulher forte, mas apenas como apoio de um homem que se quer ainda mais forte. Ela está ali para auxiliar. No nosso filme mostramos o oposto. A nossa intenção também foi mostrar que ele se manteve ao lado dela até ao fim, uma presença vital quando a doença avançou e o estado dela se deteriorou.

Como é a sua situação, nesta questão da família e do grupo de amigos que devemos ter ao nosso lado? É indivíduo social ou, pelo contrário, vê-se mais virado para o isolacionismo misantrópico?

O amor que sentimos e damos aos outros é essencial. Muito importante, de facto. Pela minha parte, posso dizer que beneficio de uma grande sorte. Casei-me em julho com a [atriz norte-americana] Kate Mara, que eu já conhecia desde há muito e de quem sempre recebi um grande apoio – muito para alem do que eu acharia justo. Não posso dizer que o trabalho do ator seja particularmente duro. Até certo ponto pode ser considerada uma vida de privilégio. Mas vem com uma enorme carga de solidão. Essa enorme solidão, debilitante, é muitas vezes povoada apenas por demónios. O ator passa grande parte do tempo a guerrear com os seus próprios demónios. Ter alguém que nos dê apoio é absolutamente crucial. No filme falamos disso também.

Como é que o marido da Annette Bening, o Warren Beatty, se tem comportado à sua volta sempre que se cruzam nas estreias e visionamentos oficiais do filme?

Estivemos juntos no decorrer do festival de cinema de Toronto, em setembro. Vimos o filme sentados quase juntos, no cinema cheio de gente. A Annette estava sentada entre nós. Por varadíssimas razões, achei aquele arranjo protocolar uma coisa medonha que me encheu de pavor. Já mais tarde, o Warren veio ter comigo. Durante o beberete, reparei que veio direito a mim. Só pensei “Ok, pronto, é agora, aqui vem, vai acontecer mesmo”. Mas o Warren não podia ter sido mais simpático. Aliás, percebendo que eu não estava a prestar o devido valor aos elogios que me deu, pediu que a minha esposa se aproximasse. Disse que, mesmo que eu me esquecesse daquelas palavras, a minha esposa seria testemunha. E disse coisas que, quando são ditas por uma lenda viva do cinema, qualquer actor gosta de ouvir. Foi um momento muito emocionante e inesquecível. O Warren e a Annette são exemplares. Tanto talento. Tanto sucesso.

Foto: DR
«Ele está ao dispor dela. Adorava aquela mulher» | © DR
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